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Gabriel García Márquez, o colombiano que escrevia com uma varinha mágica

“Um escritor pode dizer tudo o que lhe passe pela cabeça conquanto seja capaz de tornar isso credível.” (G.G.M.)

Ana Paula Homem
25 de abril de 2014, 16:13

A 17 de abril, a cidade de Aracataca, no norte da Colômbia, acordou com os sinos da sua igreja matriz a tocar a finados pelo seu filho mais famoso: Gabriel García Márquez. O escri­tor, que sofria de senilidade há alguns anos e desde o pungente Memória das Minhas Putas Tristes, de 2004, não publicou mais nenhum romance, morreu rodeado pela família, em sua casa, na Cidade do México, aos 87 anos, após longos anos de luta contra o cancro.
Filho de Gabriel Eligio García, que trocou o curso de Medicina por um telégrafo e foi trabalhar para Aracataca, onde se encantou por Luisa Santiaga, filha de dona Tranquilina Iguarán e do coronel Nicolás Ricardo Márquez Mejía, veterano da Guerra dos Mil Dias, Gabriel foi o primeiro dos 11 filhos nascidos deste casamento socialmente desigual e muito contrariado pelos pais de Luisa (e que romanceou em Amor em Tempos de Cólera). Era ainda bebé quando os pais se mudaram para Riohacha, onde Gabriel Eligio abriu uma farmácia, e o deixaram aos cuidados dos avós maternos. Numa enorme casa que D. Tranquilina dizia ser habitada pelo fantasma de uma das suas irmãs, Gabito, como era conhecido em criança, cresceu na companhia de um papagaio tagarela com mais de cem anos e muitos tios e tias, primos e primas “de boa educação cristã e felizes pecadores”, onde não faltavam contadores de histórias que iam beber à fonte do imaginário pagão dos índios colombianos.
E foi precisamente o tom das histórias que ouviu da avó que inspirou a sua narrativa, ini­mitável pioneira do realismo mágico sul-ame­ricano. Porque García Márquez possuía o dom de escrever a oralidade. E tinha com as palavras – começou cedo a ir ‘roubá-las’ ao enorme dicionário do avô – uma relação de amante,
saboreando cada uma delas quase com luxúria e dando à sua prosa um forte tempero de poesia.
Quanto às suas mirabolantes personagens, tão bem construídas que ganhavam vida própria e se tornavam credíveis, foi também à infância em Aracataca que as foi buscar. Naquela região de vastos bananais que depois do Massacre das Bananas, em 1928, ficaria conhecida por República das Bananas, descobriu também o enorme fosso que separava ricos e pobres e ganhou uma consciência social que pôs ao serviço do jornalismo, do ativismo político  e, claro, de livros como Cem Anos de Solidão, Ninguém Escreve ao Coronel ou Crónica de Uma Morte Anunciada. Obras em que, sob uma sublime capa de ironia, não raras vezes hilariante, dizia coisas muito, muito sérias.
Com o seu estilo único, este escritor maior, Nobel da Literatura em 1982, conseguiu também chegar às massas: traduzido em 36 línguas, vendeu mais de 40 milhões de livros.

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