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Adelaide Líbano Monteiro, mãe de nove filhos: “Consigo tempo para mim”

A ex-terapeuta conversou com a escritora Rita Ferro e foi fotografada com o marido, Manuel Falcão Líbano Monteiro, engenheiro civil, e os nove filhos.

Rita Ferro
15 de dezembro de 2013, 10:00

Chama-se Maria Adelaide de Proulle Dias Rebello da Silva Líbano Monteiro, 49 anos, ex-terapeuta de Alcoitão, e é casada com Manuel Falcão Líbano Monteiro, engenheiro civil especializado na área dos transportes. Têm nove filhos, são felizes e consideram-se abençoados. Na sua casa de Miraflores respira-se um ambiente alegre, sereno e solidário, e uma disciplina baseada no bom senso induzido. Como se harmoniza a cabeça de uma mãe sobrecarregada como esta, num tempo em que as mulheres exigem oportunidades de lazer e de vaidade, bem como de se cumprirem em desafios exteriores à maternidade? Como é ter tantos filhos em tempo de crise e num país onde o apoio às famílias numerosas, por parte do Estado, é precário? Brincámos com eles no jardim local, e foi bonito ver o pai a jogar futebol com os filhos e a mãe muito alegre e atenta às raparigas, num cenário arquetípico já nostálgico.
– Ter uma família grande era um projecto do casal anterior ao casamento?
Adelaide – Sim. Já durante o nosso namoro, quando falávamos do projecto de família, dizíamos que gostaríamos de ter no mínimo três filhos. Nunca falámos nem pusemos um limite.
– Trabalhou até ao quinto filho. Deixou o trabalho porque não era difícil educar à distância ou porque era em casa que se sentia bem?
– Gostava muito da minha profissão e sentia-me realizada. Mas percebemos que, para a nossa família, seria melhor eu ficar em casa. Pareceu-nos que o equilíbrio, a tranquilidade e o conseguirmos que a família funcionasse como nós gostaríamos passava por esta opção. Sempre tive essa vontade. Ser mulher (esposa) e mãe estava na minha natureza. A decisão foi tomada em casal e para benefício de toda a família.
– Nota-se uma grande cumplicidade entre a Adelaide e o seu marido...
– É fundamental para se construir o casamento. Todas as decisões importantes e sérias têm que ser conversadas, rezadas e decididas pelos dois.
– Arranja tempo para si?
– Arranjo. Como to­dos saem de manhã para as escolas e trabalho, consigo tempo para mim. Tomo, por vezes, um cafezinho com amigas, faço algum exercício físico, acompanho pessoas que estão sozinhas ou doentes. O Manel e eu também arranjamos tempo para nós. É fundamental o casal ter tempo para si, para se conhecer, para se encontrar. É muito importante construirmos o nosso casamento todos os dias. É o pilar da nossa família.
– Sei que pertence à Asso­ciação Portuguesa de Famílias Numerosas. Algum desconto ou regalia assi­nalável?
– Ao longo destes anos a Associação tem conseguido alguns protocolos e regalias. Mas o mais importante é o trabalho que tem feito no sentido de dignificar a família. E sensibilizar para a importância que tem para a sociedade (qualquer que seja) uma família numerosa. São estas famílias que ajudam a sustentar a economia e o futuro das sociedades.
– Se o seu marido ficasse sem trabalho ou a família sem fontes de rendimento, qual seria a vossa filosofia?
– Não tenho dúvida de que arregaçava as mangas e me punha ao trabalho. E claro que reduziríamos as despesas que temos neste momento.
– Sente que olham a sua família com estranheza quando entram todos juntos em algum lugar?
– Por vezes. Não com olhar recriminatório, mas antes espantado, perplexo. Às vezes com sorrisos e outras vezes percebemos que tentam “decifrar” quem é quem, se são todos irmãos.
– Como fazem para se deslocar em férias ou fins-de-semana?
– Tem que ser com dois carros, visto que somos 11. O maior é uma carrinha de nove lugares.
– Há vantagens numa educação de rancho, ou seja, menos centrada nas exigências personalizadas de cada criança?
– Há tantas que se vão descobrindo à medida que a família aumenta e que os filhos vão crescendo. Muita coisa é relativizada e aprendemos a descomplicar. Assimilamos todos (não só os filhos) o que significa partilha, entreajuda, atenção aos outros. Os quartos são partilhados dois a dois. As roupas (não precisam ser de marca) passam de uns para os outros; e é uma alegria ver como os mais novos se sentem ‘promovidos’ e vaidosos quando passam a usar o que já foi dos mais velhos. Televisão: só uma na sala, para todos. Telemóveis: só a partir do 11º/12º anos. Vão aprendendo a usar as suas economias para os seus gastos próprios e para aquelas coisas que nós não damos. Mas é importante deixar claro que não somos todos iguais: é preciso ver cada um como único e irrepetível, respeitando-o e dando a atenção e tempo para o que precisa.
– Que critérios de disciplina estabelecem?
– Primeiro, é preciso que nós os dois, pai e mãe, transmitamos o mesmo. Regras: para crescerem os filhos precisam de saber com o que contam; é preciso estabelecer limites. Muita coerência, muita persistência e constância. Mas também muito amor. Disciplina e regras sem amor leva à repressão. Acreditamos que temos que os educar para a autonomia, res­ponsabilidade e liberdade.
– Conte uma história engraçada...
– Ainda há muito pouco tempo tocaram à porta para um inquérito. Primeira pergunta: quantas pessoas vivem na casa? Resposta: 11. Voltou a fazer a mesma pergunta e depois de a resposta ter sido a mesma, ficou tão atrapa­lhada que quase não conseguiu continuar o inquérito.
– Nunca desespera?
– Claro que sim! Às vezes até dou um berro. Há dias de maior cansaço. Outros em que não apetece fazer o que é preciso. E outros em que quero que tudo seja feito à minha medida, não olhando para cada um como ele é. É preciso descobrir o que é melhor em cada situação.
– Como são as suas idas ao supermercado?
– Só compramos o que é mesmo necessário. Material escolar: reciclar o máximo possível de um ano para o outro. E fazemos trocas de manuais de estudo com família e amigos. Supermercado: vou sempre com lista de compras. Também é bom que os mais novos possam ter coisas novas. De vez em quando, compra-se um mimo ou apro­veita-se um dia de festa. Como somos muitos, há sempre ocasiões para celebrar.
– Que conselho daria a uma família ‘reduzida’?
– Se tiver disponibilidade, não desperdice a oportunidade de construir uma família numerosa. Tudo o que se ganha com cada filho que nasce é superior ao que possa dar de trabalho.
Nota: por vontade da autora, este texto não segue as regras do novo acordo ortográfico

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