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Rita Ferro Rodrigues: “A morte não nos rouba os sonhos, muito menos nos pode levar o amor”

A apresentadora, de 36 anos, dedica o seu mais recente livro, ‘Deve Ser Isto o Amor’, ao avô paterno, que morreu há seis anos, aos filhos, Leonor, de dez anos, e Eduardo, de dois, e ao enteado, Miguel, fruto de uma anterior relação do marido, Rúben Vieira, de 32 anos.

Cláudia Alegria
13 de julho de 2013, 10:00

Rita Ferro Rodrigues acaba de lançar o seu segundo livro, Deve Ser Isto o Amor. O primeiro que editou, há nove anos, No Parapeito, falava da filha, Leonor, na altura com um ano e meio, e das suas histórias. Neste novo livro fala da Leonor, que completa 11 anos na próxima semana, do Eduardo, de dois anos – o filho que nasceu do seu relacionamento com o operador de câmara Rúben Vieira – do enteado, Miguel, de nove anos, “e de outras pessoas muito importantes na minha vida, umas que não estão fisicamente, mas que estão sempre comigo”, afirma a apresentadora, referindo-se ao avô paterno, o dramaturgo Eduardo Alberto Ferro Rodrigues, que morreu há seis anos, e a quem presta homenagem neste seu projeto literário.
– O seu avô escreveu dezenas de peças de teatro e foi autor de vários programas de rádio, como os ‘Parodiantes de Lisboa’. É por ser neta de um escritor que diz ter sentido alguma inibição em mostrar ao mundo que também escreve?
Rita Ferro Rodrigues –
Acho que não. Gosto muito de ler e sempre gostei de escrever, mas tenho tanta admiração e respeito pelos verdadeiros escritores que talvez seja esse o motivo da minha inibição, além de um certo receio pela exposição, porque não sei ficcionar. Só sei escrever sobre as minhas vivências e essa partilha, às vezes, é um bocadinho dolorosa. É preciso maturar as coisas. Agora estou numa fase da minha vida em que já sou mais crescida e em que acho que a partilha faz todo o sentido: a partilha das coisas que se passam na nossa vida e que são boas, que nos enternecem, que nos dão força para continuar; e também a partilha das coisas menos boas, das perdas, das ausências, da morte, que é um assunto que nos toca a todos e que eu tenho muita dificuldade em digerir. Portanto, eu escrevo por necessidade. É uma forma de guardar as pessoas dentro de mim e imortalizá-las, de certa forma, em algumas palavras.
– “A morte não nos rouba os sonhos, muito menos nos pode levar o amor”, diz no seu livro...
É uma das coisas em que acredito profundamente. Acho que não há morte que supere o amor de uma mãe por um filho, de uma neta por um avô. E por mais que nos custe imenso lidar com a saudade das pessoas que não estão cá, aprendi que a morte é apenas não sermos vistos. Ainda me custa, mas consegui encontrar conforto sentindo a presença de algumas pessoas que já não estão na minha vida com muita intensidade todos os dias. Isso é um exercício que requer alguma coragem, mas, quando o conseguimos, traz-nos muito conforto. As pessoas só morrem quando nós as esquecemos e eu faço muita questão de as lembrar. A escrita também é isso: é lembrar. O meu avô, em particular, é uma pessoa que irei homenagear para o resto da vida. A escrita era algo que nos unia muito. Tínhamos o sonho de escrever um livro juntos. Já o tínhamos iniciado, mas, infelizmente, não conseguimos cumprir esse sonho com ele em vida. Não está cá para o ler, mas acredito que é um sonho que está a ser cumprido pelos dois.
– Quem foi a primeira pessoa a quem deu a ler este livro?
O Rúben. Ele acompanhou o processo desde o início pois fui-lhe mostrando alguns textos. Para conseguir escrever é preciso alguma paz e, com crianças em casa, é muito difícil. É preciso ter um companheiro à altura, que diz: ‘Bom, meninos, agora a mãe precisa de escrever’.
– Tal como a sua avó fazia quando o seu avô precisava de escrever...
Exatamente. Isso foi um processo muito bonito enquanto casal: podermos partilhar esse meu mundo interior, que ele soube sempre respeitar e motivar. Isso é fundamental na relação de um casal.
