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Clara de Sousa e a paixão pela cozinha

As receitas da jornalista foram publicadas com a CARAS em fascículos gratuitos durante cinco semanas.

Andreia Cardinali
23 de fevereiro de 2014, 12:00

Conhecida pelo seu trabalho como pivô do Jornal da Noite, na SIC, Clara de Sousa, de 46 anos, também é já reconhecida pela sua paixão pela cozinha, traduzida num livro de culinária que em breve poderá ter um sucessor. Alguns dos seu pratos preferidos, de entradas a sobremesas, vão ser publicados em fascículos gratuitos com a CARAS, já a partir deste número, e durante cinco semanas, até 19 de fevereiro.
Clara considera que cozinhar é um ato de amor que partilha com todos aqueles de quem mais gosta, em especial os filhos, Manuel, de 17 anos, e Maria, de 14.
– Lem­bra-se como surgiu a sua paixão pela cozinha?
Clara de Sousa – Em crian­ça, através da minha mãe. Ini­cialmente começou como uma responsabilidade familiar, uma vez que a minha mãe chegava muito tarde a casa todas as noites e eu tinha de ter o jantar pronto para os meus pais e irmão. Aos nove anos já fazia o jantar, mas obviamente que não fazia nada de muito extraordinário. Cozinhava aquilo que se fazia regularmente nos anos 70: batatas, couves, bacalhau, bifes, batatas fritas... A minha ligação à cozinha vem desde então e depois comecei a desenvolver um gosto de aventura em relação à descoberta de novos pratos.
– E os chamados segredos de cozinha são da sua mãe ou das experiências que foi tendo?
Alguns são da mãe e outros das experiências de querer fazer algo diferente. Hoje temos uma maior diversidade de temperos de todo o mundo e tudo isso ajuda. Com o tempo vamos apurando os temperos, mas também aprendemos com as más experiências e só assim conseguimos evoluir e melhorar. Se não houver inspiração, podemos sempre seguir alguma receita ou utilizar aquelas que são sempre infalíveis e nunca nos deixam ficar mal [risos].
– Se sempre gostou de cozinhar, nunca alimentou o sonho de se tornar chef, em vez de jornalista?
Eu queria era ser profes­sora e essa moda dos chefs não existia. O chef era o cozinheiro, uma profissão muitas vezes vista como menos importante. Essa perspetiva mudou, e ainda bem. Hoje em dia fico de facto abismada quando vejo programas como o Masterchef Júnior, em que aquelas crianças cozinham extraordinariamente com aquela idade.
– Essa paixão já passou para os seus filhos?
O meu filho não gosta, de todo. Já a Maria, de vez em quando gosta de fazer uns biscoitos, mas nada mais. Ela tem gosto, mas é muito esporádico.
– Cozinhar é um ato de entrega, de mimar os outros?
Sem dúvida. Cozinhar é isso mesmo, é sempre um ato de amor. É querer elevar os outros, já que o meu objetivo é sempre espantar os outros. Gosto de fazer algo que surpreenda e aí gosto de ter tempo para cozinhar. Claro que quando isso não acontece há momentos em que as coisas não correm bem. Aí tenho de parar e retomar depois, com mais calma e tranquilidade. Não posso estar com muita pressa, gosto de ouvir música, ir cantando, bebericando um pouco de vinho...
– É uma espécie de terapia?
Completamente. Na cozinha estou concentrada no que estou a fazer, mas a minha cabeça viaja por muitas outras coisas. Também estou numa fase de descoberta de receitas simples, que talvez levem a um segundo livro.
– Com esse gosto pela cozinha, como mantém a linha?
[risos]. Pois, eu não tenho uma grande linha. Claro que podia estar o dobro, mas também podia ter menos uns quilinhos. A questão é que não deixo de comer as coisas que faço, pois tenho de as provar.
– Já conquistou alguém com os seus pratos?
Não. [risos] Até porque há uma desvantagem: eles começam a queixar-se por estarem gordos. [risos] A relação entre as pessoas tem de nascer de algo muito mais forte, que faça sentido.

