Nas Bancas

Mariza: “Antes do nascimento do Martim não havia uma mulher, havia uma artista”

A fadista, que acaba de lançar o seu ‘Best Of’, revelou à CARAS a mulher que é fora dos palcos. Numa conversa intimista, Mariza confessou as suas emoções mais profundas e contou como é a sua relação com o filho, Martim, de dois anos.

Marta Mesquita
7 de junho de 2014, 10:00

Treze anos depois de ter editado o seu primeiro álbum, Mariza lança agora um Best Of, que reúne os temas mais emblemáticos da sua carreira, aos quais se juntam um inédito e duas versões. Foram anos in­tensivos de trabalho, que a levaram aos grandes palcos mundiais, e só agora a artista tem tempo para ser mulher e mãe. Ao lado do marido, o empresário António Ferreira, e do filho, Martim, de dois anos, a fadista descobre-se agora na sua vida familiar, vivendo em pleno emoções que durante anos não tiveram espaço para surgir.
Numa conversa intimista, Mariza mostrou a mulher feliz que é hoje, relevando o melhor do seu fado, em cima e fora dos palcos.
– Mariza, com este Best Of sente que já está numa altura de fazer balanços?
Mariza
– Bom, 13 anos depois começa-se a pensar naquilo que já se fez. Foram 13 anos muito intensos que me permitiram estar em grandes palcos. Foram anos de muitas palmas, sorrisos e de lágrimas de emoção. Por isso, decidi fazer este Best Of, que contém aqueles temas que se não cantar num concerto deixa as pessoas zangadas comigo! E assim decidimos pôr tudo num só trabalho discográfico.
– E o que foi o melhor e mais desafiante ao longo destes 13 anos de palcos?
– O melhor foi perceber que o fado pode estar nas grandes salas do mundo a concorrer com grandes nomes da música mundial. Foi constatar que se pode pisar esses palcos orgulhosamente e que o fado tem muita qualidade. O mais desafiante é poder fazê-lo para um público que não fala português. Mas é precisamente esse desafio que me dá vontade de fazer mais e melhor. Mostrar a cultura de um povo numa música que tanto nos revela é desafiante no sentido em que a maior parte das pessoas não conhece a cultura portuguesa. Mas quando entro num palco, tenho a certeza de que as pessoas vão gostar.
– Sempre foi assim tão segura de si?
– A segurança vai aumentan­do com a nossa experiência, mas também sinto que à medida que o tempo passa fico mais nervosa, até porque a nossa responsabilidade vai aumentan­do. Sei que não existem concertos perfeitos, mas quero ser cada vez melhor naquilo que faço. E assim sendo, é impossível o sentido de responsabilidade não aparecer.
– Há muitas diferenças entre a artista que pisa o palco hoje e a que pisava há 13 anos?
– Então não há?! Muitas! A voz, por exemplo, é muito mais madura, tem mais corpo, mais experiência. Existe também um maior à-vontade, apesar de as primeiras três músicas serem sempre muito difíceis para mim, porque estou a tentar perceber o ambiente e que tipo de concer­to vai ser. A minha perspetiva sobre a música também mudou, sobretudo depois de ter sido mãe. Antes disso, todas as viagens que fiz permitiram-me perceber que música queria fazer, qual era a minha verdade, mas depois de o Martim nascer essa perceção voltou a mudar...
– Há, então, uma mulher e uma artista diferentes depois do nascimento do Martim?
– Antes do nascimento do Martim não havia uma mulher, havia uma artista. A mulher anulava-se completamente para poder ser artista. Antes, sen­tia-me feliz quando subia a um palco, era isso que tinha realmente expressão na minha vida. Não tinha tempo livre e nem sequer sabia o que fazer com ele, porque tinha tantos concertos que onde me conseguia realmente encontrar era quando estava em palco. E isso tudo fazia com que houvesse um espaço vazio na pessoa que eu era, porque quando tudo acabava não estava lá ninguém. Saía do palco, apagavam-se as luzes, ia para o hotel e não estava lá ninguém...
– Mas entretanto nasceu o seu filho...
– Sim, entretanto nasce o meu filho... Continuo a precisar da música e dos palcos para me entender e para ser feliz, mas hoje já há a artista e a mulher. Não quer dizer que ambas não estejam juntas, mas de certa forma a mulher consegue perceber a artista e vice-versa. Antes, a minha família ficava com o resto do tempo que sobrava, quando havia tempo. E hoje há tempo e quero mesmo estar com a minha família. Quero muito estar com o meu filho, participar nas brincadeiras dele, nos jogos, estar lá para ouvir a sua primeira palavra, ver o seu sorriso, que é algo que me faz ganhar o dia...
E isso é melhor do que qualquer palco do mundo?
– Então não é?! [risos] Mas não consigo viver sem o palco, porque isso faz parte da minha identidade, daquilo que sou. Mas penso e sinto que o Martim vem sempre em primeiro lugar.
