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Ricardo Pais: Sobe o pano e entra em cena o seu lado mais intimista

Muito terá ficado por contar mas o encenador, de 67 anos, tentou resumir numa hora e meia de conversa alguns momentos mais marcantes da sua vida. Falou da infância luxuosa, da passagem por um colégio interno e de Regina, a mulher que conheceu no liceu e com quem está casado há 44 anos.

Cristiana Rodrigues
18 de novembro de 2012, 16:00

Tem quase 70 anos. Ninguém lhos dá, mas também “ninguém mos tira”, graceja Ricardo Pais assim que nos encontramos no Hotel Lisboa Plaza, onde fica sempre que vem a Lisboa, já que há 15 anos decidiu vender a casa que tinha a dois passos do Con­servatório, onde dava aulas, e do Palácio Foz, onde a mulher, Regina, trabalhava.“Lisboa é uma cidade onde perdemos tempo a fazer sistematicamente o que não devemos! É fantástica para reformados ricos, para quem não tem nada para fazer, para quem possa ter uma casa na Lapa...”, diz Ricardo Pais, que hoje vive entre Viseu e o Porto. Mas espreitemos o percurso daquele que é considerado um dos maiores ence­nadores da atualidade: nasceu em Maceira-Liz, onde teve uma infância luxuosa, passou por um colégio interno em Vila Nova de Ourém e foi em Viseu que completou o ensino secundário. Foi também ali que viu pela primeira vez Regina, a mulher com quem está casado há 44 anos, e de quem tem dois filhos, Nicolau, que estudou Bioquímica e hoje é músico, e Simão, de 28 anos, com mestrado em Psicologia mas a dar cartas na representação em Itália. Tem ainda três netas, Carlota, de dez anos, Rosa, de três, e Clara, de um ano e meio.
No seu percurso ainda tentou o Direito em Coimbra, terra natal da mãe. Não gostou e partiu para Londres, fugindo à tropa, já com o teatro no horizonte. Serviu às mesas e guiou turistas para conseguir tirar o curso de Encenador na Drama Centre, que Sean Connery ajudou a fundar. Regressou anos mais tarde a Portugal, já casado. Teve uma passagem fugaz pela di­reção do Teatro Nacional D. Maria, assumiu entre 1995 e 2000 o cargo de diretor do Teatro Nacional de São João, no Porto, onde regressou em 2002 e ficou até 2009. Do seu currículo fazem parte tantas peças que é difícil escolher destaques, por isso salientamos O Mercador de Veneza, a comédia “séria” de William Shakespeare que está em cena até dia 11 deste mês no Teatro Municipal de Almada.
Sem querer fazer muitos proje­tos, para 2013 tem já viagem marcada para a Rússia, onde estará ao lado de nomes como Emmanuel Demarcy-Mota, Bill T. Jones, William Forsythe, Mats Ek ou Robert Lepage, no Festival In­ternacional de Teatro Tchékhov, um dos mais importantes do mundo, com a peça Sombras – A nossa Tristeza É uma Imensa Alegria.
É com transparência que se segue esta conversa.
– Conte-nos como foram os anos em Maceira-Liz, o tal “microcosmos muito particular”?
Ricardo Pais –
Vivi lá até aos 11 anos. Era um bairro construí­do em absoluta autossuficiência, havia piscina, campos de ténis, a melhor assistência médica prestada em Portugal... Um universo verdadeiramente fabricado, que pertencia à Empresa de Cimentos de Leiria e que foi fundado em 1936 por Henrique Sommer, tio de António Champalimaud.
– Foi uma infância de luxo...
Tive uma infância fora deste mundo. Quando ia a Viseu, terra do meu pai, e via as crianças descal­ças, cujas mães não tinham sequer cinco tostões para medicamentos, nem queria acreditar...
– E nem deveria querer mudar-se para lá...
Pois não! E nem sequer era Viseu, era Torredeita, uma terreola rural, no sentido mais primitivo do termo. Os hábitos da Beira Alta interior são muito diferentes dos hábitos da beira-mar...
– Mas acabou por se adaptar...
Completamente. Quando os meus pais se separaram os filhos foram divididos. As minhas duas irmãs ficaram com a minha mãe em Lisboa, eu fui com o meu pai para Viseu e foi um grande choque. Conheci a terra a fundo e foi lá que conheci a minha mulher, eu tinha 16 anos, ela 15.
– Mas antes disso estudou num colégio interno...
Estive no colégio Fernão Lopes em Vila Nova de Ourém. Um internato pequeno para onde iam os incorrigíveis dos grandes colégios como o Nun’Álvares de Tomar e o de Cernache. Esses alunos eram enviados para serem recuperados porque o ambiente era de tal forma familiar que era impossível fazerem as malandrices que faziam. Não era o meu caso. Fui lá parar porque a mulher do diretor do colégio tinha ido a Maceira-Liz ter um bebé com a minha avó, que era parteira, e na altura que os meus pais se separaram convinha colocar os filhos num sítio onde não dessem muito trabalho...
– Imagino que tenha sido duro cortar laços com a família.
Sim, o mais difícil foi cortar laços com a minha mãe. Mas ela já seguira com a sua vida, tinha outros namoros. No colégio tinha uma fotografia dela na mesa de cabeceira. Não me valeu de muito...
– No seu caso, parece ter um casamento para a vida.
[risos] Conheci a Regina em Viseu, estávamos a fazer exames quando achei que ela estava a olhar para mim de forma especial.
