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Fernando de Figueiredo: “O poder não me atrai, gosto é de fazer”

Líder da Confraria dos Mestres Provadores (de vinho), Fernando de Figueiredo, actualmente ligado a um projecto turístico-imobiliário, protege e incentiva o culto dos amigos e da melhor gastronomia portuguesa.

Rita Ferro
22 de dezembro de 2012, 14:00

Fernando de Figueiredo, casado, nascido em Lisboa, é o ‘menino’ de uma confraria portuguesa, designação sui generis que o próprio se encarregará de explicar. Fez Estudos Sociais e a sua vida profissional, muito activa e diversificada, desdobrou-se entre o Ministério das Corporações, a actividade imobiliária e a administração de empresas do sector das telecomunicações. Durante cinco anos, assinou uma rubrica gastronómica mensal na revista Clássicos Modernos e actualmente lidera um projecto turístico-imobiliário no Alentejo, a escassos quilómetros do aeroporto de Beja. De então para cá, nunca descurou o culto dos amigos e da melhor gastronomia portuguesa. É um charmeur inato e os seus dotes de anfitrião são reconhecidos nos círculos mais exigentes. Recebeu-nos com um sorriso rasgado, na sua simpática casa do Ribatejo, e ofereceu-nos um tinto precioso enquanto respondeu às nossas perguntas sobre a Confraria que dirige há mais de 20 anos. Vamos conhecê-lo...
– O que é exactamente uma confraria?
Fernando Figueiredo – Uma confraria é um conjunto de pessoas que se juntam à volta de interesses comuns, seja do vinho, da gastronomia ou doutros, e que tem como fim último a defesa, a entreajuda e a protecção desses interesses.
– E a vossa? Como se chama, quando começou e a que pretexto?
– A nossa confraria nasceu, não à volta de interesses comuns, mas a partir dum grupo de amigos, por assim dizer do banco da escola, que tinham em comum princípios, valores e ideias muito próximos. Alguns dos seus membros tinham e têm o campo, a vinha e o vinho no seu ADN. A Confraria dos Mestres Provadores
da Rua do Conde nasceu no dia 27 de Novembro de 1989, a pretexto dum convite que recebi para uma exposição de tapetes orientais nessa mesma rua. Se o chão onde a exposição se realizou era coberto de lindíssimos tapetes, as paredes eram literalmente preenchidas com estantes repletas de garrafas de óptimos vinhos portugueses. Foi o proprietário daquela garrafeira, reconhecido connaisseur, que me convidou para um jantar, ali mesmo, quando acabasse a exposição. O convite era extensivo a amigos meus que fossem verdadeiros apreciadores de vinho e naturalmente gastrónomos exigentes. Afinal havia uma cozinha, escondida da vista dos mais curiosos, e sobretudo um grande cozinheiro. Por isso anuí, e, no dia aprazado, lá nos apresentámos para o dito, bendito jantar. Fomos 12 a sentarmo-nos numa mesa sobre um bonito tapete persa.
– Reparei que têm um emblema, uma espécie de brasão – qual a simbologia dos elementos?
– Não há clube, seja qual for a sua origem, que não crie e exiba o seu emblema ou brasão, mais ou menos explícito. O nosso é duma grande simplicidade e simbolismo, representa a cena que vivemos no primeiro jantar. A coroa que encima o mesmo é a coroa de conde, pelo facto de termos nascido na Rua do Conde. A perdiz de perna traçada, com um copo de vinho tinto na asa, representa o prato, perdiz à Convento de Alcântara, e o vinho, Barca Velha de 1966, que comemos e bebemos no primeiro jantar. Por baixo, a grinalda ‘Em flagrante delitro’ fecha o brasão. Brasão este que está gravado na tambuladeira que nos acompanha nos almoços.
– Por que razão chamam ‘menino’ ao presidente da Confraria? Alguma história relacionada?
– Os líderes das confrarias intitulam-se presidentes, chanceleres, grão-mestres ou outro título. Nós seguimos outros critérios. Quando resolvemos dar continuidade aos nossos encontros, estes passaram a ser almoços que se realizam há 23 anos na primeira quarta-feira de cada mês. A Confraria fez-se caminhando e, por isso, quando chegou a altura de distribuir funções, ficou combinado que eu assumiria a liderança. A nossa singularidade na maneira de estar resultou que, quando tivemos que dar nome àquele que iria presidir à Confraria, um confrade, o Manuel Capucho, alvitrou o título ‘O Menino’, por ir bem connosco. E assim ficou.
