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Isabel de Brito e Cunha: “A cortesia é companheira da virtude”

Especialista em etiqueta e cortesia, Isabel de Brito e Cunha lançou recentemente o livro “Saber Ser, Saber Estar e Saber Viver”. Recebeu Rita Ferro em sua casa, no Campo de Santa Clara, em Lisboa.

Rita Ferro
15 de fevereiro de 2014, 18:00

Chama-se Maria Isabeld’Assunção Cha­ves de Brito e Cunha, nasceu no Porto, formou-se emSecretariado e Relações Públicas, foi secretária da administração do BancoMello, da Petrogal e do gabinete do vice-primeiro-ministro e ministro dosNegócios Estrangeiros do VI Governo Constitucional. Foi ainda assessora dochefe do Protocolo do Estado, no Protocolo de Lisboa, Capital da Cultura eEXPO’98, entre outras instituições. Frequentou o curso Saber Estar e Falar emPúblico, da actriz Glória de Matos, tendo colaborado no livro FalarMelhor e Escrever Melhor (Selecções do Reader’s Digest). Pontualmente,colabora na TV para nos elucidar sobre etiqueta e cortesia. Foi agraciada commúltiplas ordens honoríficas, entre as quais a Ordem Nacional de Mérito(Portugal) e a Royal Victorian Medal (Reino Unido). Acaba de lançar o livro SaberSer, Saber Estar e Saber Viver e conversou connosco na sua casa do Campo deSanta Clara, em Lisboa. Tem três filhos e três netos.
Rita Ferro – Qual a base de toda a cortesia, Isabel?
Isabel de Brito e Cunha – Diria que é uma série de comportamentosadequados à sociedade, adquiridos através de uma educação saudável datolerância, boa convivência, bons sentimentos e, em especial, do uso do bomsenso. Segundo Thomas Fuller, “a cortesia é a companheira inseparávelda virtude”.
– Reparei numa nota sua, no livro, em que diz que a toda a cortesia podecorresponder um direito a abdicar...
– Em sociedade todos temos direitos e deveres. Manda o bom senso que, emdeterminadas circunstâncias, deverão os deveres sobrepor-se aos direitos: “Anobreza de carácter assim obriga” (noblesse oblige).
– Estabeleçamos primeiro a diferença entre protocolo e etiqueta...
– Protocolo é um conjunto de formalidades e preceitos que se devem observar emcerimónias oficiais e em actos solenes. Etiqueta é um conjunto de regras ounormas ou, ainda, as chamadas boas maneiras usadas em sociedade.
– O que é cortês aqui pode ser grosseiro noutra latitude...
– A globalização tem vindo a tornar cada vez mais premente a necessidade deconhecermos as diferentes culturas. Na China, é uma desonra para o dono da casase não fica comida no prato, significando falta de generosidade. Nos EstadosUnidos, o convidado deve comer tudo, já que o contrário significa não tergostado da refeição. No Japão, ao oferecer-se um presente, este não deverá seraberto perante o ofertante.
– Estamos a tomar chá em sua casa. Reparei que as chávenas não forampreviamente postas. Estavam juntas a um canto e só depois de nos sentarmos ascolocou na mesa...
– O cerimonial do chá tem os seus preceitos, que são a razão do seu atractivo: “Éda competência da mulher, é ela quem convida e faz as honras, mesmo que oshomens também participem; ao contrário de uma refeição normal, a mesa para ochá nunca é posta, uma vez que a tarefa de servir o chá pertence exclusivamenteà dona da casa, sendo dispensada a presença de uma empregada, pelo que aschávenas serão ordenadas junto à anfitriã ou numa mesa de apoio”.
– Reparei que nos convites oficiais a homossexuais, casados ou em uniões defacto, começa a ver-se internacionalmente uma expressão alternativa a marido oumulher, que é significant other. O protocolo e a etiqueta têm sabidoacompanhar os novos formatos familiares?
– A expressão significant other, em minha opinião, aplica-segeralmente num contexto empresarial. Num evento social a maneira mais correctae elegante será o envio de dois convites. Cabe ao protocolo de cada Estadodefinir o reconhecimento das diferentes situações, não estando estes casosainda generalizados.
– A casaca é o único traje que permite usar condecorações, diz na página107. Reparo que é também o que se usa em Esto­colmo, no recebimento de umNobel. Mas na série Downton Abbey, basta que a avó Violet jante para quetoda a família troque o dinner jacket pela casaca (risos).
