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Maria do Rosário Pedreira sobre os versos e reversos do amor

A poetisa e editora da LeYa é casada com Manuel Alberto Valente, um dos mais conhecidos editores portugueses. A casa, repleta de livros, é um tributo à literatura e à criação.

Rita Ferro
25 de maio de 2014, 10:00

Chama-se Maria do Rosáriode Melo Viana Pedreira, assina Maria do Rosário Pedreira. Tem 54 anos enasceu em Lisboa. Licenciou-se em Línguas e Literaturas Modernas pela UniversidadeClássica de Lisboa. Quem gosta de poesia conhece-a. É uma das vozes portuguesasmais apreciadas e fala de amor e desamor de uma forma universalmentereconhecida. Mas não só: escreveu mais de 40 livros, entre literatura juvenil,ficção e poesia, e as suas colecções de livros para jovens, O Clube dasChaves (em co-autoria) e Detective Maravilhas, foram objecto deadaptação televisiva e venderam mais de 1 milhão de exemplares. Os seus poemasestão traduzidos em várias línguas. Como se não bastasse, é também a editoraresponsável pela descoberta de alguns dos escritores mais conceituados damoderna literatura portuguesa, como valter hugo mãe, José LuísPeixoto, João Tordo ou Nuno Camarneiro. Fomos conversar comela ao Areeiro, em Lisboa, na casa onde vive com o marido, Manuel Alberto Va­len­te,ele próprio um dos melhores e mais conhecidos editores portugueses.Recentemente, reuniu todo o seu trabalho poético num único volume, PoesiaReunida, de modo que é a altura certa para quem nunca a leu a conhecer. Maso tema da nossa conversa foi principalmente o dos seus poemas mais belos: oamor.
– O que é o amor? Refiro-me ao amor que liga duas pessoas.
– Isso não se explica, acontece, e ainda bem, porque senão perdia a graça toda.Não há definição para esse “fogo que arde sem se ver”, como dizia onosso sábio Camões, mas é certamente a única razão pela qual todos cáandamos: uns a desejá-lo, outros a mantê-lo, outros a chorá-lo.
– O outro, o amor ao próximo, a Deus ou à vida, é uma extensão do mesmo oucoisa distinta?
– Se estivéssemos a falar de bichos, e não de sentimentos, seria um animal damesma espécie, sim, mas não da mesma classe ou ordem. Porque o desgosto damorte de uma mãe ou de um pai pode, por exemplo, ser almofadado se tivermos aonosso lado alguém com quem podemos ser sempre nós próprios e que nos ame. Mas,se perdermos um amante (e pode até nem ser uma morte física, real), não há painem mãe que nos valha. Não estou, claro, a falar de amores de Verão, mas deamor a sério.
– Mentiríamos se disséssemos que este, entre duas pessoas, requer mais jogo?Até pela boa razão de o tentarmos preservar?
– Jogo nenhum, a menos que haja jogo quando as cartas estão todas na mesa (eviradas para cima). Se nos pomos a pensar que devíamos fazer isto ou aquilopara não criar atrito ou dar azo a conflitos, então é porque já não temosconfiança suficiente na relação que estamos a viver. Se duas pessoas se amaremrealmente, uma vez cede uma, outra vez cede outra. Tudo muito natural. Sem serpreciso pensar.
– E a paixão? É sempre fraude?
– Se, antes do amor, veio a paixão, não podemos dizer que ela é uma fraude. Maso estado de pai­xão é, por natureza, uma cegueira em que quase sempre vemos ooutro como gostávamos que ele fosse e não como é. Quando percebemos que nosenganámos, a relação pode ir desta para melhor; mas, por um bambúrrio de sorte,o objecto do nosso amor pode até ser o que desejávamos – ou transformar-se
nisso com o tempo. Ou não o ser, mas isso não causar desilusão, antes surpresae admi­ração.
– Até o amor pode ser uma ilusão?
– Volto a Camões: o fogo não se vê, mas arde. Está lá, portanto. Ilusãonenhuma. Sentimos muitas vezes o que não queremos, mas o contrário já não éverdade.
– E também pode ser relativo? Ou seja, perante um novo amor, o último que seviveu pode deixar de o parecer?
– Todos os amores contam enquanto são sentidos, não por comparação com os quevieram antes. É natural que as coisas passadas percam peso, mas apenas porque fazemparte de um tempo que já não é o nosso. Eu, quando releio alguns dos meuspoemas, mesmo os mais tristes, consigo lembrar-me exactamente do que senti aoescrevê-los. E fico feliz por isso. Terrível seria não ter nada para lembrar.
– Ama-se uma vez ou tantas quantas precisarmos?
– Ama-se em várias idades, de várias maneiras, mas nunca por precisarmos.
– Penso muitas vezes que o amor precede o objecto. Que é a necessidade ou aurgência de o dedicarmos a alguém que promove o encontro...
– É verdade que temos de estar disponíveis para o encontro e para a comunhão,porque, de contrário, o amor da nossa vida passar-nos-á ao lado. Temos de ter,pelo menos, uma capacidade de reconhecimento. Mas, se o outro não rega aplanta, não basta que a semente admita que está morta de sede.
– Que faz a poesia pelo amor?
– Não faço ideia (a menos que as trocas de versos entre namorados tenhamefeitos práticos), mas o amor faz muito pela poesia e pela literatura. Afinal,não é sobre isso que falam todos os livros?
– Mas não considera que a poesia possa ensinar a amar melhor?
– Já houve leitores que me escreveram a dizer que os meus poemas os tinhamajudado a fazer o luto de alguém, a sobreviver a um abandono ou a processar asmemórias de forma a recordar sem dor o que foi doloroso. Acho que aprenderam alidar melhor com o desamor. Mas a experiência de vida fará sempre mais peloamor do que a poesia.
– Duas linhas sobre o seu método de trabalho...
– Na editora, o método é não procrastinar (e trazer muito trabalho para casa).A poesia não a considero um trabalho: escreve-se quando quer, e não quando euquero. Já com as letras de fado sou bastante obsessiva e disciplinada: sento-mecom um caderninho a jeito e não arredo pé enquanto não vejo a história tomarforma.
– Em que trabalha neste momento?
– Além das letras de um álbum inteirinho para a Aldina Duarte, queterminei agora, dentro da minha cabeça há muitas coisas: um novo conjunto depoemas inspirados pela crise que estamos a viver, um livrinho em prosa, quegostaria que fosse para todas as idades, sobre o que perdemos ao longo da vida,a revisão do romance que publiquei há 20 anos e ainda não sei se queroreeditar. Mas, se acabar um dos projectos já me dou por satisfeita. Tudo issotira, de certeza, muito tempo ao amor.
Nota: por vontade da autora, este texto não segue as regras do novo acordoortográfico

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