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Maria Elisa Domingues: Tudo na minha vida foi decidido pelos afetos"

A jornalista partilhou com a CARAS como tem lidado com a perda da mãe, que morreu de cancro há dois meses, e quais os sonhos profissionais e pessoais que ainda quer realizar.

Marta Mesquita
28 de outubro de 2012, 14:00

Durante os últimos dois anos, Maria Elisa Domingues foi a cuidadora da mãe, Maria Elisete, que morreu há dois meses, com cancro da mama. Viver aos desafios constantes desta doença fê-la pesquisar, aprender e escrever o livro Amar e Cuidar, apresentado recentemente.
No meio desta fase mais difícil, a jornalista viveu também dias felizes ao lado do advogado norte-americano Sanford Hartman, com quem se casou a 4 de julho. Foi sobre a mulher que se tornou depois de ter convivido de perto com o cancro e dos sonhos que ainda quer realizar que a jornalista conversou com a CARAS.
– Neste livro que escreveu está mais presente a Maria Elisa jornalista ou a filha que cuidou permanentemente da mãe?
Maria Elisa
– Estão as duas. Já me perguntaram se isto era um trabalho catártico... Eu não o senti assim no momento em que o estava a escrever, mas sei que o facto de pensar que estava a fazer uma coisa útil e séria me ajudou a enfrentar a doença da minha mãe. Também não tenho dúvida de que o ter cuidado da minha mãe me tornou uma pessoa muito melhor.
– Como é que geriu estes dois anos, que foram praticamente dedicados à sua mãe, com a sua vida particular?
– Estes dois últimos anos foram totalmente dedicados à minha mãe. Mesmo quando ia aos Estados Unidos, não ficava lá mais do que uma sema­na. Passei a vida a cancelar viagens e devo à extrema compreensão do meu marido ter ultrapassado isso, porque não era fácil. Houve tanta coisa que deixei de fazer... Os dedos de uma mão sobram para contar as vezes em que fui jantar fora, porque ou não me apetecia ou então nem sequer tinha convites para tal, o que acontece a quase todos os cuidadores. As pessoas partem do princípio que não podemos sair de casa e não nos convidam. Ao longo destes dois anos, houve muitas pessoas que desapareceram da minha vida e outras que ficaram muito mais próximas. Estas situações de contacto com a doença grave são uma oportunidade para nos livrarmos de pessoas que não acrescentam nada à nossa humanidade e de nos aproximarmos de outras de grande afetividade e generosidade.
– A relação com a sua mãe mudou com este contacto tão próximo?
– Na essência talvez não tenha mudado assim tanto, mas na forma de expressão, sim. A relação física entre mim e a minha mãe passou a ser muito estreita. Passava horas ao lado dela, de mão dada, a ver televisão. Ela queria estar o mais perto possível da sua família. Quando já não se pode fazer mais nada, dá-se amor.
– Acompanhar de perto a doença da sua mãe preparou-a de alguma forma para a sua própria partida?
– Não, e ainda nem sequer comecei a minha fase de luto. Quando a medicina não tem mais nada a fazer, a família tem de aceitar e interiorizar aquilo que é o melhor para o doente. No último dia de vida da minha mãe, não saí de ao pé dela e nunca pensei que ela iria morrer. Pensava que seria mais uma crise e que iria sobreviver, apesar de os médicos me terem dito que não. Temos sempre esperança e é assim que deve ser até ao fim. A minha mãe partiu com muita serenidade, com os dois filhos ao lado. E isso também me dá serenidade.
– Já pensou como é que vai ser agora a sua vida?
– Ainda não... Sei que vou querer continuar a trabalhar. Gostava de continuar a escrever. Já tive duas ideias muito interessantes, uma é mais na linha de investigação jornalís­tica, a outra é um testemunho mais pessoal, num registo mais divertido.
– No meio deste período mais difícil da sua vida casou-se. Deve ter sido uma lufada de ar fresco...
– Sim, foi. O meu marido é um grande companheiro. Conheço outras pessoas que têm casamentos à distância e que resultam. Claro que não me posso dar ao luxo de ir aos Estados Unidos sempre que me apetece! O meu marido vem cá mais. Mas no futuro posso passar lá algumas temporadas a escrever.
Não pensa mudar-se para lá, viver a tempo inteiro com o seu marido?
– Não, porque é em Portugal que tenho a minha base de trabalho e é cá que estão o meu filho, a minha neta, que é maravilhosa, o meu irmão e os meus sobrinhos. Somos uma família pequena e temos necessidade de estar unidos.
– É indisfarçável o orgulho com que fala da sua neta, de quatro anos...
– Sou apaixonada pela minha neta, mas não é muito fácil ser avó, porque as coisas são como os pais querem e não como nós queremos. São os pais que não só definem as regras de educação como decidem quando estamos com os netos. Por isso, vou exercendo o meu papel de avó como vou podendo. A minha neta é o cúmulo da feminilidade! Ela é muito solar e é bastante agarrada a mim. É uma criança muito afetiva.
– ‘Amar e Cuidar’ tornou-se o seu lema de vida?
– Não cuidei tanto como deveria, e estou a falar do meu filho quando era pequeno. Comecei a trabalhar muito cedo e a ter uma carreira com alguma projeção. Penso que deveria ter estado mais tempo com ele... Mas esse é o drama de qualquer mãe que trabalhe. Amar, sim. Tudo na minha vida foi decidido pelos afetos.
– Este ano também saiu da RTP. Há alguma mágoa em relação a isso?
– Saí desgostosa. É uma pena que em Portugal tentem acabar com as carreiras assim. As jornalistas nor­te-americanas, por exemplo, não têm prazo de validade. Não se aproveitar a experiência de um jornalista é um erro crasso. Mas estou convencida de que vou voltar a fazer televisão. Há tantos canais por cabo e projetos interessantes... Adoro fazer televisão, um estúdio é o sítio onde me sinto melhor, mas quando faço outra coisa, também estou lá de corpo inteiro! As pessoas deixam de se lembrar de nós e cada vez mais é assim, mas não tenho medo de que se esqueçam de mim.
Não precisa de alimentar o seu ego com a fama?
– Não. Preciso muito de alimentar o ego, mas não é com a fama. É com o amor da minha família e o carinho dos meus amigos.
– Lida bem com o passar dos anos?
– Não gosto nada de envelhecer, não pelas marcas físicas, mas por perceber que já não tenho tanto tempo para viver. Gostava de ver a minha neta crescer, de estar muito tempo com o meu marido, que conheci há pouco tempo, de viajar muito... Não gosto de envelhecer, das modificações que o corpo vai acusando. Agora, até estou a pensar fazer dieta! Engordei, porque a minha mãe era muito gulosa e em minha casa havia sempre mui­tas coisas doces, era difícil para mim resistir. Agora comecei a ter cuidado com a alimentação e, embora não goste, vou ter mesmo de começar a fazer exercício.

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