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Reynaldo Gianecchini: 40 anos de vida passados em revista

A CARAS publica em exclusivo excertos da biografia “Giane - Vida, Arte e Luta”, cujo lançamento vai trazer o popular ator brasileiro a Portugal no dia 28 de maio.

Redação CARAS
26 de maio de 2013, 10:00

Não é cancro. Não tenho perfil de quem tem cancro (...) Sou saudável, alegre, de bem com a vida. Não tenho isso não.” Foi desta forma que Reynaldo Gianecchini reagiu quando soube o resultado de uma biopsia aos gânglios: cancro no sistema linfático. Uma luta que começou em agosto de 2011 e só lhe deu tréguas em janeiro do ano seguinte, quando se submeteu a um transplante de medula. A seu lado nesta batalha esteve a mãe, Heloísa, e a atriz Cláudia Raia também não arredou pé.
Em Giane, Vida, Arte e Luta, biografia do popular ator que a CARAS apresenta em pré-publicação exclusiva para Portugal, mas fora desta resenha, o autor, Guilherme Fiuza, dá ainda a conhecer alguns momentos da infância de Gianecchini – que se estreou em Laços de Família ao lado de Vera Fisher –, a sua experiência como modelo, a loucura que viveu quando se separou da jornalista Marília Gabriela e a forma como lidou com a morte do pai, vítima de cancro, em outubro de 2011. Uma obra que é lançada em Portugal a 28 de maio, às 18h30, na FNAC do Colombo.
“Mãe, tenho cancro”
“Além da febre de 40 graus, tinham-lhe aparecido gânglios no pescoço. Devia ser uma infeção na garganta. No dia seguinte estavam na virilha. O problema percorria-lhe o corpo, e não cedia. Nem revelava a sua causa. Foi aconselhado a procurar um gastrenterologista, já que a virilha incomodava mais do que a garganta. Foi examinado pelo doutor Raul Cutait, que ditou o diagnóstico: hérnia inguinal. Era bom saber enfim o que tinha, mas não era muito bom saber a solução: não, não era possível tratar sem cirurgia. (...) Com a indicação de cirurgia da hérnia, o ator interrompeu os ensaios de Cruel e internou-se no Sírio-Libanês. Correu tudo bem e a alta veio em dois dias. Em mais dois dias, porém, a virilha voltou a inchar. Não tinha corrido tudo bem. E o pescoço agora também inchava, com os gânglios a aparecerem em vários pontos e em maior quantidade. Aparentemente, ele operara uma hérnia que não era hérnia. (...)
As bactérias ou vírus que atacavam Gianecchini insistiam em não se acusar ao infetologista, apesar do variado repertório de exames. Partiram então para uma ressonância magnética, fotografia corporal completa. O resultado mostrou que os gânglios estavam por toda a parte. (...) A biopsia dos gânglios ficara pronta, e a notícia não era boa. Giane ouviu, desligou o telefone, levantou-se da cama e foi até à cozinha, onde Heloísa preparava o jantar. Não encontrou outra forma de lhe dizer: ‘Mãe, estou com cancro.’ Heloísa só desligou os bicos do fogão, pegou a bolsa e foi com o filho para o hospital. Em silêncio.
No caminho silencioso com Heloísa de casa para o hospital, entre desligar o telefonema com o médico e internar-se, Giane fizera uma limpeza na sua cabeça.
Uma página em branco
Instantaneamente, a bomba do cancro tinha transformado em pó os seus planos, o seu trabalho, a sua peça em cartaz, as suas convicções, a sua noção da vida e de si mesmo. Uma página em branco. (...) Não era como um tumor no pulmão, que se pode localizar, recortar e deitar fora. O endereço do seu cancro era da cabeça aos pés. A única ideia sensata que lhe aparecia naquele momento era acordar do pesadelo.
Reynaldo Gianecchini não só tinha cancro, como estava com o tipo mais raro e agressivo de linfoma – o não-Hodgkin T angioimunoblástico. Para os leigos e, principalmente, para o paciente, importava dizer que aquele tipo de linfoma só poderia ser atacado com transplante de medula. E rápido. (...) Giane acreditava profundamente nisso [que ia viver] ao entrar no centro cirúrgico, dia 17 de agosto, para a colocação do cateter por onde seria injetada a quimioterapia. Era o primeiro passo para o tratamento. Transmitiu o seu otimismo à mãe, para a tranquilizar. Eram nove da noite. Às onze, estaria de volta ao quarto.
À meia-noite, Heloísa ainda não reencontrara o filho. À uma da manhã, perguntou às enfermeiras o que estava a acontecer, porque a cirurgia já durava o dobro do tempo previsto. Às três, com a total falta de notícias, o seu coração disparou. Na mesa de cirurgia, o coração de Giane parou. (...)
Vida em suspenso