– Arrepende-se de se ter dedicado em exclusivo aos palcos durante tantos anos?
– Não, de forma alguma! Foi muito bom. Pisei palcos que nunca tinha sonhado pisar na vida! Já fiz o que acho que deveria ter feito. Aconteceram-me tantas coisas boas e, por isso, agradeço muito ao público, à música e ao fado. Mas acho que chegou o momento de viver outras emoções, de estar em família e perceber o que isso é... Também já estou numa fase da vida em que tudo isto me fazia falta. Abrandei muito o meu ritmo de trabalho e já nem quero fazer tantos concertos como fazia.
– Para quem já conquistou tanto na música, que sonhos lhe falta concretizar?
– Continuar a cantar será sempre um sonho. Quero que tudo se mantenha neste patamar e isso é difícil. Sinto-me muito feliz por poder continuar a cantar, até porque agora tenho um ouvinte muito especial... O Martim ouve tudo com muita atenção. Ele foi assistir ao concerto dos 50 anos do Carlos do Carmo e bateu palmas, dançou e agora até canta em frente ao espelho!
– Que mãe é que a Mariza é?
– Sou uma mãe muito orgulhosa, sou ‘mãe-galinha’. Acho que sou uma mãe como todas as outras. Gosto de estar muito atenta a tudo o que o Martim faz, estou sempre a controlar o desenvolvimento do meu filho, até porque nasceu prematuro e poderia ter algum atraso no desenvolvimento. Mas não tem atraso nenhum, até é esperto demais! Estou sempre muito atenta e quero que o Martim seja um ser humano de exceção.
– É essa a grande missão da sua vida?
– Acredito que na vida nada acontece por acaso... O Martim tinha mesmo de ser meu filho e eu teria de passar por tudo aquilo que passei para descobrir que existe um amor inexplicável. Muitas vezes falei com Deus e perguntei-lhe o que me queria mostrar com aquela dor tão grande de ver um filho passar por tudo aquilo... Mas hoje consigo perceber o ensinamento que Deus me quis dar, consigo perceber o que a vida me quis mostrar... Eu tinha de aprender a amar incondicionalmente, fosse como fosse, tivesse o meu filho o que tivesse. Quando os médicos me disseram que a minha gravidez não podia continuar, olhei para eles e disse-lhes: “Perdido por cem, perdido por mil, o que vier é meu, porque eu já amo e já quero.” E foi uma luta gigantesca. Houve um dia em que os médicos me disseram que tinha chegado aquela fase em que o Martim tinha de lutar sozinho, porque a ciência já não podia ajudar. E eu, que sou crente, falei com Deus e disse que já não aguentava ver sofrer um ser que amava tanto. E passadas duas semanas o Martim estava fantástico.
– Sente que a luta que ele travou mal nasceu fez dele um ser humano ainda mais especial?
– O meu filho é um ser humano extraordinário. Às vezes olha para mim com um olhar tão sabedor... Ele fala muito pouco, até porque é bilingue, mas apesar de ser ain­da tão pequeno parece ser muito sábio. O Martim veio ajudar-me a ser um ser humano melhor, a ser mãe e mulher. Também aprendi a ter mais calma com a vida e a ser mais humilde. Antes era extre­mamente competitiva comigo, com o trabalho e com os outros. Hoje, continuo a ser muito competitiva comigo própria, mas depois olho para o Martim, para o meu marido e para os meus pais e penso: “O que tiver de ser, será. Vou é viver este momento.”
– Temos estado a falar da importância do Martim na sua vida, mas a verdade é que o seu marido também foi fundamental para descobrir toda esta nova dimensão emocional...
– O António é um pai delicioso. Para já, é um pai extraordinário por quem sinto um enorme orgulho. É um homem muito batalhador. Nesta fase mais difícil do Martim, o António foi super dedica­do. O Martim é o nosso projeto, que foi feito com muito amor.
– O António passa muito tempo em Angola. Como é que têm gerido a vossa vida familiar, uma vez que a Mariza dá concertos por todo o mundo?
– O Martim já é um cidadão do mundo e adora andar de avião. Nós tentamos estar o máximo de tempo juntos. O António voltou à sua vida profissional em Angola e eu divido o meu tempo entre Lisboa, Luanda e o mundo. Quando casamos queremos estar com o nosso marido, queremos ser uma família e sentir-me-ia descompensada se não estivesse perto do meu marido e se não visse o meu filho crescer perto do pai. E é para isso que lutamos, para sermos uma família.
– Para terminarmos, pergunto-lhe: o que é o melhor de Mariza?
– O melhor da Mariza é o Martim! [risos]

Comentários

ATENÇÃO: ESTE É UM ESPAÇO PÚBLICO E MODERADO. Não forneça os seus dados pessoais (como telefone ou morada) nem utilize linguagem imprópria.

Nas Bancas

Newsletters

Receba grátis no seu email as notícias, as últimas caras!

Caras Nas Redes

Mais na Caras