– E a pergunta que se impõe: o que é, então, o amor?
Deve ser isto, não? É muito difícil definir o amor. Acho que estou lá perto, porque dou muita importância aos afetos, aos meus amigos e aos vários tipos de amor. Este livro fala disso. Falo do amor das mães, que acho que é o amor mais forte do mundo, é capaz de mover tudo e é a coisa mais bonita que existe. Falo do amor de uma mulher por um homem. Falo do amor de filha e do amor de neta. Penso que isso trará alguma identificação ao leitor, porque já partilhei alguns destes textos na minha página de Facebook e o feedback foi muito positivo. Foi isso que me fez escrever este livro. Percebi que faz bem às pessoas, que se identificam e encontram conforto nas suas perdas, ausências, saudades e amores. Isto levou-me a pensar que os livros deviam ser prescritos nas farmácias! Não acho que escreva particularmente bem. A minha escrita é simples e vem do coração, mas senti que havia uma identificação muito grande por parte das pessoas, talvez por ser uma mulher igual às outras, que ama, que sofre, que tem saudades...
– Diz, aliás, que escrever evita recorrer a consultas de psiquiatria?
Exatamente. Costumo dizer que corro e escrevo como formas de desabafo. Uma é física e outra é emocional. Desde muito pequenina que escrevia sobre as coisas que me tocavam, emocionavam, que me faziam rir, porque tinha necessidade de as eternizar, talvez para não as esquecer, mas também para as resolver. No processo de perda do meu avô, houve um período em que não consegui escrever. Estava completamente bloqueada. Quando comecei a escrever, passei a aceitar melhor a realidade de que ele já não estava fisicamente comigo e comecei a resolver melhor a minha dor. Portanto, faço-o por necessidade. Se pensar que alguém pode ler as minhas palavras e encontrar nelas algum conforto, fico maravilhada. Não há prémio melhor.
– Dedicou o livro aos seus três filhos: ‘dois de barriga e um que nasceu de mim’. Como é a sua relação com o Miguel, filho do Rúben?
O Miguel tem uma mãe fantástica, mas está na minha vida desde os dois anos e, para mim, é um filho. Sou uma companheirona e uma grande amiga que ele tem, e acho que é esse o nosso segredo. Temos uma relação muito bonita e é um orgulho ter o Miguel na minha vida. É um menino muito querido, muito educado, e é, de facto, um acréscimo de amor na minha vida.
– A Rita, ao contrário dos seus avós e dos seus pais, não tem uma família convencional...
Acho que agora as famílias tradicionais é que são estranhas! Os meus pais e os meus avós conservaram longos casamentos, coisa que não aconteceu comigo e com o pai da Leonor [o jornalista Daniel Cruzeiro]. Acho que o que é realmente importante é a relação afetiva que nós construímos com as pessoas que são importantes na nossa vida e que passam a ser importantes na vida dos nossos filhos. Eu tenho uma relação de grande amizade com o Daniel. Ele é um pai fantástico.
– E acabou por constituir um novo núcleo familiar...
Exato. Reconstruí a minha vida com o Rúben, com a Leonor e com o Miguel, que foram nossos padrinhos de casamento, para que percebessem que, antes de nascer o Eduardo, eles já eram o cimento da nossa relação. O mano não veio ocupar o espaço de nenhum deles, veio ocupar o seu próprio espaço, e é o miúdo mais mimado e amado do mundo pelos irmãos. É uma alegria vê-los juntos. É das coisas de que mais me orgulho na vida. Espero conseguir manter esta felicidade, porque é isso que me estrutura. Quando temos uma família bonita, em que as pessoas se amam e se respeitam, tudo pode correr mal à nossa volta, que nós sentimos que temos sempre ali a nossa ilha. Sou muito agarrada à família e aos amigos, porque acho que não levamos mais nada desta vida do que a relação que temos com os outros. É aquilo em que invisto mais. Muito mais até do que na profissão.

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