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Luiza Bobone: “A vida é um jogo que recomeça todos os dias”

Luiza Bobone conversa com Rita Ferro a propósito do livro ‘Marca d’África’, onde conta a experiência fantástica que viveu em Moçambique quando o marido foi dirigir uma plantação de palmares.

Rita Ferro
23 de setembro de 2012, 14:00

Luiza Roque de Pinho Pinto Basto Bobone, viúva, com 4 filhos e 11 netos, descendente directa de José Ferreira Pinto Basto – fundador em 1824 da Fábrica de Porcelanas da Vista Alegre – é uma senhora lisboeta da melhor sociedade que se aventura na arte de escrever para, em boa hora, partilhar com a família e o público as alegrias e os perigos da sua experiência africana. Com efeito, nos anos 50, depois de conhecer o marido e se casar com ele, a sua vida sofrerá uma modificação profunda. João Bobone, filho dos condes de Bobone, é convidado a dirigir uma plantação de palmares em Moçambique, o que a leva a transitar de um dia-a-dia sem sobressaltos, na Lapa, para uma vida de risco no fim do mun­do da Zambézia profunda, enfrentando feras, febres, emboscadas e tempestades, primeiro com um e no fim já com quatro filhos pequenos. Em 1975, lavrado o então designado como Despacho 24/20 – 24 horas para sair do país, com o máximo de 20 quilos de bagagem – vive o seu próprio out of Africa.  É desta experiência fantástica que surge o livro Marca d’África (editora Tenacitas), que, na opinião de Jaime Nogueira Pinto, que o apresentou,  é um testemunho e uma memória do Moçambique dos anos 60, e, portanto, parte da nossa História. Luiza Bobone, nome com que assina o livro, recebeu-nos com alegria e optimismo na sua casa de família, nos arredores de Lisboa, a mesma onde se diz que Junot assinou a rendição e por onde passaram figuras notáveis da realeza, da política, do capital e da sociedade portuguesa e internacional: no livro de honra encontrámos, não sem surpresa, a assinatura dos príncipes Rainier e Grace do Mónaco, bem como a dos príncipes Carolina e Alberto, ainda com as suas letras de infância.
Rita Ferro – Como foi a primeira experiência literária?
Luiza Bobone – Única, embora ajudada pelas cartas que escrevi à família e aos amigos ao longo dos 20 anos que vivi em Moçambique, descrevendo um mundo e uma forma de vida tão diferentes dos que estava habituada.
– Estava ciente das dificuldades que a esperavam?
– Nem por sombras! Tinham-me mostrado fotografias de Quelimane que me deixaram aterrada,  pois se Quelimane era assim, como seria o mato para onde eu ia? Mas sempre tive espírito de aventura, o que muito me ajudou.
– Esteve em duas plantações diferentes...
– Nos dois primeiros anos morámos na plantação de chá (pertencente à Sena Sugar, a gran­de empresa açucareira de Moçambique), num planalto junto à fronteira com o Nyasaland, hoje o Malawi, tendo a proximidade com este país contribuído muito para uma melhor qualidade de vida, apesar de a nossa casa, situada no meio da floresta, ser constantemente visitada por leopardos e hienas que por ali se passeavam livremente durante a noite. Era uma enorme extensão formada por jardins de buxos a perder de vista, de enorme beleza, um quadro vivo com vários tons de verde. Mais tarde fomos viver junto à costa, bem perto do oceano Índico, no segundo maior palmar do mundo, com um milhão e quinhentas mil palmeiras, sempre rodeadas de canais por onde era enviada a produção da copra rumo ao porto de Quelimane, para ser embarcada para a Europa.
– Como funcionavam as plantações?
– Estavam divididas em várias estações onde havia, além da casa do empregado que ali morava com a família, um pátio onde se descascavam os cocos, uma estufa para secar a copra e o acampamento do pessoal africano.  Os chefes reuniam-se periodicamente com o inspector agrícola para dar conta dos trabalhos em curso e da colheita dos cocos. O relacionamento entre patrão e empregados era excelente, vivia-se numa espécie de regime de internato em que a Companhia fornecia tudo, desde a roupa à alimentação e aos cuidados médicos.
