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Joaquim Grave: “O toiro é um profissional da fúria”

Rita Ferro conversou com o médico veterinário e ganadeiro Joaquim Grave na propriedade alentejana onde a família cria toiros de lide ou raça brava.

Rita Ferro
16 de junho de 2013, 17:00

Chama-se JoaquimManuel de Vasconcellos e Sá Grave e tem quatro filhas: Carolina Maria,Joana, Leonor Galeana e Sarah Anne, uma das quaisbaptizada com o nome da propriedade que está na família há três gerações – ummontado de azinho, na raia alentejana, com perto de mil hectares, onde adinastia de ganadeiros a que pertence, com o ferro Murteira Grave, cria toiros delide ou raça brava: Galeana. Por aqui já se pode ver a paixão por uma terra quelhes foi ocupada e cuja devolução em 1979 lhes mereceu a edificação da ermida àporta de casa. Conversámos sobre o seu amor aos toiros e o modo como poderá serdistorcido pela militância antitaurina. Não se trata de um marialva ou de umtradicionalista acéfalo, mas de um médico veterinário doutorado em produçãoanimal, senhor de uma cultura vasta e com obra publicada, que conhece os toiroscomo ninguém. Depois de uma memorável sopa alentejana, mostrou-nos os doisserviços que a casa oferece: o turismo rural e o turismo taurino.
– Diz-nos que a luta contra os toiros não é uma luta ecológica...
Joaquim Grave – As ganadarias são autênticas reservas ecológicas. Existeuma contradição absoluta entre defesa dos animais e defesa ecológica. Preservara espécie dos toiros de lide é, por definição, defender a lide dos toiros. Oecologista consequente não pode deixar de ser um defensor da corrida de toiros.
– Retive duas palavras enquanto conversávamos: ‘animalismo’ e‘antropomorfismo’...
– Animalismo é uma corrente de opinião que defende o animal de uma formafundamentalista. Antropomorfismo é a teoria que extrapola para os animais ossentimentos humanos. Formalmente, o animal não existe. O que existe sãoespé­cies de seres vivos. Daqui resulta a ética tauromáquica, uma éticaaristotélica. O princípio é o seguinte: para cada ser, o seu bem supremo podenão ser um estado passivo, pode residir numa actividade pela qual actualiza assuas potencialidades e cumpre a sua própria essência. É exactamente o que faz otoiro: sendo um ser por natureza bravo, lutador, realiza o seu grande bemlutando e realiza-se plenamente na corrida. Confunde-se animalismo com ecologiae, no entanto, um é o oposto do outro. Não se pode ao mesmo tempo salvar aespécie leopardo e estar preocupado com o sofrimento das gazelas. Há queescolher: ecologia ou animalismo. O animalismo não é uma extensão dos valoreshumanistas, é a sua negação.
– Percebi que reage mal às acusações de ‘tortura’...
– Existe tortura quando alguém, numa posição de completa segurança, castiga umser indefeso, por sadismo ou para obter uma confissão. Francamente, não vejocomo possa existir tortura na corrida de toiros, quando o ‘torturador’ pode serferido ou mesmo morto pelo ‘torturado’! Recorrer à palavra tortura para agravaro suposto mau trato ao toiro, com o intuito de impactar na imaginação daspessoas, parece-me, no mínimo, um autêntico insulto a todos os torturados domundo.
– Como define o toureio?
– O toureio é a arte mais clássica: supõe elegância, harmonia de movimentos,perfeição de formas. O toureio cria formas, obras humanas a partir do caos,isto é a acometida natural de um toiro. O toureiro imóvel põe, com um só gesto,ordem onde não havia mais que desordem e movimento. A harmonia dos contrários éo princípio estético fundamental na beleza do toureio. O toureio acrescentaainda uma dimensão que nenhuma outra arte poderá alguma vez dar: a dimensão darealidade. Tudo está representado como no teatro e, no entanto, tudo é verdadecomo na vida. Orson Welles disse: “o toureiro é um actor ao qual lheacontecem coisas de verdade!” Não é uma festa de perfeições, mas deemoções. Será esta verdade que a nossa época e civilização rejeita? Aquela quesó ama a natureza assépti­ca e só aceita a realidade na condição que estejadesinfectada? A mesma que afirma amar a juventude sempre que seja eterna?