– Foi ela que olhou para si de forma especial?
[risos] Não estava nada a olhar para mim, eu é que achei por causa da inclinação da cabeça...
– E casou-se cedo!
Nem eu imaginava que tal seria possível. [risos] Mas a nossa situação familiar era muito peculiar. A minha era traumática em muitos aspetos e a dela também.
– Foi um escape?
Não foi um escape porque entre nós havia atração mútua e gostávamos um do outro.
– Mas apressaram as coisas...
Havia graus de autoridade, de exercício psicanalítico do pai e da mãe, de um lado e do outro, que a nossa relação ajudava a resolver, portanto, tratámo-nos enquanto nos amávamos. Casámo-nos em Londres a 16 de maio de 1968. Parti para Inglaterra abandonando o curso de Direito, decidindo que me queria exilar, que não queria ficar pelos sítios mais marcados pela vida dos cafés de esquerda, dos militantes antifascistas, desertores e refratários como eu ao serviço militar. Queria ir para uma cidade mais arejada e queria também ir para as escolas inglesas...
– Não estou a vê-lo em Coimbra...
Cair em Coimbra no tempo em que eu caí, no meio de toda aquela ‘cinzentura’, foi dose. É talvez a pior cidade do mundo. Tinha uma relação forte com a cidade por ser a terra da minha mãe e por naquela altura ainda ter lá a minha bisavó materna, mas essa relação com a cidade destruiu-se completamente.
– Perdoe-me os juízos, mas também não o identifico com um curso de Direito...
[risos] Queria ser o Perry Mason, queria ir desvendar – ao contrário do Direito Processual português – os crimes aos olhos da audiência. Fascinavam-me duas coisas muito particulares, uma o desejo do espetáculo, outra, o gosto pela retórica...
– [Risos] E as suas ilusões foram completamente ao ar.
No primeiro ano nunca ouvimos falar de justiça, nunca fomos estimulados a ir a tribunal, a retórica da maioria dos grandes catedráticos, alguns dos quais tinham sido ministros da Justiça de Salazar, era lamentável. Depois decidi vir para Lisboa para terminar o curso e ainda fiz Direito Administrativo com Marcello Caetano, personagem que anos mais tarde, curiosamente, vim a retratar em Capitães de Abril. Ele era brilhante!
– Bem, voltemos a Londres...
Então, casei-me e vivemos sete anos sem ter filhos. Queria estudar representação, ser ator mas acabei, por influência de al­gumas pessoas que tinham visto a minha audição, a fazer o curso para encenador. E ainda bem que o fiz. Depois veio o 25 de Abril e regressámos a Portugal.
– E nasce o primeiro filho...
Estávamos nós em Albufeira quando decidimos que íamos ter um filho e isso concretizou-se. O Nicolau é um produto de abril, tem 37 anos. Foi assim que recomeçou a nossa vida neste país, onde comecei a encenar e a dirigir, ao mesmo tempo que dava aulas de Direção de Atores na escola de cinema do Conservatório Nacional.
– O segundo filho também foi assim tão programado?
Nada! Já estávamos a viver em Viseu quando sugeri à Regina que tivéssemos outro filho. Ela foi radicalmen­te contra, mas por acidente ficou grávida e tivemos então o Simão. Nas­ceu em Viseu e considera aquela terra a capital da Península Ibéri­ca. No entanto, vive em Itália, onde é ator.
– Foi um pai presente?
Mais com o Simão do que com o Nicolau. Em Viseu o ambiente é mais fácil de controlar. O Nicolau foi nascer a Londres para ter dupla nacionalidade mas quando ele tinha oito semanas viemos viver para Lisboa, uma cidade que tem um clima ótimo e uma luz lindíssima, mas onde se perde sistematicamente tempo a fazer o que não se quer. É fantástica para reformados ricos, para quem possa ter uma casa na Lapa...
– O que é que o faz correr?
Nada! Adorava não fazer nada...
– Portanto, gostava de ter uma casa na Lapa...
[risos] Não, neste momento a minha vida é entre Viseu e o Porto, onde vive o Nicolau, a minha nora e as minhas netas mais novas. A mais velha, fruto de uma relação que o Nicolau teve antes do casamento, vive em Lisboa e tento vê-la sempre que posso.
– Como avô, intromete-se na vida das suas netas?
Tento ser pouco intrusivo. A minha mulher é mais presente, mas se não as vejo dois dias seguidos fico logo com saudades.
– Na sua vida profissional parece ser mais racional, implacável. Consegue receber um não?
Quando me dizem ‘não’, é para sempre. Não volto a contar com essa pessoa.
– E já recebeu algum ‘não’ de um ator com quem gostasse muito de trabalhar?
Já! Há muitos anos, do João Reis. Ele não gostou do tom da assistente que na altura o convidou e a sorte foi que eu não registei que ele não tinha aceite, senão, teria perdido o ator da minha vida. É inequivocamente o melhor ator português da geração dele.
– Deixa coisas por dizer? Ou não tem papas na língua?
Tenho uma forma elaborada de me dirigir às pessoas com quem trabalho e tento ser o mais eloquen­te possível. Quando alguém faz alguma coisa mal, tento que corrija o erro. Mas acho que sim, às vezes deixo coisas por dizer!

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