– Apesar dos privilégios da posição do seu marido, que dificuldades encontrou?
– O que mais me custou foi o isolamento. Milange ficava mesmo no fim do mundo e eu tinha saudades da família. Não havia telefone, não havia lojas, as cartas só chegavam uma vez por semana! Os dias eram muito compridos, pois começava-se a vida de manhã bem cedo por causa do calor, e escurecia também muito cedo e de repente, sem lusco-fusco, é assim nos trópicos. O calor e a humidade eram permanentes. De início fui devorada pelos mosquitos, eram nuvens deles, explicaram-me
que eles reconheciam o sangue novo! Gra­dualmente fui-me integrando...
– Qual a relação do príncipe do Mónaco com a Madal, a empresa agro-industrial de Quelimane?
– O príncipe Alberto do Mónaco, bisavô dos actuais príncipes, no início do século XX, na chamada Belle Époque, porque era considerado de bom tom ter uma propriedade em África, tornou-se sócio da empresa. Nessa altura chamava-se Société du Madal e tinha a sua sede no Mónaco. A família Grimaldi foi-se mantendo na sociedade, mas mais tarde venderam a posição.
– Há, no livro, uma carta singularíssima do príncipe Luís, pai do príncipe Rainier, para o pai do seu marido, na altura cônsul do Mónaco em Portugal, pedindo que lhe envie certos itens difíceis de encontrar nessa altura, no principado. Quer explicar as circunstâncias?
– Devido às grandes privações criadas durante a Segunda Guerra Mundial, faltava no principado toda a espécie de bens essenciais. Nesta carta, o príncipe pede linhas de coser, leite, café, chá e até cigarros. A situação era tão grave que a própria família reinante se via obrigada a usar os cigarros como moeda de troca de certos géneros alimentícios.
– Há outra carta histórica no livro, enviada pelo seu marido a um irmão, que narra o primeiro encontro dele com a Frelimo...
– A entrada da Frelimo na plantação da Chá Madal foi marcante. A carta a que se refere descreve bem o espírito agressivo e ameaçador daqueles combatentes, armados com bazucas, metralhadoras e pistolas que apontavam a toda a gente, e que pareciam querer arrasar tudo. E de facto conseguiram, se era este o objectivo, pois a plantação da Chá Madal voltou ao estado de selva, uma selva densa de milhares de hectares improdutivos e sem nenhuma planta de chá. Acredito que um dia, talvez mais cedo do que pensamos, possa voltar a ser o que era e contribua para o desenvolvimento do grande país que é Moçambique.
– Jorge Jardim era um homem raro, corajoso e notável, que se demonstrou muito vosso amigo...
– Era um apaixonado por Moçambique  e tinha toda a informação do que se estava a passar no que respeitava à sua independência como território. Deu-nos por isso boas pistas no que respeita à defesa das populações e à organização da empresa relativamente à instalação de normas de segurança. Foi sempre um óptimo amigo e um patriota de mão cheia, pena é que não o tenham querido apoiar na sua visão de autonomia que estava a preparar para Moçambique, pois decerto que teria sido bem melhor para todos.
– Como vê a descolonização que se seguiu?
– Lamentável e feita em cima do joelho de quem já tinha tudo resolvido. Mais uma vez se pode dizer que a libertação do povo nunca teve nada a ver com a sua liberdade.
– Qual a coisa mais importante que África lhe ensinou?
– Ensinou-me que a vida é um jogo que se recomeça todos os dias; ou então como um livro, em que cada página tem o seu quê de maravilhoso e de belo. Talvez por isso tenha resolvido contar a minha história africana, que considero como o meu tesouro.

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