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Maria João Luís assegura: "Tenho tentado vencer os meus medos"

A vilã da novela ‘Sol de Inverno’ conversou com a CARAS sobre os seus papéis de mãe e de mulher.

Marta Mesquita
14 de dezembro de 2013, 14:00

Neste momento, Maria João Luís, de 49 anos, interpreta uma das personagens mais desafiantes da sua carreira, a vilã Laura Teles de Aragão, na novela da SIC Sol de Inverno. Se no ecrã a atriz dá vida a uma mulher implacável que não olha a meios para conseguir o que quer, fora dele Maria João assume-se como uma pessoa frágil que tenta diariamente combater os seus medos. Contudo, esta sua vulnerabilidade não a impede de ser igualmente uma mulher cheia de força e determinação, que procura, acima de tudo, ser feliz ao lado do marido, Pedro Domingos, e dos filhos, Jaime, de 16 anos, Artur, de 14, e Lucas, de nove.
Durante uma tarde passada em Sintra, Maria João Luís revelou à CARAS o seu lado mais vulnerável e emotivo.
– É divertido interpretar uma vilã?
Maria João Luís
– Gosto muito de trabalhos de composição e é sempre mais fácil compor algo que não tem a ver com a nossa essência. O desafio de construir uma personagem como esta, que é muito particular e não tem nada a ver com a norma, é uma coisa que me agrada bastante. Dá-me muito mais entusiasmo do que interpretar uma personagem que se enquadre no padrão da normalidade.
– E o que é que vai buscar à sua personalidade para ‘emprestar’ a esta personagem?
– Não vou buscar muita coisa minha para esta personagem. Ela defende muito os filhos, é uma mãe muito dedicada e protetora e isso também sou. Agora, não vou tão longe nessa proteção como a Laura pode ir.
– Muitos dos seus colegas de elenco têm dito que é um privilégio trabalhar consigo. Ser uma referência para os seus pares é sempre algo positivo ou é, por vezes, também um peso?
– Faz muito bem ao ego ouvir esses elogios e é bastante gratificante. Uma das melhores coisas que levo da minha profissão é aquilo que vou vivendo e partilhando com os meus pares e com as pessoas com quem trabalho. Aprendo também muito com os meus colegas e felizmente nesta novela há grandes atores com quem contraceno, nomeadamente a Rita Blanco, que sempre admirei muito como pessoa e atriz. Neste momento, ela é para mim uma grande âncora. Apoio-me muito nela para trabalhar. Nesta novela, estamos todos muito sintonizados.
– A Maria João parece ser uma pessoa reservada, que raramente vai a festas ou acontecimentos sociais. Incomoda-a ter uma profissão que a obriga a integrar a esfera mediática?
– Não vou a festas porque não tenho tempo. Tenho uma vida mui­to preenchi­da, trabalho muito e quando não tenho nada para fazer, eu própria invento coisas para serem feitas. Sou um bocado hiperativa e, de facto, dedico mais tempo à minha família e ao meu trabalho do que aos eventos sociais. E às vezes até gostava de sair mais, mas não tenho disponibilidade para isso. Gosto de usar o meu tempo de uma forma útil. Chegamos a uma determinada altura da nossa vida em que temos mesmo a noção de que não vale a pena perder tempo.
– Numa anterior entrevista que nos deu, admitiu ser uma pessoa frágil. Não sente que a idade e a experiência vão ate­nuando essas fragilidades?
– Tenho muitas fragilidades, mas também sou muito forte e dificilmente me dão a volta. Sou uma pessoa muito convicta e defendo as coisas em que acredito com muita força e energia, mas, simultaneamente, sou uma pessoa muito frágil. Às vezes acordo e penso que nada vai resultar, que o que estou a fazer está errado ou mal feito e sinto que não tenho o mínimo de segurança... Felizmente, esses momentos são menos frequentes do que aqueles em que me sinto forte. E com a idade, de facto, esses momentos de maior in­segurança e fragilidade tornam-se menos frequentes. Com a idade vou ficando cada vez mais forte. É o lado bom da experiência de vida.
– Durante a sua juventude viveu de uma forma muito livre. Sem nada planeado, pegava nas suas coisas e viajava para qualquer lugar. Hoje em dia, no meio da sua rotina familiar e profissional, continua a ter esse espírito de liberdade?
– Com 20 anos o mundo era meu. Agora, já não tenho a liberda­de de ir como tinha, tenho três filhos e a partir do momento em que somos mães as coisas mudam. Acho que fiz tudo na altura certa. Sou apaixonada pelos meus filhos e pelo meu marido, tenho essa sorte. Também sou apaixonada pela vida. Aquilo que amo profundamente é a vida e a liberdade e isso permite-nos amar os outros de uma forma muito mais genuína e com menos medo.
– E essa liberdade e forma de encarar a vida ajudam-na a lidar com os seus medos?
– Há um medo instintivo no ser humano e eu tenho tentado, durante toda a minha vida, libertar-me disso. Hoje em dia as pessoas têm medo de tudo, têm medo a mais. Conheço pessoas que têm medo de abrir a porta ou de vir à janela. E isso não é vida para ninguém! As pessoas estão presas e é sobretudo contra isso que luto. Tenho tentado vencer os meus medos. Na minha profissão é complicado lidar com o medo, porque tenho de subir a um palco e enfrentar muitas pessoas ou interpretar a protagonista de uma novela. Os olhares estão voltados na minha direção e isso assusta um bocadinho, mas acho que já me assustou mais.
– E como mãe protetora que já admitiu ser, consegue dar aos seus filhos essa mesma liberdade que tanto preza?
– Converso muito com os meus filhos e peço-lhes muito a sua opinião. Tenho muita vontade de saber o que pensam sobre as coisas e, perante o que eles me dizem, discutimos ideias e pensamentos. Dentro desta sociedade em que vivemos, temos de continuar a ser livres, tentando viver de acordo com os nossos critérios. Ser mãe é um desafio maravilhoso. Tenho três filhos muito queridos... Partilhamos muito e não ficam coisas por dizer.
– Essa partilha e diálogo são também o segredo de um casa­mento feliz?
– Também, embora o segredo dos casamentos longos e felizes seja a paixão e o amor e isso ninguém consegue explicar... O que leva uma pessoa a estar apaixonada durante 20 e tal anos? É um mistério. Mas a verdade é que vivo há 23 anos com o meu marido e gosto imenso dele. Continuo a amá-lo.
– Mas essa paixão ao fim de 20 anos já não é igual à que se sente no início da relação...
– É. Não acho nada que a paixão se perca. Continuo tão apaixonada pelo meu marido como estava no início, mas há realmente coisas que amadurecem no casal. Não há tanta ansiedade, tanto medo de se perder a outra pessoa. Há algo que nos apazigua.
– Este mês faz 50 anos. Como lida com o passar do tempo?
– Estou muito bem e tenho orgulho em ir fazer 50 anos. Nunca deixei de fazer aquilo que achava que deveria fazer. Claro que às vezes custa e temos pedras no caminho que temos de tirar à força de braços. Mas continuo a tentar fazer aquilo que quero e tenho conseguido. Na minha vida sempre fui andando para a frente?
– Ainda tem muitos sonhos por realizar em cima do palco?
– Não penso muito nisso, mas tenho sempre vários projetos que quero fazer. Tenho uma criatividade galopante. Só tenho a ambição de um dia poder dizer: “Fiz aquilo que me deu na gana e fi-lo com menos medo do que poderia ter tido.”

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