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Maria de Vasconcelos: “Sou competitiva comigo própria”

A psiquiatra e artista passou um fim de semana animado no Algarve com o marido, Xavier, e as filhas, Manon e Mathilde.

Ana Oliveira
4 de agosto de 2013, 11:00

A energia com que fala e a rapidez com que encadeia os raciocínios tornam muito fácil perceber porque é que Maria de Vasconcelos, de 42 anos, acumula tantas experiências profissionais: uma não chegaria para a satisfazer. Médica psiquiatra, já foi manequim, apresentadora de televisão e animadora de rádio – e esta não é uma lista exaustiva – e redescobriu recentemente a música, conquistando alguma notoriedade com o livro/CD infantil As Canções da Maria (o segundo volume deverá sair no final de setembro, e promete continuar a ensinar truques de aprendizagem às crianças, desta vez dando destaque à tabuada, às horas e à temática par/ímpar, entre muitos outros assuntos), que tem proporcionado alguns espetáculos em família: Maria tem subido ao palco com as duas filhas, Mathilde, de nove anos, e Manon, de sete, e o apoio técnico do marido, o francês Xavier Colette, com quem está casada há 12 anos, mas com quem celebrava precisamente no dia desta sessão fotográfica 17 anos de relação. “Só em família este projeto faz sentido”, explicou-nos durante o fim de semana que passou em família num resort de luxo situado no Carvoeiro, no Algarve, e onde deu um showcase que animou os hóspedes. Ficou evidente que Mathilde e Manon herdaram a versatilidade da mãe, interagindo com o público com o à-vontade de artistas profissionais.
– É óbvio que a Maria é muito exigente consigo própria, fiquei até com a impressão de que seria perfeccionista...
Maria de Vasconcelos – Não sou perfeccio­nista, mas sou muito competitiva comigo própria, tenho que dar sempre o meu melhor. É uma coisa que digo muitas vezes às minhas filhas: a vida é longa e, no final, as contas são com elas próprias, portanto, não vale a pena andar em competições malucas com os outros. É muito importante fazermos o nosso melhor porque se não conhecermos o nosso limite vamos andar sempre aquém dele e não podemos dizer com responsabilidade um “olha, hoje não me apetece”. Que é uma coisa que podemos fazer por exceção.
– Como é que essa exigência é compatível com a sua polivalência profissional? Há a ideia feita de que as pessoas não conseguem fazer tudo bem. Ou não quer fazer tudo bem?
– Claro que quero, senão não vale a pena. Eu acho que todos nós somos muitas coisas diferentes. Há pessoas que tiveram a sorte de o poder desenvolver, e que nunca o perderam, e há outras que não. Eu sempre fui assim e como eu há muita gente.
– Será também uma consequência da sua educação...
– Sim. Tive a sorte de a minha mãe sempre me ter posto a fazer muitas coisas, de me ter aberto muitas portas, sobretudo na música. Ela sempre estimulou muito todos os lados possíveis da personalidade de uma criança. Todas as crianças os têm, nós é que nos inclinamos mais para aqui ou para ali, é a condição humana.
– Será também um processo natural no amadurecimento de qualquer pessoa: ir aprofundando um caminho e passar a considerar os outros passatempos...
– Sim, e comigo também foi assim durante muito tempo. Apesar de toda a abertura da minha mãe, claro que me incentivou a seguir uma carreira, a ter um ‘canudo’. Ela é enfermeira parteira, o meu pai, com quem nunca vivi, é médico, e vem daí o meu contacto com a Medicina. E para mim o caminho óbvio era ter um curso, uma profissão, tudo isso, o que fiz de forma certinha. Ao mesmo tempo, estava na música (estudei no Conservatório e toquei em orquestras), fui manequim, e olhava para todos esses lados como um hobby. Pensava: eu sou é médica, o resto são passatempos. Entretanto, quando cheguei à rádio, já depois da televisão, houve uma altura em que fomos para o teatro [com o espetáculo O Homem que Mordeu o Cão, em parceria com Nuno Markl e Pedro Ribeiro] e foi outra boa experiência. Nessa altura, acumulava estas coisas com as aulas que dava na faculdade, de Histologia e Embriologia, além de continuar a exercer psiquiatria, e dei comigo a pensar: tenho de integrar tudo isto. Eu não sou isto ou aquilo, sou isto e aquilo. Isto não é adversativo, não tenho de separar as coisas.
– E não enfrentou preconceitos?
– Sim, sem dúvida. Durante muito tempo senti-me um pouco extraterrestre: do lado da medicina era a artista, do lado da artista era a médica psiquiatra. Mas isto nunca comprometeu nenhum dos lados.
– É um facto que continua a ser bem sucedida em ambos. Também estimula essa polivalência nas suas filhas?
– Sim, claro. Digo-lhes muitas vezes: sejam profundas e sejam fúteis, cabe tudo nesta vida e vocês têm tudo aí dentro, é para aproveitar.
– O nascimento das suas filhas não a obrigou a abrandar o ritmo?
– Quando tivemos a Mathilde e a Manon decidimos que, se pudéssemos – porque há, obviamente, muita gente que não o pode fazer –, iríamos trabalhar menos e aproveitar o que temos. Há pessoas que vivem com a lista das coisas que não têm, nós vivemos com a lista das coisas que temos. Eu e o Xavier [que já teve uma escola de vela, uma loja de bijutaria e hoje gere duas casas de repouso] trabalhávamos de sol a sol e fomos reduzindo progressivamente os horários. Preferimos ganhar menos dinheiro e termos o prazer de as ir buscar à escola e estarmos com elas.
– Isso é a psiquiatra a tentar prevenir problemas, a pensar que as crianças crescem mais equilibradas se acompanhadas pelos pais...
– [Risos] Não, claro que elas vão ter as mesmas coisas que toda a gente tem. O que eu peço é que tenham saúde física e mental. Se tiverem saúde mental, serão de certeza boas pessoas.
– Mas pode fazer-se prevenção das doenças mentais?
– Acho que se toda a gente fizesse uma espécie de ‘ginástica da alma’, como considero que é a psicoterapia, se calhar o mundo andava mais feliz e tudo seria mais fácil.

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