Nas Bancas

Gisela João, a nova voz do fado

A fadista, de 30 anos, diz que sente necessidade de cantar o fado e confessa que se emociona facilmente. Na sua vida, as pessoas são o mais importante e o amor ‘a grande gasolina’.

Inês Mestre
1 de março de 2014, 10:00

Genuína. Generosa.Emotiva. So­nhadora, mas de pés bem assentes na terra. Assim é Gisela João,a fadista de Barcelos que tem vindo a conquistar os portugueses com o seuprimeiro álbum, homónimo, e que foi considerado Disco do Ano pelo jornal Públicoe pela revista Blitz.
Aos 30 anos, a cantora vive um momento de ascensão, mas diz que não se deixadeslumbrar pelos holofotes. “Não, não tenho tempo. Depois de um concertotenho uma vida normal”, afirma à CARAS, revelando o seu lado pragmático.Mas são as emoções que lhe comandam a vida, como conta nesta entrevista.
Como foi a sua infância?
Gisela João – Cresci em Barce­los, com seis irmãos mais novos e quandoera miúda brincava e tomava conta deles porque a minha mãe trabalhava longe e omeu pai era emigrante. Cresci numa casa muito barulhenta, com muita gente emuitas gargalhadas.
Como é que o fado entrou na sua vida?
– Um dia, por volta dos meus oito anos, ouvi na rádio a Amália a cantar QueDeus me Perdoe e parecia que aquela música estava a falar de mim. Como irmãmais velha eu tinha de estar bem, dar o exemplo e sentia que não podia fazerbirras porque começavam todos a fazer birras. Eu fingia que estava tudo bem,mas quando cantava podia mostrar as minhas emoções. E é o que sinto ainda hoje,é quase um alívio quando canto, deixo sair cá para fora tudo o que não possodizer.
Sempre sonhou ser cantora?
– Não, nunca! Eu vestia-me de Amália e cantava nas festas da escola, mas nuncapensei que fosse possível. Desde pequena que acho que quando fazemos uma coisadevemos fazê-la bem e a sério. Via o facto de cantar mais como um hobbye uma maneira de ganhar dinheiro extra e não via o que eu podia ter a mais doque tantas outras pessoas que cantam bem o fado. Mesmo quando me convidarampara vir cantar para Lisboa, em 2010, eu não sabia muito bem o que iaacontecer, por isso decidi arranjar um part-time para ajudar a pagar asdespesas!
É cautelosa com o dinheiro?
– Sim, cada vez mais. Adoro Portugal, mas é muito difícil ser-se artista cá. Étudo muito bonito, mas a parte dos holofotes e das palmas é muito fugaz. Porisso, é preciso pensar na parte prática da vida, nomeadamente no dinheiro. Aspessoas pensam que por aparecer nas revistas estou cheia de dinheiro. Longedisso! Posso ter um concerto hoje e ficar meses sem ter um grande concerto, oque significa meses sem entrar dinheiro! Claro que tenho de ser cautelosa, achoque temos de ser todos. Além disso, gosto de pensar no meu futuro, emconstituir uma família e ter condições para isso.
Esse lado responsável vem da infância exigente?
– Sim, sem dúvida. E se não tivesse vivido o que vivi, não sentiria o fado comosinto. Porque o fado é muito forte, é intenso, tanto na alegria como natristeza. A vida é assim. Mas eu não sou uma coitadinha por ter ajudado a tomarconta dos meus irmãos, pelo contrário, graças ao que vivi é que sou o que souhoje.
Falou nos holofotes e nas palmas: calculo que essa parte também sejagratificante...
– Sim, claro, fico muito feliz por ter salas esgotadas e pelas críticaspositivas que tenho recebido! Nas alturas mais difíceis vou buscar forças aí epenso que realmente vale a pena trabalhar e lutar. Fico muito contente, poisnunca pensei que isso fosse possível, mas também não posso esquecer o meudia-a-dia, pois não é isso que me põe comida na mesa. Tenho muito medo dailusão.
Não se deixa deslumbrar?
– Não posso, não tenho tempo para isso, depois dos concertos tenho uma vidanormal.
Como sente o fado?
– É algo tão forte que temos mes­mo, mesmo, de nos entregar ao que estamos afazer. E o fado, no fundo, é a vida.
É de emoções fáceis?
– Muito! Choro com um anúncio de televisão. Mas também fico verdadeiramentefeliz com coisas simples, quando um bolo me sai bem, por exemplo. Ou quandoalgo de bom acontece aos meus amigos. Acho até que vibro mais com a alegria dosoutros do que com a minha.
Parece ser muito genuína...
– Eu não tenho de criar algo que não sou para agradar aos outros. As pessoastêm de gostar de nós pelo que somos e têm de gostar de mim pelo que faço. O meutrabalho é cantar e fazer as pessoas sentirem emoções, pô-las a ouvir música, épor isso que quero ser conhecida.
Que ambições tem?
– Quero ter filhos, ser avó, ter uma casa confortável, com um jardim. Queroconseguir manter os meus amigos, o que às vezes é difícil. Ter trabalho e tercondições para trabalhar.
O que lhe dá mais prazer quan­do está em palco?
– Olhar para as pessoas e observar o que estão a sentir quando canto. É algoindescritível e sem preço. A cultura é tão importante para o ser humano como aágua. São essas coisas que nos dão força e é a elas que vamos buscar energiapara viver. Mas para isso, nós, artistas, temos de ter condições para trabalhare neste momento não temos.
Falou em ter filhos. Gos­tava de ser mãe em breve?
– Ainda não. Só agora é que me sinto realizada profissionalmente e tenho deviver isso e aproveitar este momento.
Temos falado de emoções. Co­mo vive o amor?
– De forma muito romântica. Sou daquelas pessoas que acreditam que é possívelum casal ser feliz para sempre. Claro que isso engloba discussões, muitascedências... Mas é isso que quero para mim. Acho que o amor é a grande gasolinada nossa vida. E não é só a relação amorosa e sexual, mas também a amizade.Tudo o que faço na minha vida tem como base o amor. Eu não consigo ter apenasrelações profissionais, por exemplo, fico amiga das pessoas com quem trabalho.As pessoas têm de tentar entender os outros e, para isso, têm de se preocuparcom elas e conhecê-las. É importante pensarmos nos outros e isso vem do amor.
Com o que mais sonha?
– Agora vou fazer um discurso de Miss, mas gosto mesmo de sonhar que as pessoasse ajudam mais umas às outras. E de me imaginar a fazer bolos na cozinharodeada de filhos, ou na praia com as minhas amigas e as crianças todas. Adoro!Com salas cheias, claro. E que um dia vou deixar uma fundação com o meu nome.Mas isso é mais do que um sonho, é algo que sei que vou realizar. Ter umafundação de ajuda a crianças vulneráveis, para estimulá-las para as artes epara elas perceberem que podem sonhar e querer mais.

Palavras-chave

Comentários

ATENÇÃO: ESTE É UM ESPAÇO PÚBLICO E MODERADO. Não forneça os seus dados pessoais (como telefone ou morada) nem utilize linguagem imprópria.

Nas Bancas

Newsletters

Receba grátis no seu email as notícias, as últimas caras!

Caras Nas Redes

Mais na Caras