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Sara Antunes Oliveira, uma jornalista com ambições, sonhos e emoções

Herdou do pai o ‘bichinho’ da informação e, como gosta de ser desafiada, aceitou trabalhar a área da justiça na SIC, onde tenta transformar assuntos complexos em notícias de linguagem acessível.

Cláudia Alegria
12 de abril de 2014, 10:00

Habituou-se a acordar com o rádio sintonizado num canal de informação. O pai, jornalista, trabalhava numa rádio local, em Matosinhos, e todas as manhãs Sara Antunes Oliveira ouvia com atenção as notícias do dia para depois as reproduzir. Ainda hoje gosta de contar histórias. Sendo um dos rostos femininos da informação da SIC, a jornalista, de 31 anos, tenta ‘des­construir’ os conteúdos técnicos e complexos dos processos judiciais que acompanha de forma a que estes sejam entendidos por toda a gente. ‘Gosto de flores e música e viagens e jantares com amigos. Gosto de mimos e gargalhadas e abraços e histórias divididas. Gosto de comédias e filmes que fazem chorar. Gosto do meu trabalho e de tardes passadas ao sol”, lê-se na sua página de Facebook, num texto dedicado ao pai, e no qual acaba por dar pistas sobre a sua personalidade, às quais se acrescentam as reveladas à CARAS na entrevista que aqui publicamos.
– Desde criança que via no mundo das notícias o seu futuro, mas chegou a dizer que não queria ser jornalista...
Sara Antunes Oliveira
– Sim, na fase da adolescência, em que não queremos fazer o mesmo que os pais fazem. Tive muitas dúvidas. Gostava muito de geografia, de alemão, de ser cabeleireira, portanto, podia ter sido muitas coisas e ponderei isso tudo, mas era demasiado óbvio que o que eu queria mesmo era jornalismo. Nunca pensei em televisão, o meu objetivo era a imprensa escrita, mas a universidade tinha um protocolo com a SIC e eu acabei por vir estagiar nos estúdios de Carnaxide.
– Trabalhou três anos no Porto, para a SIC, mas depois deixou essa zona de conforto e mudou-se para Lisboa. Foi uma decisão difícil?
Foi uma decisão ponderada e muito discutida com os meus pais. Achei que reagiriam pior, mas eles apoiam-me sempre em tudo, são muito sinceros e honestos nos conselhos que dão, e sempre me disseram que, se era o melhor para mim, devia avançar. Ainda hoje me ajudam imenso e arranjam sempre maneira de estar presentes, ainda que seja à distância.
– O que lhe falta fazer a nível profissional?
Sou insatisfeita por natureza, tenho sempre a sensação de que ainda não fiz o que quero fazer. Por exemplo, gostava muito de dar aulas, uma coisa que ainda não explorei. Alimento-me de olhar sempre para a vida como algo inacabado, o que me dá energia para trabalhar.
– Gosta de transformar assuntos complexos em notícias acessíveis. Essa é a sua assinatura nas reportagens que faz?
Espero que sim. Gosto de sentir que as pessoas perceberam o que quis dizer. A justiça é uma área difícil de trabalhar, tem muitos termos incompreensíveis, decisões que resultaram de muitos passos e, para mim, o desafio é esse: conseguir explicar às pessoas o que é importante pensando sempre nas minhas avós. Se achar que a minha avó iria perceber aquela notícia, então a minha missão foi cumprida. Não nos podemos esquecer que nem sempre estamos a falar com pessoas que têm cursos universitários ou interesse na matéria.
– Ter aceite o desafio de trabalhar na área da justiça, que não dominava, teve a ver com a sua vontade de aprender cada vez mais?
Exatamente. O diretor da SIC, Alcides Vieira, propôs-me ficar com a área da justiça. Confesso que me assustei um bocadinho no início, mas depois... Eu gosto de estudar, de aprender, de me desafiar, de dar um passo mais à frente, portanto, comecei a ler, a fazer perguntas. Há um grupo de advogados com quem me dou relativamente bem e em quem tenho confiança para telefonar e perguntar como é que se explica determinada coisa às pessoas. Fui construindo a minha base de trabalho assim. É um desafio diário, porque todos os dias aparece uma coisa que eu nunca tinha visto e que não sabia que podia acontecer, e isso é ótimo.
– A sua vida profissional é compatível com uma relação amorosa? É fácil ter alguém que a acompanhe?
É. Durante muito tempo achei que os jornalistas só deveriam ter relações com jornalistas porque só um jornalista poderia entender outro. Às vezes é difícil, porque os horários são voláteis, levamos trabalho para casa, lidamos com histórias difíceis... É horrível fazer casos judiciais com crianças vítimas de violência ou abusos sexuais, por exemplo. São histórias que nos acompanham durante muito tempo e com as quais é difícil lidar. Mas depois percebi que as pessoas só precisam de ter a seu lado alguém que as ame por aquilo que são e que se orgulhe daquilo que fazem. Portanto, acho que é perfeitamente compatível, desde que tenham noção de que um jornalista é, por norma, um bicho-do-mato, mas também uma pessoa com um mundo que muita gente não tem, com os horizontes muito largos, e pode ser divertido. Eu acho que pode ser muito divertido ter uma relação com um jornalista.
– Cozinhar é um dos seus hobbies. É uma forma de descontrair, de se abstrair desses casos mais complicados?
É, preciso muito de o fazer. Para viver comigo a pessoa tem de compreender que há casos muito duros e é difícil não os levar para casa. Lembro-me de que, quando conheci a acusação do caso do violador de Telheiras, que entretanto foi condenado por mais de 70 crimes, eu tive de ir para casa tomar banho. Sentia-me enojada. Cheguei a casa, tomei um banho, chorei imenso e depois recomecei. Quando voltei a olhar para as histórias das vítimas já não senti o mesmo, porque já as tinha tirado do sistema.
– Foi encontrando mecanismos que a ajudassem a desligar?
Sim, mas não me quero distanciar demais, porque não quero ficar insensível. Gosto que as coisas me emocionem e mexam comigo, é sinal que estou com os valores certos. Quero sentir as coisas, pois isso também faz parte daquilo que é o meu trabalho. Os jornalistas não são máquinas, também se emocionam, riem, ficam zangados ou revoltados com as coisas. O importante é que quando estou a passar a informação estou só a passar a informação. Isso para mim chega.

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