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Ana Mesquita e João Gil vivem dias em família na Madeira

A artista e o músico partilharam a sua cumplicidade com a CARAS numa viagem que incluiu Vicente, filho de Ana.

Marta Mesquita
2 de novembro de 2013, 10:00

Ana Mesquita é uma apaixonada pela ilha da Madeira, por isso, quando surgiu o convite para expor as suas obras feitas em iPad no Museu de Electricidade Casa da Luz, no Funchal, aceitou sem hesitar. A preparar esta exposição, que será inaugurada a 11 de outubro, a artista plástica regressou a esta ilha, mas desta vez tendo como companhia o marido, João Gil, e o filho, Vicente, de 13 anos.
Dias depois de regressarem desta viagem, Ana e João conversaram com a CARAS e revelaram mais sobre si e a família que construíram. Durante esta entrevista, as perguntas quase ficaram de fora, tornando-se uma conversa de casal que, em cada ideia ou sonhos partilhados, evidenciou a sua cumplicidade e química.
– Acredito que seja sempre bom regressarem à Madeira...
Ana Mesquita
– Adoro a Ma­deira. É um lugar onde volto sempre com muito prazer. Há bastante tempo que queria ficar no Reid’s, que é o hotel onde a influência fina da cultura inglesa melhor se sente e tem um excelente acesso ao mar. Os empregados recebem os hóspedes como se os conhecessem de sempre. É como se fosse uma pequena cidade, uma ilha dentro da ilha. E durante estes dias descobrimos lugares únicos, como a Fajã dos Padres, que é um paraíso. Nesta viagem fui também preparar a minha exposição, com a curadoria da Bárbara Gil Pereira. É a primeira exposição em que tenho o apoio da LG, que vai disponibilizar ecrãs gigantes onde vão ser apresentados os meus trabalhos. Estou muito entusiasmada com este projeto.
– Esta foi também uma viagem em família. Sente que estes momentos em que saem da rotina são importantes para reforçar a dinâmica familiar?– Nós somos pessoas de família e gostamos de cultivar toda essa dinâmica. Sou completamente apegada aos meus e não sei viver de outra maneira. Preciso deles. Gosto de ter o meu clã. E no dia-a-dia estamos sempre juntos. Não há desculpas de não ter tempo ou de ter muito trabalho.
– A Ana esteve dedicada ao jornalismo durante muitos anos e recentemente decidiu enveredar pelas artes plásticas. Como é que está a viver esta nova fase profissional?
– Com muito entusiasmo e quero sedimentar aquilo que estou a fazer. Eu poderia ter enveredado pelo percurso da pintura e das artes plásticas quando acabei o curso de Design. Antes de o jornalismo tomar conta de mim, expus e vivi de pintar seda durante alguns anos. Mas um dia dei por mim tomada pelo jornalismo. E ainda bem.
João Gil – Um jornalista não tem de ficar bloqueado na sua própria profissão. Eu sou músico, mas também cozinho muito bem, por exemplo. Podemos viver a multidão de gente que há em nós.
– E ao longo da sua carreira, o João sempre teve essa liberdade e tempo para fazer tudo aquilo que queria?
– Acho que sim. O problema é que para se fazer bem uma coisa temos de a respirar e de nos entregar de corpo e alma. E temos de fazer uma coisa de cada vez, caso contrário, tornamo-nos diletantes profissionais. Mas a felicidade passa pela satisfação das várias pessoas que existem dentro de nós.
Ana – E no meu caso o jorna­lismo deu-me essa satisfação.
João – Acredito que sim, mas quando vi os trabalhos artísticos que a Ana fazia, senti que era inacreditável alguém pôr de lado durante tanto tempo um talento tão extraordinário.
Ana – O meu lado artístico e o jornalismo serão sempre duas gavetas que mantenho abertas e há um denominador comum entre eles: o querer comunicar. O que acho giro é que voltei a desenhar num instrumento do futuro, que é o iPad. Mas se não houver talento, não serve para nada ter um iPad. E o mesmo acontece com os pincéis. Podes ter os melhores pincéis do mundo, mas sem talento eles não pintam por si. E para chegar aqui, passei pelos clássicos todos.
– E neste seu regresso às artes plásticas descobriu uma nova Ana?
