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Sónia Brazão admite: “Nunca pensei ser capaz de aguentar tanto sofrimento”

Nesta sua primeira entrevista depois de ter sido condenada, a atriz conta como superou os momentos de dor e revela o rumo que quer dar à sua vida.

Marta Mesquita
7 de junho de 2014, 14:00

No passado mês de novembro, Sónia Brazão, de 39 anos, foi condenada a três anos de prisão com pena suspensa pela explosão que destruiu o seu apartamento em junho de 2011. Apesar de a juíza do Tribunal de Oeiras ter considerado provada a intenção de a atriz “pôr fim à sua vida por inalação de gás”, Sónia sempre defendeu a sua inocência, negando a tentativa de suicídio.
Ao longo dos últimos meses, a atriz admite que tem passado por um “período de aceitação”, que foi acompanhado de sentimentos de “injustiça” e “dor”. Contudo, Sónia está pronta para recomeçar mais uma vez a sua vida e assegura que não perdeu a capacidade de sonhar.
Nesta primeira entrevista após a condenação, a atriz conta sem tabus como tem enfrentado este período mais delicado da sua vida, expondo todas as suas emoções e fragilidades.
– Como é que se sente depois de ter sido condenada?
Sónia Brazão
– Sofri um grande baque na minha vida. Por dentro, não me sinto diferente, a Sónia de sempre continua cá. A vida é realmente um carrossel. Neste momento, a minha vida está a começar a florir, mas ainda não é um jardim florido.
– Acredito que tenha passado por um daqueles momentos de ‘escuridão’ logo a seguir à sua condenação...
– Não diria que passei por um momento de escuridão, mas passei, sim, por um período de aceitação, porque tive de saber lidar com a verdade e a visão dos outros. Tive de aceitá-las.
– Mesmo depois da sua sentença, a Sónia continuou a negar qualquer tentativa de suicídio. Nunca considerou que estivesse a passar por um período de negação?
– Não, de todo. Aceito a visão dos outros, mas a minha verdade só eu é que sei. Sei que não me tentei matar, mas o resto do mundo pode pensar o que quiser. Não tinha motivos para me matar. Se fosse uma pessoa com essa tendência, agora sim, teria motivos para o fazer.
– Por causa da condenação?
– Sim, depois de todo o processo de dor por que passei. Não estou a pedir a ninguém que me entenda, até porque não há ninguém que possa entender realmente tudo aquilo que passei.
– Tem sido, por isso, um processo solitário?
– Por acaso, não. Tem sido um processo muito lento... Mas espero sempre por dias melhores.
– E continua à espera de propostas para voltar ao trabalho...
– Sinto-me preparada para voltar a trabalhar, agora, se calhar, as pessoas é que ainda não estão preparadas para estarem comigo.
– Sente-se julgada?
– Sim, às vezes. Nunca me senti julgada pelo público, mas pelas entidades profissionais. É normal, não as levo a mal.
– A Sónia continua a defender a sua inocência, mas foi condenada e está sem trabalho. Contudo, parece não sentir qualquer raiva ou amargura... Como é que consegue não se sentir revoltada com tudo aquilo que lhe aconteceu?
– Chorei imenso e senti-me mesmo vítima de uma injustiça! Mas não podia fazer mais nada, tive de aceitar o que os outros pensam, até porque não tive, financeiramente, como recorrer. Sempre soube que era uma mulher bonita e sei que a sociedade esperava que me casasse e tivesse filhos. Mas o meu caminho não foi esse. E acho que tudo isso ajudou a que se criasse de mim uma imagem um pouco trágica. Também não me dou a conhecer facilmente. Só quem é realmente meu amigo me conhece bem.
– Com a condenação, perdeu amigos?
– Não, perdi pessoas. Há pessoas que se afastaram, até porque as nossas vidas tomaram rumos diferentes. Mas todo este processo serviu para ver quem são realmente os meus amigos.
– E no meio de todo este processo sente algum arrependimento?
– Claro que sim! Se soubesse o que sei hoje teria mudado muitas coisas. A vida transforma-nos. Por isso é que digo que a minha lição foi aceitar a visão dos outros. E isso foi muito difícil... Mas tento fazer o meu melhor.
– Mas no meio deste período difícil, a Sónia continua a recuperar das queimaduras que sofreu, estando, aliás, praticamen­te curada...
– Sim, é verdade. Costumo dizer que a minha recuperação física é a inocência que me foi concedida por Deus e pelo universo. Fui condenada em tribunal, mas fui inocentada por Deus. E essa inocência é a melhor coisa que poderia ter. A minha recuperação tem sido, para mim e para os médicos, uma surpresa.
– É verdade que depois da condenação a Sónia optou por se isolar em casa? Como é que tem sido o seu dia-a-dia?
– Só estive isolada em casa naqueles dias em que choveu torrencialmente. Continuo a dar os meus passeios, tenho pintado, até porque agora tenho mais tempo. A pintura e os trabalhos manuais têm-me dado imenso gozo. De resto, estou com os meus amigos, vou jantar, à discoteca... E tenho visto muito teatro. Não estou nada isolada.
– Pondera mudar de área profissional?
– Às vezes sim, mas sei que nunca vou deixar de ser atriz, porque é algo que está em mim. Sempre trabalhei nesta área e continuo a aguardar...
– Sónia, como é que gostava de estar daqui a alguns anos? Tem esperança de que tudo isto passe?
– Gostava de estar bem, tranquila, num bom ambiente familiar e sentir que recomecei novamente. É muito complicado ter quase 40 anos e sentir que temos de recomeçar mais uma vez... Mas a minha vida tem sido feita de recomeços. Só quero que este pesadelo passe com o tempo e a vida tome o seu curso normal.
– Gostava de poder nunca mais falar sobre a sua condenação e tudo o que lhe aconteceu?
– Gostava. Nunca pensei ser capaz de aguentar tanto sofrimento... Mas aguentei.

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