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Alfredo Magalhães Ramalho: “Houve grandes festas aqui”

Nesta extravagante mansão, com um recheio assombroso, viveram o embaixador Rui Ulrich e a escritora e grande anfitriã Genoveva de Lima Mayer, com os seus dois filhos, Maria (Ulrich) e Jorge.

Rita Ferro
22 de fevereiro de 2014, 18:00

Chama-se Alfredo SousaPinto de Ma­galhães Ramalho, é licenciado em Direito pela Universidade deLisboa e especializou-se em Ciências Documentais na Faculdade de Letras deLisboa. Além de jurista, documentalista e entusiasta de mil causas, é, desde1991, o director executivo da Biblioteca Universitária João Paulo II, daUniversidade Católica Portuguesa; e, desde 1997, o presidente da Direcção daAssociação Casa Veva de Lima. Em boa hora o desafiámos para nos dar a conheceresta mansão extravagante – nas Amoreiras, em Lisboa – bem como a sua excêntricaanfitriã, Genoveva de Lima Mayer, falecida em 1963. Com o seu charme ecultura já proverbiais, motor de mil palestras e saraus neste lugar mitológico,Alfredo Magalhães Ramalho desvenda-nos os segredos desta jóia desconhecida damaioria dos lisboetas, que foi palco de um dos salões literários maisconcorridos da capital, agora propriedade da CML e aberta ao público, e onde,recentemente, foi rodada parte das filmagens de uma nova versão de Os Maias.
– Comecemos pelos donos da casa...
– Os donos eram o Prof. Rui Enes Ulrich (1883-1966), que era lente daFaculdade de Direito de Coimbra e foi embaixador em Londres, e a sua mulher,Genoveva de Lima Mayer (1886-1963), socialmente conhecida por VevaUlrich e literariamente como Veva de Lima. Tiveram dois filhos, a MariaUlrich e o Jorge. Toda a família aqui viveu, até à morte da Maria,em 1988.
– Da filha todos nos lembramos...
– Pois, teve um papel preponderante na Acção Católica e, em 1954, fundou aEscola de Educadores de Infância Maria Ulrich, que ainda hoje funciona. Criou aAssociação Casa Veva de Lima, para manter vivo o salon literário de suamãe, e a Fundação Maria Ulrich, para investigação pedagógica.
– Sendo o Carlos Mayer um dos Vencidos da Vida, virá daí a ideia de um salãoliterário?
– O pai da Veva nunca escreveu, mas fazia realmente parte dos Vencidos da Vida,tal como o Eça ou o Ramalho, que o consideravam um dos elementosmais brilhantes do grupo, sobretudo pela sua capacidade fantástica de trazerideias e suscitar o debate. De todos os filhos, foi a Veva a única que herdouesta faceta.
– Mas a Veva escreveu e muito...
– Sim, e até se considerava, antes de mais nada, escritora! O tempo demonstrouque não foi uma escritora de génio, mas, mesmo assim, deixou obra. Começou em1916, aos 30 anos, com uma peça de teatro chamada Fantaisie de Printemps,e entre teatro, poesia, artigos de opinião, relatos de viagem e conferências,deixou escritas perto de 30 obras.
– Em que outros planos revelava a sua excentricidade?
– Bem, houve grandes festas aqui. Numa, os criados, com a cara engraxada,seguravam archotes; noutra, instalou no jardim tendas e camelos, mandandotingir de anil todas as toalhas de mesa; noutra ainda, fez uma entradamajestosa ao som de trombetas, abanando-se com as suas plumas, num carrinho emforma de cisne puxado pelo Afonso Lopes Vieira. E tinha uma pantera, queum dos irmãos lhe ofereceu ainda bebé e trazia à trela, para horror das pessoasque a visitavam.
– Quem eram os seus grandes amigos?
– O Afonso Lopes Vieira, sua “alma gémea” na sensibilidade poética e seu fiel chevalierservant, a Carolina e o Pedro Cam­­pilho, a Simone e oFrancisco Cas­telo Branco, a Fernanda de Castro e o AntónioFerro...
– Há cisnes e borboletas por toda a casa...
– Sim, obsessivamente! Os cisnes, por serem um animal cuja elegância admirava,e as borboletas, porque a impressionava a maneira como não resistem aaproximar-se do fogo, a ponto de morrerem queimadas – talvez revendo-se, elamesma, nessa metáfora. Parece que, em muitas mitologias, a borboleta estáligada à morte, e algumas pessoas julgam ver neste fascínio da Veva o horrorque o envelhecimento lhe causava...