Um aparelho respirava por ele, porque a hemorragia alcançara o pulmão. Internado por causa de um cancro, parecia estar na UCI por ter sido atropelado por um camião. (...) Menos de uma semana depois de estar com a vida por um fio, Gianecchini dirigia-se ao 8.º andar, bloco C, do Sírio-Libanês, para a sua primeira sessão de quimioterapia. Estavam em setembro de 2011 e o transplante de medula estava previsto para dezembro. Para sobreviver, Gianecchini precisava que a nova medula ‘pegasse’, isto é, fosse aceite pelo seu organismo.
Antes disso, ainda havia outra batalha. Ele só poderia fazer o transplante se o tratamento à base de quimioterapia funcionasse, matando as células cancerígenas na sua medula atual. (...) Em dezembro, estava de volta à UCI, respirando por aparelhos. Tinha febre alta e dessa vez os médicos não sabiam o que se passava com ele. Heloísa recebeu da Dra. Yana Novis a notícia que ninguém queria ouvir: o transplante do seu filho estava suspenso. (...) Estava feito o diagnóstico: Giane sofria de uma infeção pulmonar agressiva, causada por um parasita contraído décadas antes, nas suas andanças de menino pela fazenda da avó. (...) O combate à infeção rara levou um mês. (...)
A mãe entrava na etapa mais obscura daquela epopeia louca. Atravessando dias e noites num sofá, estirada na escuridão silenciosa, podia ao menos esconder do filho o seu medo inconfessável: matar uma medula para esperar por uma nova era um salto sem rede – e o risco de Giane ficar no meio do caminho, isto é, sem medula, apavorava-a.
Por um fio
Faltavam três dias para o início do prazo em que a medula deveria ‘pegar’. A semana de 21 a 27 de janeiro determinaria o futuro de Gianecchini. Mas antes de chegar lá ele foi derrubado novamente. Estava de volta à UCI, o quadro era grave, e agora não tinha medula para o defender. (...) Na fase crítica da operação, o paciente fora acometido de febre alta e falta de oxigénio, características de quadro infeccioso. (...) E naquele momento, sem medula e sem defesas, o seu organismo dificilmente resistiria.
A primeira bateria de antibióticos não fez efeito algum. A febre não cedeu um grau, a respiração continuou precária e o quadro permaneceu inalterado. (...) Gianecchini tinha os sintomas exatos de uma infeção pulmonar, mas o quadro também era compatível com uma síndrome raríssima, que o Dr. Vanderson conhecera nas suas pesquisas com pacientes do mundo inteiro. A síndrome da ‘pega da medula’, que vitima apenas cerca de dois por cento dos transplantados, era uma reação violenta do organismo causada pelo ataque das células boas, recém-chegadas, às células inflamadas. (...)
Totalmente recuperado da ‘síndrome da pega’, Giane acordou no dia 20 de janeiro sentindo-se estranho. Ficou por alguns instantes a tentar entender o que se passava com ele, até que matou a charada: estava forte.
Louco de amor
Dois dias depois, no meio de um trabalho, sentiu o cheiro de Marília Gabriela. Deu-se conta de que ela ficara presente nele de maneira especial. (...) Quando se despediu dela em Paris, sabia que o romance inesperado tinha tirado o seu coração do isolamento. (...) Tudo de estranho que acontecia com ele ultimamente era a indicação de um caminho muito claro: ele estava louco por aquela mulher, e tinha de viver com ela. (...) Estavam a viver o seu grande amor da melhor forma possível: a dois. (...) Lindo, famoso e mais de 20 anos mais jovem do que a sua mulher, Giane ganhava quase uma amante por mês nas centrais de mexerico.(...) A possibilidade de Gabi e Giane terem um casamento sólido e de estarem juntos apenas porque se amavam era uma ideia com a qual muita gente não se conformava.
(...) A relação tornara-se ainda mais absorvente com a parceria no palco. No final da temporada da peça, na qual a sua personagem era emocionalmente asfixiada pela de Gabi, Giane sentiu pela primeira vez sinais de asfixia no seu casamento. (...) Como em todas as relações mais longas, o íman do sexo já não era irresistível. Não fazia mal, também era bom amar-se sem fazer amor. (...)
Fim do casamento
Em outubro de 2006, num rali conjugal de muita argumentação e pouca compreensão, ela arrematou com o jogo da verdade: ‘Será que acabou?’ Quando ele pensou, já tinha respondido: ‘Acho que acabou.’ Menos de 24 horas depois, a notícia estava na televisão (...) Após um casamento de oito anos, Gabi e Giane decidiram a separação em minutos, na cozinha de casa.”

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