Maria Rueff: “Sou obsessiva naquilo que faço e não me perdoo uma falha”

Maria diz que o seu corpo sempre foi tão neutro para servir às personagens que nunca se mimou como mulher. Hoje, aos 41 anos, por influência da filha, Laura, de nove anos, diz que isso mudou um pouco.

14 Setembro 2013 às 16:00

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Luís Coelho
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Numa conversa descontraída e franca, Maria Rueff abre um pouco do seu universo mais privado e fala da filha, Laura, de nove anos – fruto da relação que teve com o também ator José Pedro Vasconcelos –, e do seu papel de mãe, explica porque é tão reservada no que toca às relações amorosas e mostra o seu orgulho pelo Globo de Ouro que recebeu em maio último na categoria de Melhor Atriz de Teatro.

– Esta é uma Maria diferente daquela a que estamos habituados, toda maquilhada e produzida, que anda de saltos altos…

Maria Rueff – Esta Maria só surge em algumas ocasiões e com mais frequência desde que tive o privilégio de o Dino Alves entrar na minha vida. Ele conseguiu melhorar ou ajudar a tirar partido daquilo que eu possa ter, não necessariamente bonito, mas interessante. É responsável por eu ter ganho alguma autoestima como mulher, pois não tinha muita. O meu corpo foi sempre tão neutro para servir tantas personagens que nunca me mimei muito como mulher. Tenho de agradecer-lhe a ele e à minha filha. É engraçado, parece que o destino nos oferece uns filhos que são o nosso oposto quase para nos ensinar. A minha filha é linda, muito bem-feitinha e, não sendo pirosa, tem um sentido estético muito bom. Ela própria me diz: “Ó mãe, não vás assim, pareces uma velha, veste antes aquele vestido.” Tenho ali, de facto, uma grande companheira.

– Nunca aparece com a Laura…

– Não, porque nunca expus, nem gosto de expor, o meu jardim privado. Reli no outro dia uma entrevista do Eduardo Lourenço em que dizia qualquer coisa como: as pessoas querem os seus cinco minutos de fama a custo de tudo, vendem os filhos, as barrigas, as vidas… E acho que isso um dia há de ter um preço dramático. Portanto, protejo a Laura, nunca a mostrei, mas também não a escondo… vou com ela a teatros, exposições, com normalidade, sem ser para a mostrar.

– E ela não se importa? Podia querer aparecer ao lado da mãe...

– Tive a sorte de ter uma filha inteligente e sensível. Obviamente que não é fácil perceber imediatamente porque é que a mãe não quer tirar fotografias ao lado dela, à partida parece que não gosta dela. Mas o que lhe expliquei foi: “É exatamente por a mãe gostar tanto de ti que te quer proteger desta feira de vaidades.” E ela entendeu. Agora é ela própria que não quer ir ou aparecer… A Laura, também pelos pais que tem, que são os dois figuras públicas, tem uma grande perceção disto tudo… e do espaço que nós precisamos de ter. Até porque houve uma coisa que eu sempre lhe disse: “A mãe ama o que faz e ama-te a ti tal como ama o que faz. E para estar bem contigo tem que ser feliz a fazer o que faz.” E ela percebe.

– Não deve ser fácil ter dois pais figuras públicas…

– Não é nada fácil [risos]. Avalio que deva ser muito pesado carregar os apelidos de pessoas conhecidas. Por isso estou sempre a fomentar que ela procure a sua própria estrelinha. Ela é uma acrobata incrível, fico tão orgulhosa dela e digo-lhe sempre que era incapaz de fazer o que ela faz, visto que sou uma pata choca. Portanto, estou sempre a valorizar o que ela tem e eu não tenho para ela se sentir especial e única, que é o que ela é. Tive a sorte de ter uma mãe leoa, que sempre me incentivou a seguir os meus sonhos. E é isso que faço com a Laura, por isso ela há de ser o que quiser ser. E eu vou ajudá-la sempre, como mãe e não como Maria Rueff.

– Também é uma mãe leoa como a sua mãe era?

– Nunca lhe chegarei aos calcanhares, já há poucas mulheres com aquela fibra. Passou por coisas dificílimas, como a descolonização, ter seis filhos, recomeçar do nada aos 40… portanto, havia uma fibra, uma sabedoria, uma elegância, uma alegria de viver que já não se veem. O meu objetivo de vida, enquanto mãe e mulher, é ser um bocadinho, 20 por cento, pelo menos, do que ela foi, isso já me faria feliz.

– Como tem conseguido conciliar o seu papel de ‘mãe solteira’ com o lado workaholic que parece ter?

– Eu amo o que faço. Quase sinto que me pagam para me divertir e ser feliz. Mas sou obsessiva no que faço e sou profundamente perfeccionista. Sou a pior inimiga de mim própria, não me perdoo uma falha, sou muito cruel comigo. Juntar isto à educação de uma criança minha filha e do Zé Pedro (imagine-se, é uma bomba de energia, tem uma personalidade fortíssima!) às vezes não é fácil! Mas sou uma privilegiada, porque tenho uma filha com saúde, inteligente, forte, e trabalho na coisa que mais amo. E não sou mãe solteira, estou separada. Mas o Zé Pedro tem uma vida tão complicada, com horários tão dispersos quanto os meus, e também tem a sua família… O que é engraçado nas novas famílias é que eu quase conto mais com a mulher do Zé Pedro – e somos amicíssimas – do que com ele.

– Conseguiram criar uma boa relação depois da separação…

– Sim. É das coisas de que mais me orgulho, ter resolvido os meus afetos.

– Depois do fim da relação com o Bruno Nogueira não lhe conhecemos mais nenhum namorado. Está solteira?

– Não me importo nada de falar sobre isso. Estou… Calhou os meus últimos companheiros serem figuras públicas e as relações terem-se tornado também elas públicas, porque não tenho nada a esconder. Mas expor as minhas relações nessa altura só me afetava a mim, e neste momento há uma criança que eu respeito imenso. Portanto, pela Laura, não quero falar do meu coração. Não estou fechada ao amor nem nada disso, mas a Laura está em primeiro lugar em relação a tudo, e é por isso que não abro mais as páginas da minha vida.

– Como foi ganhar o Globo de Ouro para Melhor Atriz de Teatro com uma comédia, Lar Doce Lar, também nomeada para Melhor Peça?

– Um grande orgulho! Foi a primeira vez que uma muito orgulhosa atriz comediante ganhou o Globo. Formei-me para ser atriz. No segundo ano do conservatório quiseram chumbar-me, disseram-me: “Vá lá para o Parque Mayer, porque está a tirar lugar às atrizes.” Isto em 1992, o país ainda tinha um grande preconceito em relação à comédia. Passados 20 anos, a cabeça dos portugueses mudou, está muito aberta ao humor, e isso comove-me. Em relação a esta peça, foi quase um presente do universo. Tanto eu como o Joaquim Monchique temos um profundo amor e um respeito pelos mais velhos. Eu fui filha tardia de uma senhora já de idade, o Monchique foi muito mimado e criado pela avó, portanto é quase como se as homenageássemos. E quando quisemos brincar com o universo onde todos chegaremos, quisemos que as pessoas se ‘rissem com’ e não se ‘rissem de’. Mas acaba por ser também uma lição de vida, onde as pessoas reveem as tias, as mães, as avós... É muito divertido, para nós não há cansaço, parece que estreámos ontem. A peça faz bem ao público e a nós também.

Palavras-chave do artigo
Maria Rueff, Bruno Nogueira, atriz, filha, Laura, José Pedro Vasconcelos, Joaquim Monchique

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