– Não sei. Talvez rejeitem a ideia de que a arte possa servir de álibi paraum espectáculo de sangue...
– Os antitaurinos não têm o monopólio da sensibilidade e dos bonssentimentos. Nenhum aficionado tem prazer em ver sofrer um animal. Naactualidade prolifera uma moda oportunista, vagamente naturalista, vagamente‘verde’, vagamente ‘vitimista’ e sobretudo completamente ignorante, quer danatureza animal, quer da realidade das corridas de toiros. Mas uma coisa éextrair as consequências pessoais da própria sensibilidade e outra muitodiferente é fazer dessa sensibilidade um standard absoluto e considerar aspróprias convicções como o critério da verdade. Essa é a definição deintolerância; e em tons fascistas. Do mesmo modo, uma coisa é proibir-se a simesmo de ir às praças de toiros e outra, muito diferente, é querer proibir oacesso aos outros. Esta realidade resulta de uma perda de contacto com osanimais e com a natureza real e é consequência de uma ideologia urbana que enfermado síndroma de Walt Disney.
– Os toiros parecem assumir agora todo o protagonismo do sofrimentoanimal...
– O bem-estar animal pode e deve ser definido e conhecido de um modo científicopondo de parte envolvimentos e considerações morais. A dor é inevitável, osofrimento é opcional (Buda dixit). O sofrimento implica zonas maisprofundas do organismo e supõe uma consciência reflexiva que, naturalmente, oanimal não possui.
– Quais são então, na sua opinião, os grandes sofismas da militânciaantitaurina?
– Os animalistas defendem que como “todos somos animais”, devemos tratar osanimais como tratamos os homens. Enganam-se. É justamente porque o homem não éum animal como os demais que tem deveres para com eles e não ao contrário. Masestes deveres não podem, em nenhum caso, confundir-se com os deveres universaisde assistência, reciprocidade e justiça que temos para com os outros homens. Osanimais não têm direitos, o homem é que tem deveres para com os animais.
– Como é feita a selecção do toiro bravo?
– É feita sobre a sua bravura, que engloba vários rasgos de comportamento. Otoiro é um profissional da fúria. A sua fúria não é cega como a do homem, édirigida e, portanto, dirigível. A acometida primitiva foi evoluindo para o quehoje chamamos investida, que é como que uma acometida com regras. A acometida énatural, a investida é cultural.
– Explique-nos agora como é o seu ‘turis­mo taurino’...
– O turismo taurino é uma aposta a todos os níveis fascinante! As pessoaschegam a meio da manhã à Galeana, é-lhes servido um aperitivo de boas-vindasenquanto explico onde estão, o que fazemos e como fazemos. Em seguida faz-se umrecorrido pela herdade onde, de muito perto mas com total segurança, se podemver as várias camadas de animais da ganadaria incluindo os toiros, ponto altoda visita. As manifestações de agrado são genuínas e intensas e também eudesfruto ao tentar passar a minha paixão por este autêntico milagre zootécnicoque é o toiro bravo. Depois serve-se um belo almoço num local emblemático daganadaria onde, relaxadamente, se prolongam animadas tertúlias.
– No meio desta guerra, com que filosofia acalma o coração?
– Julgo ter uma estrutura interior forte – o que não me impede de chorar – massimultaneamente inquieta. Procuro estar atento a tudo o que é belo e me rodeia.Quero ver a vida como um grande poema. Afinal de contas, sou um boémio deespírito. E, como boé­mio, quero “emborrachar-me” das emoções que a vida tempara me dar.
Nota: por vontade da autora, este texto não segue as regras do novo acordoortográfico

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