– Mas a cozinha não deixa de ser um carinho...
Sim, é uma das coisas que ajudam a alimentar a relação. As surpresas que se podem fazer, tudo isso... É acarinhar.
– O avançar da idade é uma preocupação?
Nada, nem penso nisso, no meu trabalho não dependo só da imagem, é muito mais do que isso. Acima de tudo, e independentemente da idade, acho que as pessoas não podem perder o ritmo dos tempos. Se a credibilidade se mantiver, acho que com a idade tudo melhora. Sin­to-me é cada vez melhor na minha profissão e isso, para mim, é o mais importante.
– E a idade já a protege de alguns passos impulsivos?
Acho que não, tenho o coração na boca. Acho que se já magoei alguém teria certamente uma boa razão, pois por regra trato bem as pessoas. Mas obviamente também não trato bem quem me tratou mal. Apesar das desilusões que tenho tido, nunca estou de pé atrás com ninguém. Continuo a fazer aquilo que gostaria que me fizessem a mim: acolher bem, com um sorriso, ser simpática, tudo isso. Agora, se a pessoa me desilude ou abusa, com a mesma facilidade com que tratei bem também desligo.
– Os afetos são fundamentais?
Acho que o são na vida de toda a gente e lá em casa todos querem muito afeto. Gostam de ser todos muito mimados.
– A relação familiar é de toques? De abraços, beijinhos...
No meu caso não é muito. Aliás, eles também estão numa fase em que não querem muito isso. É mais de modelação de voz, da forma como se gosta através do que fazemos, da atenção que se dá quando eles estão a falar... Funcionamos da forma que nos sentimos bem e que não seja abusadora para a outra parte. Eu, por exemplo, odiava que me enchessem de beijos, mas há muitas maneiras de mostrar aos outros, nomeadamente aos nossos filhos, que gostamos deles e que estamos ali para os apoiar.
– Como é que se lida com dois adolescentes?

Muito bem. Não me têm dado grandes preocupações e têm hábitos muito tranquilos e caseiros. A minha casa, por regra, está sempre cheia e acho isso muito simpático. Mas há sempre uma altura em que temos de os deixar ser crescidos...
– E é fácil lidar com isso?
Não sei, ainda não tive de tomar nenhuma decisão assim grande, mas tenho andado a mentalizar-me para tudo. Eles tornam-se adultos muito rapidamente e não têm de andar sempre com os pais atrás e a serem controlados. Se há algo que não gosto de fazer é controlar os meus filhos. Eles por regra estão perto, mas não sou nada controladora, até porque não suporto gente controladora. Não suportaria ser controlada fosse por quem fosse. Mas tenho cada vez mais noção de que as coisas acontecem quando tem de ser. Claro que os alerto para tudo e há coisas que eles não podem fazer. Tento aconselhá-los da melhor maneira, mas também deixá-los crescer e ganharem asas.
– Que balanço faz do ano que passou?
Foi muito bom a nível profissional e duro a nível pessoal, pois se as pessoas já estão fartas de ouvir falar de crise, nós também de as informar. Tive uma quebra energética bastante grande, uma angústia, uma coisa muito estranha que nunca tinha sentido e que não tem a ver comigo, mas sim com o país, com o futuro dos meus filhos.
– Esta crise que atravessamos trouxe alguma alteração familiar, uma maior contenção?
Sempre tive. Nunca fui muito mãos largas com os meus filhos e sempre lhes disse que tinham de poupar. Foi assim que cresci e assim que os eduquei. Nunca fui esbanjadora, nunca comprei só por comprar. Sempre tive essas preocupações com eles, sobretudo com a minha filha, que é menina e mais facilmente perde a noção, em especial no que toca a roupa. Não tenho paciência nenhuma para isso.
– E isso reflete-se numa certa despreocupação com a aparência?
Eu até gosto, mas sempre que vou às compras venho esgotada, é como se me sugassem as energias. Se calhar muitas vezes não faço as melhores opções pois assim que entro numa loja já estou a pensar em sair. Não sou fashion victim e gostava às vezes de ser um bocadi­nho mais. Se calhar dou valor a outras coisas... Há uma coisa que não me deixa esgotada: adoro ir ao supermercado! [risos]

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