– Houve aqui uma tragédia...
– Sim, o suicídio do Jorge, único filho, bonito e esfuziante como todos osMayer, que se apaixonou por uma prima. Tendo combinado irem juntos ao teatro,pediu-lhe que trouxesse uma rosa branca no vestido se achasse que ele poderia“ter alguma esperança”; ela trouxe uma rosa, sim... mas preta! O pobre chegou acasa, subiu ao quarto no segundo andar e deu um tiro na cabeça! Depois disto, aVeva nunca mais voltou a ser a pessoa que era.
– Que horror. Antes disso viajavam muito?
– Julgo que sim: termas na Suíça, Ale­manha ou Itália, há postais efotografias. Paris para as toilettes, Inglaterra para rever os amigosque por lá tinham feito, instalavam-se sempre no Claridge. Também foram aMoçambique, atravessando toda uma parte da África Oriental. E sei que a Vevaficou entusiasmada com Nova Iorque.
– Eram tão ricos como a casa sugere?
– Julgo que foram sobretudo pessoas que, com muita graça e panache, souberamtirar o máximo partido do que tinham, deixando a imagem de uma vida socialrealmente brilhante. Mas nem sempre “tudo o que reluz é ouro” e uma senhora quefoi muito próxima da Veva contou-me que ela não tinha muitas jóias boas, sabiaera muito bem combinar fantasia de óptima qualidade com o que realmente erabom. E o Rui, cuja biblioteca rivalizava com a do rei D. Manuel, teve dea vender “porque a Veva custa-me fortunas!”
– Embora um pouco kitsch, a decoração é extraordinária...
– Tem toda a razão, a Veva era uma pessoa essencialmente kitsch, só quesabia ser kitsch com chique, graça e categoria. Eu acho que a graça dacasa resulta, basicamente, do progressivo amontoar de curiosidades que ela iatrazendo das viagens e das andanças da sua vida. Bom, e também da intervençãode um ou outro decorador...
– Onde desencantava ela todas estas peças únicas?
– Sei que comprou coisas no leilão da condessa de Edla, por exemplo. E tambémque encomendou várias peças ao ferreiro de arte Lourenço Chaves de Almeida,que depois foi autor do candelabro do Soldado Desco­nhecido, na sala doCapítulo da Batalha.
– Como foi possível conservar tudo isto, incluindo vestidos, peles, artigosde touca­dor? Não houve herdeiros?
– O filho Jorge morreu novíssimo e a Maria era solteira, não havia herdeirosdirectos. Este ramo específico terminava. A Maria propôs ao presidente NunoAbecasis, de quem era amicíssima, que a Câmara comprasse o edifício,oferecendo ela em contrapartida a maior parte do recheio – como forma deperpetuar o que aqui era essencial, o ambiente e a vida social e cultural. Seitambém que a Maria ofereceu ao Museu do Traje muita coisa...
– Como funciona a associação?
– A Casa Veva de Lima é uma Associação legalmente constituída – que, emborafuncio­ne no mesmo edifício que a Fundação Maria Ulrich, é juridicamentedistinta desta. Vive sobretudo dos chamados “convivas”, pessoas que aqui vêmuma primeira vez trazidas por alguém “que já seja da Casa”. A primeira equipadirectiva foi presidida pelo Dr. Manuel Abecasis, e funcionou desde acriação da associação, em 1985, até 1997, quando pediu escusa e foi eleita aactual, a que tenho o gosto de presidir.
– O que organiza aqui e com que frequência?
– A actividade da associação consiste na organização quinzenal de uma sessão,sempre às quartas-feiras, de Outubro ao fim de Junho. Essas sessões constam deum jantar volante, simples mas de muito boa qualidade, que começa às 20h30, epara o qual sócios e convivas se podem inscrever e trazer convidados, pagando20 euros por pessoa. Depois, há uma palestra ou um concerto, seguidos dedebates, estes já gratuitos e abertos a outras pessoas.
– Deve ser giro estar ligado a um esplendor destes…
– Sim, mas ao fim de 16 anos, também estamos mortinhos por passar o lugar amais novos, que possam manter a associação fresca e operacional.
Nota: por vontade da autora, este texto não segue as regras do novo acordo ortográfico

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