Nas Bancas

Joana Vasconcelos: “O que me move, o que me faz criar, é a vontade de viver”

A artista plástica, de 42 anos, sente-se naturalmente feliz com as oportunidades que têm surgido nos últimos tempos para mostrar as suas obras a nível internacional.

Cláudia Alegria
5 de janeiro de 2014, 12:00

As suas obras ganham cada vez maior projeção internacional. São megalómanas e não deixam ninguém indiferente. Desengane-se, no entanto, quem pensa que para fazer um sapato gigante com tachos ou elaborar um lustre com tampões basta ter uma ideia. A ideia nasce, de facto, na mente criativa de Joana Vasconcelos, mas a obra só se concretiza porque a artista se fez rodear de uma equipa que consegue realizar os seus sonhos. Dessa equipa faz parte o marido, Duarte Ramirez, o arquiteto com quem vive há mais de duas décadas e de quem tem uma filha, Alice, de dois anos. Juntos têm erguido uma carreira artística invejável que, apesar de já ter 18 anos, está longe ter ter atingido a maioridade...
– “Que a inspiração chegue não depende de mim. A única coisa que posso fazer é garantir que ela me encontre a trabalhar.” A frase é de Picasso, mas parece resumir o que os artistas defendem: que as suas obras nascem de 10% de inspiração e 90% de trabalho. É o seu caso?
Joana Vasconcelos –
Picasso tinha toda a razão. Efetivamente, a inspiração vem do trabalho e depende muito da elasticidade e da versatilidade que um artista tem em manter-se ativo e manter uma certa fruição. O fluir de ideias e uma certa ginástica mental é fundamental para a criação artística.
– Voltando às citações: Da Vinci defendia que “o objetivo mais alto do artista consiste em exprimir na fisionomia e nos movimentos do corpo as paixões da alma”...
Também acho que tem toda a razão.
– Se as suas criações são sempre em grande escala, deve ser uma pessoa muito apaixonada...
Claro que sim, pelas coisas e pelas múltiplas dimensões que um objeto consegue atingir. Os objetos correspondem às ansiedades e às preocupações do nosso tempo e, de alguma maneira, a esta ideia da expressão física e da sua reflexão na alma.
– Foi a primeira mulher e a mais jovem artista contemporânea a expor em Versalhes, exposição que teve o maior número de visitantes dos últimos 50 anos. É um motivo de orgulho ou não pensa muito nestes dados?
Motivo de orgulho não diria, é mais de responsabilidade. Quando fui convidada não pensei nisso, mas sim em ser mais uma artista a expor em Versalhes. Foi a dimensão artística e conceptual que me moveu e me preocupou. Foi a responsabilidade de fazer bem o meu trabalho e não em fazer o meu trabalho enquanto mulher. Tenho que me equiparar aos outros artistas, sejam eles mulheres ou homens. Não tem a ver com o género, mas sim com a qualidade profissional.
– Das peças que já criou, que não consegui descobrir quantas são, qual acha que foi a que lhe deu maior projeção internacional?
Também não sei quantas são, mas são muitas [risos]. De todas as peças, a Noiva é realmente especial, porque sempre que tenho que a expor, acontece qualquer coisa. É daquelas peças que mantêm uma atualidade incrível e um sentido de oportunidade fantástico, porque acontecem sempre problemáticas. Independentemente do avanço que a tecnologia ou o nosso conhecimento tenham, há tabus que ainda estão por derrubar e esta é daquelas peças que, mal ou bem, fazem com que esses tabus sejam postos em evidência e que nós nos apercebamos que ainda há muitas coisas que temos de repensar e mudar.
– O que é que a move, o que a faz criar?
A vontade de viver.
– O seu trabalho tem tido uma dimensão maior do que a que esperava?
Nunca esperei nada de especial, por isso, é com grande orgulho e fantasia que penso em tudo o que tem acontecido. Na verdade, sempre trabalhei de forma a que elas pudessem vir a acontecer, mas isso não garante que assim seja. Portanto, é com muito gosto e felicidade que vivo estes convites e oportu­nidades que me têm sido dadas.
– Diverte-se no processo de criação ou leva-o demasiado a sério?
As duas coisas. Não há coisa mais fantástica do que o processo criativo, ou seja, a possibilidade de uma pessoa pensar aquilo que nunca foi pensado e fazer aquilo que nunca foi feito. Isso é um grande desafio, do novo, do desconhecido, é levar as fronteiras mais além, criar novas dimensões. Depois, quando se consegue começar a concretizar essa dimensão, há uma grande seriedade no processo, que muitas vezes é duro e difícil porque é preciso convencer os outros a fazerem aquilo que nunca foi feito. É preciso acreditar e ter paixão. Sem uma forte paixão é impossível chegar-se a essa dimensão. A paixão, o gozo, o profissionalismo e a exigência são realidades do processo criativo.