– Quer destacar alguns confrades?
– Quero destacar aqueles que contribuíram para a consolidação da Confraria. O esboço do brasão é da autoria do João Alarcão e foi fechado pelo Jaime Lança de Morais, que criou a grinalda; a Magna Carta, que define os princípios que nos regem desde a primeira hora, foi feita pelo José António Martinez; os Estatutos são da autoria do Luís Pires de Lima e o arquivo documental e fotográfico é da responsabilidade do Ruy Villas-Boas. Com o Jaime Lança de Morais e o José António Martinez partilho a direcção da Confraria. Ao Zé Tó, aqui lhe presto a mais leal e amiga homenagem pelo que fez e faz em prol da Confraria, com a sua inteligência.
– Entendi que entre eles há também os ‘confrades regionais’...
– Os Confrades Regionais representam as Regiões Vinhateiras e estão, obviamente, incluídos nos 32 que constituem a Confraria.
– São sempre os mesmos ou convidam novos elementos?
– A Confraria também aqui é sui generis: não tem sede, não tem quotas nem jóia, e reunimo-nos num almoço mensal no local que o anfitrião determina. Até isso é apreciado, se quiser, do ponto de vista de gestão de recursos, que não temos.
– Onde se reúnem habitualmente?
– Embora sejamos 32, os almoços têm um quorum médio de 20/22 confrades, sendo permitido ao anfitrião, por estatuto, convidar um ou dois amigos, o que traz sempre uma interessante mais-valia aos nossos almoços, saindo sempre os con­vidados com vontade de voltar, como manifestam nas palavras de agradecimento, ou até com o desejo de a ela pertencer.
– Foi eleito? Por quanto tempo?
– Fui nomeado pelos confrades e por tempo indeterminado. Estou à frente da Confraria há 23 anos, naturalmente com falhas, mas com um saldo muito positivo. Mas, minha amiga, face à sua curiosidade, dir-lhe-ei que estou sempre pronto, e os confrades sabem disso, para me sentar como os demais sem ter a preocupação de presidir, calendarizar os almoços ou organizar viagens. O poder não me atrai, eu gosto é de fazer. Gosto demasiado do que me rodeia, de escrever, de ler; não tenho tempo para o poder.
– A vossa confraria é reservada unicamente a cavalheiros – algum motivo para esta discriminação insultuosa? [risos]
– A nossa Confraria, embora seja só de homens, não discrimina ninguém e muito menos as mulheres dos confrades, sendo elas, por direito, as confradesas. Estão presentes nos jantares de aniversário e, quando as viagens implicam estadia, participam em todos os actos, incluindo nas provas de vinhos. Por isso, minha amiga, somos uns gentlemen.
– Além do convívio entre um grupo de amigos seleccionado em torno de uma mesa bem guarnecida, que outros interesses pode ter uma confraria? De­fenda a sua dama...
– A nossa Confraria, ao longo dos seus 23 anos de vida, tem participado em eventos ligados ao vinho e à gastronomia, em Portugal e no estrangeiro. Estivemos presentes no Congresso Mundial das Confrarias, em 1998, e, durante a Expo, participamos em inúmeras provas de vinhos, de que destacaria as de Épernay, aquando da visita às Caves da Moet et Chandon. Alguns dos nossos confrades são grandes produtores e enólogos, contribuindo com a sua sabedoria e competência para a notoriedade do vinho português, especialmente no estrangeiro, bem como para enriquecer o conhecimento dos nossos confrades.
– Que aprendeu com a Confraria?
– A Confraria e os seus confrades apren­deram, ao longo destes 23 anos, a amar o vinho, não só pelo prazer de o beber, mas pelo respeito que lhe merecem todos aqueles que trabalham a vinha desde aquele que sacha, vindima, pisa e prova, até ao investidor que acredita no negócio. Todos os anos estão sujeitos ao muito ou pouco sol, à chuva, à seca, às intempéries. São uns heróis. Aqui lhes presto a minha homenagem.
Nota: por vontade da autora, este texto não segue as regras do novo acordo ortográfico

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