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Reynaldo Gianecchini: “Tornei-me um ser humano melhor [depois do cancro]”

O ator brasileiro, de 40 anos, que esteve em Portugal para o lançamento da sua biografia ‘Giane: Vida, Arte e Luta’, de Guilherme Fiuza, deu uma entrevista onde confessa não ter tido medo da morte e que a doença o deixou mais sereno.

Cristiana Rodrigues
14 de julho de 2013, 10:00

Com um sorriso contagiante Reynaldo Gianecchini aparece na mezanino do Hotel do Bairro Alto onde durante meia hora nos concede esta entrevista a propósito do lançamento da sua biografia Giane – Vida, Arte e Luta, na qual fala da sua carreira como modelo e ator, do amor, e descreve a dura batalha contra o cancro agressivo no sistema linfático.
– O medo da morte ainda está muito presente?
Reynaldo Gianecchini –
A mor­te é um grande mistério até ao mo­mento em que nos deparamos com ela e somos obrigados a desmistificá-la. Eu lidei com a possibilidade da minha morte e com a morte do meu pai e foi uma grande aprendizagem. Neste momento, não posso dizer que tenha medo da morte, só espero não morrer tão cedo, porque ainda tenho muita coisa para fazer.
– Ver o seu pai morrer num momento em que lutava contra o cancro não o fez perder a esperança de sobreviver?
Não. O meu pai tinha um cancro incurável, diferente do meu, que tinha possibilidade de cura. Eu aprendi a aceitar e ver algo de bom em tudo o que a vida nos apresenta. Ao contrário do que toda a gente pensa, o processo pelo qual passei não foi uma desgraça nem muito doloroso.
– Quando se sentiu perto da finitude, o que é que lhe passou pela cabeça?
Quando me deparei com essa finitude fiquei em contacto com a minha solidão. Naquele momento só eu é que podia resolver aquilo, só eu tinha de seguir sozinho aquele caminho.
– Pensou no que tinha deixado por dizer?
Não. Gosto de falar, de exprimir o que eu sinto, não tenho nada guardado, nem mágoa...
– Acha que as pessoas olhavam com pena para si?
Acho que houve um choque por ser tão jovem e trabalhar com a imagem de galã. Acho que houve um misto de dó, mas também de compaixão, solidariedade, de querer ajudar.
– Houve alturas em que quis estar sozinho, isolado?
Sim, em vários momentos. Foi um período de introspeção.
– Enfrentar aquela que é conhecida também como a doença silenciosa, tratamentos de quimioterapia, cirurgias, é um processo solitário?
É, de uma certa forma, até porque te impede de sair para a vida, para a rua, a toda a hora. Tentei entender o que me estava acontecer, fiz uma pausa na vida para repensar tudo.
– Viver permanentemente em capas de revista em alturas como essa pode ser perturbador?
Pode. Pode ser muito chato e perigoso até se acreditarmos nessa loucura toda. Há uma grande perda de privacidade, as pessoas dizem o que querem sobre a nossa vida. E para mim, que sou uma pessoa reservada, pode ser muito agressivo.
– Ser-se figura pública aumenta também a responsabilidade de mostrar que se está tranquilo quando não se está, que se está esperançoso quando não é isso que acontece?
No meu caso, não. Foi natural em mim ser otimista no meu tratamento, e nada do que eu tive vontade de falar foi pensado racionalmente em função de uma imagem. Era o que eu estava a passar e quis partilhar com as pessoas já que estava a receber tanto carinho. Já tinha muita coisa em que pensar, resolver, por isso, para quê pensar ainda em corresponder a uma imagem?
– A atriz Cláudia Raia foi um gran­de apoio nesse momento da sua vida. Tinha noção de que era uma amizade tão profunda?
Sabia, mas foi muito importante du­rante o meu tratamento eu pôr as pessoas no devido lugar. Passei a saber realmente quem são as pessoas importantes na minha vida, que deviam ser valorizadas por mim.
– Que cuidados tem de ter agora? Há restrições?
Nenhuma. [risos] No início tinha de ter cuidado porque a minha imunidade estava baixa, não tinha muitos anticorpos. Agora, passado um ano, só tenho de fazer exames periódicos.
– Há ansiedade nesses momentos?
Há sempre alguma apreensão com a possibilidade de o resultado não ser satisfatório, mas aprendi a aceitar tudo e tento viver apenas o presente com o prazer.
– É preciso a vida passar-nos algu­mas rasteiras para olharmos para o lado de outra forma?
Sim. Acho que quem passa por esta oportunidade não pode deixar de aproveitar e tornar-se um ser humano melhor, aprender a dar valor ao que importa, e procurar um sentido para a sua existência.
– Foi uma segunda oportunidade...
Sim, exatamente. Acho que toda a gente tem uma segunda oportunidade, mas quando se passa por este processo, apegamo-nos a algo muito forte e a mudança é muito radical.

– Como é que vive agora? De forma intensa?

Intensa, mas tranquilamente também. Não faço grandes planos nem penso muito no futuro.

– Nunca escondeu que a Marília Gabriela, com quem esteve casado oito anos, foi o grande amor da sua vida. Acha que vai reencontrar alguém com quem vai viver um amor intenso?

Espero encontrar uma pessoa que venha acrescentar alguma coisa à minha vida, mas não tenho a menor ansiedade, porque vivo bem sozinho. O amor não se planeia, acontece.

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