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Lourenço Correia de Matos: “A genealogia é para todos”

Mestre em História, chanceler do Instituto Português de Heráldica e consultor em História e Património, Lourenço Correia de Matos passa horas em arquivos, alfarrabistas e bibliotecas. Recebeu a escritora Rita Ferro em sua casa, onde foi fotografado com a mulher, a fotógrafa e ‘blogger’ Inês Correia de Matos.

Rita Ferro
19 de abril de 2014, 18:00

Chama-se Lourenço de Fi­gueiredo Perestrelo Cor­reia de Matos, tem 36 anos, e é mestre em História pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, chanceler do Instituto Português de Heráldica e consultor heráldico da Assembleia dos Cavaleiros Portugueses da Ordem Soberana e Militar de Malta. Autor de múltiplos trabalhos publicados, é ainda sócio da LMT, Consultores em História e Património, juntamente com Guilherme Abreu Loureiro e João Bernardo Galvão Teles. Passa horas e horas em arquivos, alfarrabistas e bibliotecas, calcorreando Portugal de lés a lés, fotografando peças e documentos sobre o objecto dos seus estudos ou reunindo material para satisfazer os pedidos de quem procura saber mais sobre as origens ou conhecer a explicação de mistérios familiares. Conversámos com ele em casa, junto da mulher, a conhecida fotógrafa e blogger Inês Correia de Matos, de 29 anos, autora do projecto After Click Studio.
– Que tipo de pessoa o procura?
– Todos ou quase todos, das mais diversas idades e profissões, de praticamente todos os meios sócio-económicos. O interesse pela genealogia é transversal. Sou procurado por quem pouco ou nada conhece dos antepassados mas também por famílias amplamente tratadas nas genealogias tradicionais que querem investigações mais pormenorizadas e académicas ou apenas a sistematização e organização de elementos dispersos na inúmera bibliografia que os refere. Mas faço também outro tipo de estudos, para particulares e empresas, por exemplo de carácter biográfico, sobre casas e quintas, procura de livros e peças de arte, por exemplo.
– Quanto tempo pode durar uma investigação?
– Depende do objectivo e amplitude do estudo e também da região de origem da família pois pode implicar deslocações. Há trabalhos que demoram quinze dias e outros que podem levar dois anos a terminar.
– Há muita gente a querer ser nobre?
– Nunca ninguém me pôs as coisas nesses termos, mas percebe-se que há quem procure antepassados nobres.
– Por que é que acha que ser nobre é tão importante para as pessoas?
– Julgo que em muitos casos é o coroar – literalmente – de um percurso. Depois de atingido um estatuto económico que traz reconhecimento social – um self made man que já frequenta certos meios e casa bem os filhos – só lhe falta ter antepassados equivalentes ou pelo menos próximos dos das pessoas com quem se relaciona. O problema depois é gerir este novo conhecimento e passar a mensagem de que apesar de se ser o mesmo senhor X, agora se é descendente de um navegador ou de um rei da 1.ª Dinastia.
– Toda a gente, nobreza ou povo, tem avós, bisavós e trisavós. É abusivo afirmar que os aristocratas conhecem melhor as suas árvores?
– Não e é natural que assim seja pois as famílias da nobreza foram objecto de estudo ao longo dos séculos. Mas é abusivo pensar que só os nobres têm genealogia, pois qualquer pessoa pode conhecer os seus antepassados e ter a sua família investigada. Combato sempre esta ideia errada de que a genealogia é um exclusivo da nobreza ou de qualquer tipo de elites, a genealogia é para todos, o que se prova com o interesse crescente que tem vindo a despertar.
– Nunca lhe aconteceu procurar uma glória e encontrar um embaraço?
– Não se pode falar em glórias, mas já me aconteceu tentar confirmar tradições familiares e estas não corresponderem exactamente à realidade que os documentos revelam.
– Teoricamente, os reis atribuíam títulos a quem se distinguia por qualquer razão. Mas há excepções...
– Os títulos recompensavam, e recompensam nas monarquias, serviços prestados ao país e ao rei, mas este conceito de serviço foi-se alterando com os tempos. Nos séculos XVI e XVII eram essencialmente feitos de armas, no XIX razões políticas ou actos de benemerência. O actual rei de Espanha, por exemplo, concedeu títulos aos prémios Nobel Camilo José Cela e Vargas Llosa e ao seleccionador de futebol Vicente del Bosque.
– Há perguntas sem resposta?
– Há, claro. Encontramos fi­lhos de pais incógnitos, por exemplo, que nunca se conseguem resolver e que poderão permanecer ocultos para sempre.
– Há também filhos de “mãe incógnita”, como o Eça...
– É uma situação mais rara, mas acontece, conheço outros casos. Era normalmente para pro­teger a mãe por esta ser de boas famílias e não poder assumir um filho. Era recolhida a casa de uns primos suficientemente distante da sua, onde poderia ter o filho que depois seria dado a criar, muitas vezes a uma instituição religiosa. No caso do Eça, o pai assumiu registar e criar o filho, vindo a casar três anos depois.
– Posso perguntar-lhe se é monárquico?
– Sou, nasci numa família de monárquicos, mas para quem a questão da chefia de Estado nunca foi um problema premente. E eu, conhecendo o movimento monár­quico, mais razão tenho para achar que a restauração não faz sentido e que muito poucos estão verdadeiramente interessados nela.
– Qual é, na sua opinião, a família mais nobre de Portugal?
– Eu diria que a dos duques de Cadaval e a dos duques de Lafões, ex aequo, mas é naturalmente subjectivo.
– E a segunda, já agora?
– Aí já não é mesmo possível nomear, teria que elencar pelo menos dez casas titulares que considero em igualdade de circunstâncias, pesando inúmeros factores, não só histórico-nobiliárquicos como também contemporâneos, considerando a situação actual das mesmas e dos seus representantes.
– Há nomes “bons” e antigos que não têm título...
– Há bastantes, basta percor­rer a província e ver casas magníficas de famílias que nunca tive­ram títulos. Por outro lado, houve muitos títulos dados no século XIX a famílias que hoje estão perfeitamente integradas na nobreza mais tradicional mas que tinham origens humildes.
Nota: por vontade da autora, este texto não segue as regras do novo acordo ortográfico

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