– A casaca, evening coat, aparece na corte britânica no século XIX,sendo considerado o traje nocturno masculino de maior formalidade. Era usado aojantar, refeição de excelência, na corte e na alta sociedade inglesa. Maistarde e, conforme descrito no meu livro, um membro da corte do rei EduardoVII cansado do incómodo das abas traseiras, mandou-as cortar, dando lugarao smoking, dinner jacket. A casaca manteve-se, contudo, paracerimónias mais formais. A série Downton Abbey passa-se nessa época e aavó Violet, matriarca da família, dificilmente aceitaria essa ‘modernice’...
– Sentar as pessoas à mesa também é uma ciência...
– A filosofia que define a distribuição dos lugares num jantar oficial ou decerimónia deverá ser a mesma em nossas casas. Obviamente, as pessoas maisvelhas terão preferência sobre as mais novas, e os de menor intimidade sobre osde maior relacionamento; o bom senso e o respeito pelos outros terão de caminharjuntos.
– Sei de um ministro no activo que passa sistematicamente à frente dasecretária, no elevador. E já vi um secretário de Estado cuspir no chão nointervalo de um congresso. Como acha que se comporta social­mente esta novaclasse política?
– Como é narrado na página 60 do meu livro, a mulher como profissional, oumesmo a que lidera, deverá ser tratada como tal, mas saber aceitar ecorresponder perante a sua posição hierárquica. Competirá à mulher evitarsituações embaraçosas, usando o seu bom senso, como o afastar-se ligeiramenteou, como se diz no Brasil, “não se pôr a jeito”, nem que para isso tenhaque engendrar uma desculpa. Contudo, situações existem em que o homem (mesmoquando hierarquicamente superior) deverá dar a prioridade à senhora, como é ocaso do elevador que, como é óbvio, foi uma grosseria. No meu entender, parteda nova classe política precisava de dar uma vista de olhos no meu livro, defácil leitura e isento de impostos. A autora ficaria satisfeita e osportugueses reconhecidos.
– Uma gaffe que conheça?
– No decorrer de um almoço entre amigos, uma convidada estrangeiracriticava o provincianismo da sociedade portuguesa. Sentindo-se atingida, umadas presentes con­frontou-a, narrando um pequeno escândalo publicado nessasemana numa revista es­trangeira da actualidade, que trazia consigo. A dona dacasa, apercebendo-se do rumo que a conversa tomava, fez-lhe sinal, mas já nãofoi a tempo. O protagonista do dito escândalo era marido da convidada estrangeira,que pernoitava em casa da anfitriã para se recompor do desgosto, e que, semmostrar parte fraca, escusou-se e levantou-se da mesa. O ambiente, claro, ficougélido.
– Alguém escreveu que é preciso conhecer as regras para se podertransgredi-las. Uma coisa é falhar por desconhecimento, outra, por diletância?
– Sim, realmente deverá ser-se conhecedor das boas regras para se podertransgredi-las ou melhor dizendo, modificá-las a seu belo prazer. Contudo, seránecessário bom senso, sentido de oportunidade e o chamado savoir faire(habilidade). Para os desconhecedores, terão humildemente que se aconselhar, oque só lhes fica bem. Quanto aos que fazem gala no desprezo pelos bonscostumes, esses certamente que não se conhecem ou não se aceitam tal qual são econfundem a própria personalidade com a originalidade e a marginalidade. Comoescreveu Montesquieu, “um povo defende com mais paixão os costumesque as leis”.
– Que áreas abrange o seu livro?
– Todas. Desde os primeiros cuidados da criança, enquanto bebé, até à suainserção na sociedade. Os diversos temas de aconselhamento que o compõemrelatam detalhadamente o diário de uma vida no Planeta Terra, habitada porseres humanos que se dizem civilizados, passando pela cerimónia do casamento,profissão e convivência, terminando no último passo da vida que, como se sabe,é a morte e o luto.
– Que conselho daria a alguém com pouca experiência social, ansioso sobre ocomportamento a adoptar?
– Ler o meu livro, procurar formação ou um bom conselheiro.
Nota: por vontade da autora, este texto não segue as regras do novo acordoortográfico

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