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Pedro Abrunhosa: “A fama pesa-me, aborrece-me e cansa-me”

Podia ter sido engenheiro químico, mas cedo percebeu que era na música que se sentia feliz. Aos 53 anos, garante que vale a pena lutar pelos sonhos.

Joana Brandão
10 de maio de 2014, 14:00

A propósito do seu maisrecente álbum de originais, Contramão, encontrámo-nos com PedroAbrunhosa em plena Rua de Santa Catarina, na Baixa do Porto, e rapidamentepercebemos que o músico é um homem de história que respeita o passado, mas viveo presente com os olhos postos no futuro. Diz que não gosta de fazer balanços,e que os 20 anos de carreira a solo podem ser contados pela sua música. É,aliás, às suas canções que recorre para lembrar as diferentes fases da suavida.
Hoje, com 53 anos, tem nos filhos, Hugo, de 20 anos, e Paulo, decinco, o seu maior orgulho. Mas esse é o seu lado privado, o que gosta depreservar. Não gosta de ser famoso. Se pudesse escolher, Pedro Abrunhosa se­riasó músico.
Escolheu o Grande Hotel do Porto para termos esta conversa porque existeuma ligação afetiva com este local. Qual?
Pedro Abrunhosa – Este hotel foi fundado pelo meu trisavô, DanielMartins Moura Gui­marães. Era uma personagem fascinante, com uma forteligação ao mercado da arte. Viveu em Paris e no Brasil antes de voltar aoPorto. Quando cá chegou, fundou este hotel, onde privou com membros da famíliareal. Na altura a cidade não tinha hotéis de luxo, ele foi um grandeimpulsionador da Baixa do Porto. Eu cresci nestes corredores, passava aqui osfins de semana, por isso tenho uma ligação profunda e afetiva com este espaço.E embora já não pertença à minha família, sinto-me sempre em casa, porque soumuito bem recebido aqui.
– “A tempestade há de passar” é o primeiro verso de Contramão,o seu sétimo álbum de originais. Um disco em que reflete a atual situação dopaís?
– No meu dicionário, contra­mão é uma palavra muito positiva. Apesar dasgrandes dificuldades que vivemos, por demérito das muitas pessoas que nos‘governaram’, é possível resistir se estivermos atentos. Nunca houve tantacidadania como hoje, as pessoas estão a intervir mais porque a política lheschegou a casa. Este “contramão” é mais no sentido de resistir de formaatenta, cívica e cultural. A minha mensagem é positiva e construtiva: mesmo queestejam todos a vir para cá, eu posso ir para lá. Aliás, o meu percurso é umpouco espelho disto. Apesar de viver num país que nunca apostou na cultura,consegui construir uma carreira a partir das minhas mãos sem nenhuma ajuda. Econsegui impor uma identidade artística e uma marca. Ou seja, vale sempre apena lutar pelos sonhos.
A marca Pedro Abrunhosa existe há 20 anos, se contarmos a partir do Viagens,que marcou a sua estreia em nome próprio. Em algum momento essa marca, que é oseu nome, se tornou pesada demais?
– Eu escolhi ser músico, não escolhi ser famoso. Para preparar cada disco passodois anos de solidão no meu estúdio, e essa solidão só é interrompida quandotenho espetáculos. Por acaso a minha música é reconhecida pelas pessoas, osmeus discos vendem-se e os concertos estão lotados. Mas eu nunca quis serfamoso, sou realmente muito recatado e discreto. Gosto de viver rodeado do meumundo interior. Respondendo à tua pergunta: a fama é algo que me pesa, meaborrece e me cansa. Não me aborrece que as pessoas venham ter comigo, porquesão todas muito generosas, abordam-me com muito afeto, mas a fama vem porinerência à minha profissão, não foi algo que procurei nem que goste. A minhavida pública é a música, mas a minha vida privada é privada mesmo. E uma nãoentra na outra. Não levo para casa o trabalho... obviamente que não uso óculosescuros em casa.
Os óculos escuros são a sua imagem de marca. Foi com esta intenção que osusou em palco pela primeira vez?
– Foi uma coisa muito natural que aconteceu há mais de 20 anos, precisamentepor causa da minha timidez. Quero que as pessoas olhem para a minha música enão tanto para mim. E a verdade é que me sinto mais à vontade em palco com osóculos. É certo que, com o tempo, se tornou imagem de marca, mas é apenas isso.Fiquem descansados porque tenho uns olhos banais, não tenho nenhum problema. Naminha carreira os óculos são apenas um acessório.
Quando se estreou em nome próprio, há 20 anos, foi também pai pelaprimeira vez. Há cinco anos voltou a ver nascer um fi­lho. Há alguma diferençaentre ser pai então e agora?
– Nenhuma, é a mesma coisa. De tudo o que faço, ser pai é o que me dá maisprazer. É nos meus filhos que coloco todo o capital da minha vida. Temos muitacumplicidade, e por mais ocupado que esteja, a minha carreira nunca foi nemserá um obstáculo para estar com eles. Nem que tenha de voltar de propósito deNova Iorque para os ir buscar à escola. Foi assim em 1994, é assim agora.

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