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Virgílio Castelo: “A chave da vida não está na cabeça, está no coração”

A pretexto do seu novo romance, ‘Despedida de Casado’, o ator, de 61 anos, explica o que é para si o amor e assume que acredita num amor para a vida.

Inês Neves
17 de maio de 2014, 14:00

VirgílioCastelo fala-nos de amor.No livro que recentemente lançou, fala de um amor louco, doentio. Nestaentrevista, do seu amor, mais sereno, onde “só é amado quem ama”. O atortambém não acredita em contos de fadas e nas histórias que conta às filhas maisnovas, Violeta, de nove anos, e Sancha, de cinco, arranja sempre “umnovo pressuposto”. E ainda que seja um pai que conte histórias e compaciência para brincar, assume: “Não sou um pai moderno, nem quero ser.”
– O que há de autobiográfico neste amor doentio sobre o qual escreve?
Virgílio Cas­­telo – A úni­ca coisa que há realmente de autobiográfica éuma conversa que cito, de um filme em que entrei. De resto, nada mais éverdadeiramente autobiográfico. O romance arranca com uma cena tirada de uma no­tíciaque li há muitos anos num jornal francês: um casal que se suicidou chocando osseus carros um contra o outro.
– Nunca viveu um amor mais louco, ciumento?
– Não. As minhas relações nunca foram suscetíveis de criar episódios excessivose só esses são matéria de romance.
– Mas já fez certamente algumas loucuras por amor, ou não?
– Loucuras por amor, eu? Não. Quer dizer, as que terei feito não sãopropriamente loucuras. São coisas que fazemos quando estamos apaixonados, quesão divertidas. Há vinte e tal anos tive uma namorada que gostava imenso debolachas. Ela não vivia em Lisboa e um dia que veio passar o fim de semanacomigo, enchi-lhe a cama de bolachas. E isto não é uma loucura. A minha vida nãotem episódios transcendentes em termos amorosos para me poder inspirar.
– Escreveu este livro durante o seu processo de separação?
– Não, está acabado há mais de dois anos.
– Por vezes, as pessoas pegam na mágoa de certos momentos...
– Não, de todo. Tudo aquilo por que nós passamos pode acabar por se refletir noque escrevemos, mas não é necessariamente autobiográfico.
– Depois de ter passado por algumas separações na sua vida, ainda acreditano amor eterno? Ainda se questiona por que é que as pessoas não ficam juntaspara sempre?
– Há complicações nas relações porque aprendemos desde miúdos a lidar com o egoe não com a alma. Acho que essa é que é a questão essencial. A nossa almapede-nos uma coisa e o nosso ego leva-nos para outra. E à medida que vouenvelhecendo percebo que o que menos interessa é o ego. E talvez essaaprendizagem do amor só seja possível à medida que vamos aprendendo a alma. Àmedida que me vou aproximando da minha alma, percebo melhor o amor. Enquantoestive mais ligado à minha personalidade, foi mais difícil...
– Então, acredita que ainda vai encontrar esse amor?
– Acredito. Mas a questão não é se posso encontrar ou não. Acredito é cada vezmais que o amor não é uma carência, não é um desejo, não é uma projeção, mas simuma lei, tal como a gravidade ou a velocidade dos astros. E a lei é muitosimples de enunciar: só é amado quem ama. E a mentalidade do mundo ocidental emoderno está centrada no contrário: todos crescemos à espera de ser amados, quevenha alguém preencher aquele universo que inventámos. E começa logo com a BelaAdormecida, a Branca de Neve... Para mim, essa lei é ao contrário: se nosdermos, se nos afirmarmos, se percebermos que amar é dádiva, aí o amoracontece.
– O que aconteceu de errado no seu casamento, então? Olhou demasiado para oseu ego e menos para a sua alma?
– Tudo o que tenho vindo a tentar fazer nos últimos anos é no sentido de metentar aproximar muito mais do que será a minha alma, que não sei ainda o queé, do que daquilo que é a minha personalidade, que eu já sei. Digamos que aminha personalidade é um peditório para o qual já dei.
– Parece ter encontrado todas as respostas...
– De todo. Mas há uma coisa que aconselho a toda a gente, que descobri há muitopouco tempo e que ajuda a explicar muitas das angústias que andamos todos aviver: a física quântica. Se a estudarmos, vamos perceber que cerca de 90 porcento dos problemas que temos são inventados por nós. Se há uma coisa que seaprende na física quântica é que nem o passado nem o futuro existem, existe omomento presente. E se é assim, nós passamos a vida a perder tempo a pensar novai acontecer e no que já aconteceu. E esquecemo-nos que aquilo que jáaconteceu aconteceu porque era presente. Portanto, a questão do tempo deixa deexistir. E o tempo só passa se estivermos à espera que ele passe. Se vivermos opresente, o tempo não passou.
– Então só pensa no presente e não faz planos de futuro?
– Não, isso seria absurdo. Tenho filhas pequenas, não posso deixar de fazerplanos. Viver o momento presente não implica demitir-me de resolver as coisaspráticas da vida. Implica é aceitar o que nos acontece. Somos nós que atraímostudo, o bom e o mau. A questão está em saber qual é a atitude certa quando ascoisas nos acontecem. E eu acredito cada vez mais que a maneira mais profundade olhar a vida é senti-la e não pensá-la. Acho que a chave da vida não está nacabeça, está no coração. Mas isto é o meu processo, levei 60 anos a chegaraqui...
– Há pouco disse que os contos de fadas nos dão uma ideia errada sobre oamor. Como faz quando conta histórias às suas filhas, diz-lhes logo à partidaque é um conceito errado?
– É impossível não lhes contar essas histórias, claro. Mas uma das coisas queeu gostaria de escrever, se tivesse talento para isso, seriam contos infantis apartir de outros pressupostos. Eu faço uma coisa que elas as duas adoram e quechamam “histórias de boca”, que lhes conto quando se deitam, inventadas naaltura, e que têm sempre esse pressuposto ao contrário. As coisas são maravilhosasà mesma, mas o processo inverte-se um bocadinho: em vez de pôr a felicidade emquem recebe a visita do príncipe encantado, ponho a felicidade em quem consegueacordar a princesa. É a minha pequena contribuição para que elas no futurovenham a descobrir e a entender o amor através da dádiva e não do recebimento.
– É um pai com paciência e tempo para brincadeiras, para as histórias deadormecer?
– Sou um pai com paciência e tem­po, mas não sou um pai moderno, nem gostariade ser. Acho uma grande treta estas psicologias modernas todas baseadas nafacilidade. Sou um pai com regras, com alguma autoridade e dis­ciplina, mastento sobretudo transmitir-lhes dois valores essenciais: liberdade eresponsabilidade. Também não tenho muita paciência para aquela ideia de que osmeninos não têm deveres porque isso cansa.
– É um pai muito exigente?
– A questão de exercer a autoridade não me faz confusão nenhuma. E isto que eudigo não retira calor nenhum ou amor à relação que tenho com elas. Istoprende-se com uma coisa que me parece tão evidente que me faz impressãodiscuti-la: existe no mundo alguma maneira de se obter, seja o que for, semtrabalho e responsabilidade? Se não existe outra maneira de se obter as coisassem ser trabalhando, tendo disciplina e lutando por elas, então vou ensinar oquê às minhas filhas? É agora, nestas idades, que elas têm de aprender o métodoe a disciplina e não posso demitir-me de lhes passar valores que achoessenciais.

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