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Rita Ferro: “Desta vez, a personagem sou eu”

“Veneza Pode Esperar” é o novo livro da escritora Rita Ferro, primeiro volume de um diário cheio de revelações, cujo processo de escrita, confessa, acabou por ser catártico.

Redação CARAS
15 de março de 2014, 14:00

Rita Ferro, escritora, cronista e colaboradora da CARAS, acaba de lançar mais um livro: Veneza Pode Esperar. É o primeiro volume de um diário repleto de revelações pessoais, que promete continuar. Conversámos com ela em Rio Maior, na Fundação António Quadros, Cultura e Pensamento, que reúne o espólio literário da família e é presidida pela irmã, Mafalda Ferro.
– Porquê escrever um diário?
Rita Ferro – Escrevi um diário principalmente porque adoro diários e acho que, ao fim de 24 anos de carreira, os leitores que me acompanham já merecem saber alguma coisa mais precisa. Desta vez a personagem sou eu. Não tem que ver com narcisismo, mas com rigor. O meu avô dizia que as pessoas públicas são as que o público conhece menos, e concordo. Na verdade, existe uma tendência para se construir uma versão do outro que em nada corresponde. Ou é pior ou melhor [risos]. Com os anos, começa a incomodar.
– Sentiu necessidade de se dar a conhecer sem filtros ou desdobramentos, digamos assim.
– O escritor já tem, por definição, vários desdobramentos. Não precisa de ter mais versões para aumentar a sua esquizofrenia. Às tantas, sente necessidade de gritar: “Sou isto, não inventem!”
– Não estaria, simultaneamente, em busca de autoconhe­cimento?
– Não, não escrevi por isso, mas aliviou-me. Na verdade, foi catártico. Nem posso jurar que não tenha sido este exercício a ajudar-me a sair da crise por que passei. A verdade é que comecei o livro moribunda e terminei-o já em rampa ascendente. Escrever faz um bem imenso.
– Não abundam diários no mercado português, pelo menos de autores nacionais.
– Não há grande tradição de diário, aqui em Portugal. E então recentes há poucos. Para além do do [Miguel] Torga e do Vergílio Ferreira, que são os mais conhecidos, muitos permanecem inéditos. O do David [Mourão-Ferreira] é um exemplo. Adoro diários, não só porque sou voyeuse, mas sobretudo porque me ajudam a conhecer os autores de que mais gosto de uma perspetiva privada, omissa na obra.
– E que outros diários recomendaria aos leitores?
– Os diários do embaixador Marcello Mathias são deliciosos, por exemplo. Mas os de mulheres são raríssimos. Há cem anos houve algumas, mas neste tempo a [Florbela] Espanca, a [Maria Gabriela] Llansol e a Teolinda Gersão foram exceções soberbas, embora nem todas tenham feito diários puros e duros, ou seja, com sequência cronológica e matéria íntima. Parece que a Luísa Dacosta escreveu também um diário belíssimo e ninguém publica, não se percebe. Partiu-se do princípio que os portugueses não gostam de ler diários, mas não acredito.
– Os diários despertam uma certa vontade de colecionar.
– Absolutamente. As pessoas podem colecioná-lo como um folhetim. Foi com esse espírito que li muitos diários, transitando de volume em volume.
– Apesar de manter um cer­to grau de pudor, acaba por se expor bastante neste livro.
– Sim, exponho-me muito. Não sou como certas pessoas que têm medo de dizer quanto calçam. Falo das perdas que tenho tido, da morte da minha mãe e da do meu maior amigo, da doença de uma pessoa chegada, da casa em que investi todas as economias e que tive que entregar ao banco, dos preconceitos de que sou vítima e dos que tenho, da dificuldade de acertar num perfil amoroso ou da luta que travo para vencer o egoísmo ou manter a esperança viva. Tenho problemas como toda a gente e luto para me manter em prova.
O subtítulo Diário I pressupõe que virão outros. É um projeto para continuar?
– Sim, é para continuar. Não já pelos leitores, mas por mim. Não que a minha vida seja mais extraordinária do que qualquer outra, mas é tão única como outra qualquer. Ficará um registo, o meu registo. E a minha história é tão imprevisível que, ao fim de alguns volumes, pode mesmo ter gra­ça. Aliás, digo no diário isso mesmo. Cada um de nós é único e ninguém mais coincide nos nossos genes, no nosso ADN, na nossa impressão digital. Ninguém pensa ou sofre ou observa daquela maneira exata. Quando uma pessoa morre, morre toda uma estirpe. Somos irreproduzíveis e inclonáveis. Não se trata realmente de uma morte, mas de uma extinção. As pessoas preocupam-se com o desaparecimen­to dos linces da Malcata, mas a grande maioria dos humanos morre inédita. [risos] No meu caso, ficará um registo. Não o de uma escritora assim ou assado, porque isso é totalmente irrelevante, mas o de uma mulher deste tempo, que sente o que sente. Veja o contentamento dos arqueólogos quando, milénios depois, encontram um crânio e uma mandíbula, e a carga de trabalhos que têm para reconstituir a história daquelas ossadas. Sabe o que significa cadáver? Carne dada aos vermes. Que fique qualquer coisa, caramba! [risos]
– Uma provocação, para terminar: não receia os dissabores que a sinceridade usada no livro possa trazer-lhe? Nem todos se sentirão justamente (re)tratados.
– Os mais expostos, por tabela, sabem que constam do livro e em que termos. Não faço traições dessas. [risos]

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