– Acaba de completar 18 anos de carreira. Atingiu a maioridade no processo de criação?
[risos] A maioridade das artes nunca é uma realidade, nem faz parte do conceito artístico. O que existe é uma carreira que se vai construindo ao longo de uma vida, por isso é que se costuma dizer que a vida e a obra são uma só. Não existe reforma, nem maioridade, ser-se jovem artista ou mais velho, o único paradigma que existe é: “Será que se é ou não artista?” Mesmo isso só o tempo o dirá.
– Considera-se uma artista?
Faço por sê-lo todos os dias, mas isso não quer dizer que o seja. São coisas que são construídas, a vida e a obra são indivisíveis.
– Uma artista deve justificar a sua obra ou deixar que o público a interprete?
Ambas, ou seja, as obras têm que existir para além do artista e a forma de expressão do artista é a obra. Se a obra não comunicar e se não estabelecer os tais novos paradigmas, se não acrescentar qualquer coisa, mais valia não existir. Efetivamente, há artistas que também explicam a obra ou tentam enquadrá-la. Eu às vezes tenho de o fazer, outras não. Prefiro não o fazer. O que é interessante é que as obras tenham um discurso suficientemente aberto para permitir diferentes apreciações. Essa é que é a riqueza das obras. Quando são muito concretas e fechadas não permitem interpretações, logo, não são abrangentes, não comunicam com diferentes públicos.
– Os sapatos Marilyn representam a mulher de hoje e o seu duplo papel: a dona de casa, que se dedica à família, e a mulher que trabalha e que marca o seu lugar na sociedade. Enquanto artista, já provou o seu lugar. Enquanto dona de casa, consegue ter tempo e disponibilidade para dedicar à família?
Claro, tenho que ter. A gestão, quando se tem uma criança pequena, que é o meu caso, é mais complicada, porque requer uma atenção e dedicação de tempo diferente do que aquela que costumava ter antes de ser mãe. Fora isso, é uma nova gestão, é um de­safio pelo qual vale a pena lutar, portanto, é uma questão de adaptação da nossa vida profissional a essa nova dimensão.
– A sua avó era pintora, o seu pai fotógrafo. A arte parece estar no ADN da sua família. A sua filha já revela ter herdado essa veia artística?
Por acaso, sim. É engraçado, porque há coisas que passam realmente de geração em geração sem nos apercebermos. A minha filha tem muito ouvido e memória visual, características que eu e os meus pais também temos.
– Já tem alguma obra de arte da autoria da sua filha?
Não, as obras de arte nascem mais tarde, quando é uma atitude consciente, quando há um conceito por detrás. Quando os miúdos criam nesta idade, a expressão é autêntica e natural, porque é o gosto pelas cores e pelo gesto, mas o raciocínio não é a principal fonte de criação.
– O seu marido, que é arquiteto, parece ser uma peça fundamental no seu ateliê, já que transforma as obras de arte que a Joana idealiza em proporções viáveis e ‘materializáveis’. Acha que teria alcançado o sucesso que hoje tem sem a ajuda dele?
Não, porque é um trabalho de equipa. O meu trabalho resulta de uma equipa muito vasta e complexa que trabalha aqui comigo todos os dias. Começou só comigo e com o meu marido, depois fomos procurando pessoas com valências diferentes para tornar o trabalho mais profissional e levar os projetos mais além. Porque quando se começa a ter problemas de pesos e estruturas, quando se começa a fazer coisas mais ambiciosas, também há limites de espaço, de força, portanto, é preciso criar equipas para realizar esses projetos maiores.
– Tem em sua casa obras de arte da sua autoria?
Tenho, com muito gosto. Vou pondo e vou tirando obras e fazendo a minha própria curadoria caseira.
– Se tivesse que dar um nome ao seu estilo de arte, qual seria?
Isso é difícil de responder, porque não sou uma pensadora filosófica nem uma comissária, mas vou ousar uma frase dita por um grande amigo meu, que já morreu, Jorge Lima Barreto, que uma vez escreveu um texto sobre mim e começou por dizer que eu fazia um novo objetivismo. Achei que era um conceito muito interessante e acho que se aplica bastante àquilo que eu faço.

Palavras-chave

Comentários

ATENÇÃO: ESTE É UM ESPAÇO PÚBLICO E MODERADO. Não forneça os seus dados pessoais (como telefone ou morada) nem utilize linguagem imprópria.

Nas Bancas

Newsletters

Receba grátis no seu email as notícias, as últimas caras!

Caras Nas Redes

Mais na Caras