– Sim, tenho mudado imenso. A arte é muito mais introspetiva do que o jornalismo. Os meus desenhos resultam do estímulo que recebo do mundo que me rodeia. E como o mundo anda tão feio, dá-me prazer usar a arte tentando torná-lo melhor. De alguma maneira, contrario esse ciclo da feiura, da crise, da mesmice... Quem cria tem sempre uma nova perspetiva, um ponto de fuga, um futuro.
João – Mas num mundo em crise fica complicado vender arte. Precisávamos de um povo mais educado para a cultura, mais so­fisticado, mais culto para poder resistir melhor às adversidades. As bibliotecas russas estavam cheias debaixo de bombardeamentos e isso revela que são um povo que vê na arte um escape e uma forma de sobrevivência. Um povo mais culto é um povo mais livre. Se tivéssemos investido mais nas pessoas, teríamos hoje outro tipo de resistência à crise.
– Acredito que se inspirem muito um no outro...
Ana
– Sim, sem dúvida. O entusiasmo do João é muito contagiante e aprendi a travar-me menos e a sentir que nem todos os saltos são mortais! E que vale a pensa saltar. Sou muito exigente comigo e com quem me rodeia. O João acorda ainda mais bem disposto do que eu e isso é ótimo, porque o quotidiano, assim, cansa menos. Este seu otimismo facilita tudo. E conversamos muito. O estímulo intelectual é o que mantém as pessoas juntas. É isso, uma admiração mútua e muita paciência!
João – A Ana abriu-me as portas para a família. Eu andava sempre um bocadinho desapegado, apesar de sempre ter tido o conceito de família. E a partir do momento em que me cruzei com a Ana, comecei a viver mais esse lado. Uma pessoa aprende sempre bastante com a outra, descobre um novo universo. Com a Ana fiquei mais ligado ao mundo dos afetos e isso é fantástico. Entrei num processo de autoquestionamento e cresci bastante. Os homens são muito infantis, crescem mais tarde e eu amadureci muito com a Ana. Entre nós há o mesmo comprimento de onda. Temos uma admiração mútua muito grande. E, na minha modesta opinião, esta mulher é das mulheres mais bonitas que vi até hoje.
– E como é para a Ana, que está tão ligada ao universo feminino, estar rodeada de homens e ter agora um filho adolescente?
Ana
– É maravilhoso. Eu tenho um ‘Zé Manel’ dentro de mim que resolve tudo [risos].
João – E esse ‘Zé Manel’ facilita tudo entre nós!
Ana – O Vicente é uma gran­de companhia e faz-nos sempre falta quando não está. É cómico e diz que quer ser mister.
João – Te­mos muito orgulho nos dois, no Vicente e no Rafa [Rafael, de 21 anos, filho do João]. São dois irmãos fantásticos. São pessoas equilibradas e com uma boa relação com o mundo.
Ana – E adoram-se.
– Acredito que o ambien­te numa casa de artistas seja também especial...
– O João vive organizadamente na lua. Tem sempre um pé na terra, mas gosta que o vá buscar todos os dias à lua. E isso é giro. O papel das mulheres é organizar a vida daqueles que as rodeiam.
João – Gostei dessa observação do “viver organizadamente na lua”. Não sou muito bom na organização do espaço. Mas um compositor não pode compor se não tiver uma memória extremamente organizada. E isso eu tenho!
– O João já tem 37 anos de carreira. Sente que tem conseguido reinventar-se, na arte e na vida?
– Sim. Gos­to de ser estimulado e gosto de desafios diferentes e isso ajuda-me a evitar uma obesidade mental. A barriga do cérebro também cresce, ou porque uma pessoa se acomoda, ou porque o público gosta tanto de mim a fazer aquilo, que faço sempre a mesma coisa. E eu tenho de me desprender, arriscar e fazer coisas diferentes. A reciclagem é normal e faz parte da profissão. Enquanto respirar, terei a música por perto.
– E, neste momento, o João está envolvido em muitos projetos profissionais...
– Sim, estou a iniciar a cons­trução do que será o próximo dis­co dos Rio Grande. Também estou envolvido na candidatura do Cante Alentejano a Património Imaterial da Humanidade da UNESCO. Tenho o Quinteto de Lisboa à beira de gravar o seu disco e para o ano, se tudo correr bem, vamos avançar com a representação da Ode Marítima com o Diogo Infante. Também quero repetir a experiência do João Gil e Amigos.

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