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Diogo Navarro: Um olhar sobre o seu mundo de inspirações

Recentemente premiado pela Academia de Belas Artes da Rússia, o artista inaugura dia 16 de outubro, no Palácio da Ajuda, a exposição ‘Um Olhar Sobre o Palácio’, um dos pontos altos da sua carreira.

Pedro Amante
15 de outubro de 2012, 15:31

Na imponente sala D. João VI, em pleno Palácio Nacional da Ajuda, Diogo Navarro entrega-se à arte da criação. Com o som de um piano em fundo, alheado dos olhares que o rodeiam e perdendo a total noção do tempo, dá vida a uma das muitas telas que fazem parte da exposição Um Olhar Sobre o Palácio – O Atelier de um Artista. Durante várias semanas, Diogo fez deste espaço o seu atelier, explorando olhares e fontes de inspiração, deixando-se levar pelo legado histórico presente em cada recanto.
Nascido em Xinavane, em Moçambique, tinha cinco anos quando veio para Portugal e já nessa altura lhe reconheciam um talento especial para o desenho, um dom que foi desenvolvendo e aperfeiçoando. Aos 14 anos expôs os seus primeiros trabalhos e nunca mais parou. Hoje, com 39 anos, tem quadros espalhados por todo o mundo, tanto em embaixadas como em coleções particulares, e acaba de regressar da Rússia, onde venceu o primeiro prémio de um concurso internacional organizado pela Academia de Belas Artes daquele país.
Sob o olhar dos seus três filhos, Maria, de 12 anos, António, de dez, e Madalena de um, fruto do seu casamento com Patrícia Copetto, Diogo abre-nos um pouco do seu mundo e traça-nos o seu autorretrato.
– Criar é um ato solitário, mas desta vez fê-lo perante vários olhares...
Diogo Navarro – Passo muito tempo no meu espaço a criar e é através do meu trabalho que sinto o tempo. Aliás, o tempo só faz sentido quando termino uma obra. Esta experiência de pintar ao vivo fez-me perceber que quando estou a pintar tudo o que se passa à volta se torna banal, alheio-me de tudo.
– Começa e acaba um quadro num ato contínuo?
A vontade é sempre essa. Quando pinto tiro o relógio para não pensar no tempo. Muitas vezes começo a pintar à noite e quando saio do atelier já amanheceu, mas isso é levar ao limite a minha energia.
– Há quadros que ficam por acabar?
Há quadros que ficam parados uma semana, um mês ou um ano, quadros que não estão a dar-me prazer, que, por qualquer razão, não estão a desafiar-me.
– Fica esgotado ao terminar um quadro?
Sim, mas é um esgotamento que me dá muito prazer. No entanto, ultrapassar os limites da capacidade de criar pode fazer-nos perder a lucidez e estragar um quadro.
– Como se descreve enquanto pintor?
É difícil, porque sou um pouco eclético. Sou uma multiplicidade de fontes. Talvez por ter nascido em África e ter vindo com cinco anos para Portugal... Talvez essa rutura tenha criado em mim uma nova forma de ver as coisas, de ver a natureza. Também tenho raízes no Minho, em Viana do Castelo, e aí fui buscar a parte mais emocional do meu trabalho, a parte da cor, da música, da alegria, do mar. Todos nós temos várias facetas e a pintura permite-me viajar por universos e sensações que me enriquecem enquanto homem.
– Herdou este talento de algum familiar?
O meu pai tinha uma mão muito boa para desenhar. Morreu muito cedo, tinha eu 16 anos, mas sempre teve muito orgulho nos meus desenhos. O papel de um pai é orientar os filhos para a vida e eu, sendo pai, também tenho a noção de que o mundo das artes é, por vezes, um pouco subjetivo, mas não menos importante, pois dá-nos equilíbrio.
– Vem de uma família muito tradicional.
Sou resultado de dois mundos muito diferentes. Neste palácio há retratos do meu tetravô materno, o rei D. João VI. Tenho muito orgulho da minha família materna, mas nunca quis usar isso em proveito do meu trabalho. A minha família apoiou-me sempre.
– Já voltou a Moçambique?
Sim, cerca de 20 anos depois. Senti que tinha parado no tempo, a essência era a mesma, as pessoas, a luz, o calor. Reencontrei o meu espaço.
– Reconhece em algum dos seus filhos o mesmo talento para as artes plásticas?
São os três completamente diferentes e cada um vai encontrar-se e saber o que quer fazer. Talvez o António seja o que se interessa mais pelo lado estético das coisas.
– São críticos em relação ao seu trabalho?
Normalmente são simpáticos, o que é chato. [Risos]
– E a sua mulher? Tem uma opinião re­levante em relação aos seus quadros?
Claro, mas quando lhe peço uma opinião já sei o que ela vai dizer. [Risos] Faço-o quando não estou muito confiante. Normalmente é a primeira pessoa a ver os meus quadros e gosto do olhar dela, mais terrestre, mais real. Ter confiança e apoio da parte dela é muito importante para o meu equilíbrio.
– É difícil viver com o artista quando está em pleno processo de criação?
– Não é fácil, até porque  quando eles estão a dormir estou eu a trabalhar, porque gosto de trabalhar pela noite. Mas concilio bem o lado profissional com o lado pessoal, acordo é um pouco mais tarde. [Risos]
– É difícil separar-se de um quadro?
Não. Gosto de o contemplar antes da exposição, mas depois dou-lhe continuidade com outros. É importante que a obra faça o seu próprio caminho, que vá para o espaço de alguém que a admire.
– Consegue eleger um?
– Não. Os quadros são aquilo que marca a evolução do meu tempo. Claro que pode ter havido um quadro feito em determinada altura da minha vida que tenha um certo simbolismo, mas o que dá equilíbrio ao meu trabalho é a própria mudança. Ao escolher só um quadro estaria a focar-me numa determinada época e eu sou feito de várias épocas e momentos. 
– O quadro perfeito ainda está por criar?
Se calhar até já fiz o quadro perfeito, mas acho sempre que vai ser o próximo.
– Há algum sítio onde sonhasse expor?
Talvez aqui, no Palácio da Ajuda. Lem­bro-me que sempre que atravessava a ponte este palácio nunca me passava despercebido, pela beleza da paisagem.
– Teme perder a inspiração?
A inspiração é a nossa vida, o nosso mundo.

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