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Raúl Penaguião: “Entusiasma-me a beleza das ideias matemáticas”

Rita Ferro conversa com o jovem Raúl Penaguião, de 18 anos, vencedor de inúmeras medalhas em olimpíadas nacionais e internacionais de Matemática, que recebeu a CARAS na casa de família, em Sintra, na companhia da avó, Isabel Queiroz do Vale, do irmão Francisco e da mãe, Ana Queiroz do Vale.

Rita Ferro
9 de setembro de 2012, 16:00

Raúl Queiroz do Vale Pena­guião tem 18 anos, nasceu em Lisboa e é exemplo de excelência das novas gerações que constituem o futuro de Portugal numa disciplina mal-amada pelos estudantes portugueses, contrariando o mito teimosamente arreigado de que a Matemática é matéria que transcende a compreensão média dos alunos. Estudante normal do 12º ano de uma escola pública de Sintra, já foi galardoado com a Medalha de Ouro das XXIX Olimpíadas Nacionais de Matemáticas de Braga (2011), a Medalha de Bronze nas Olimpíadas Internacionais  de Matemática de Amesterdão (2011) e a Medalha de Prata nas Olimpíadas Ibero-Americanas de Matemática da Costa Rica (2011), tendo sido também reconhecido pelo Município de Sintra, onde reside, com a atribuição da Medalha de Mérito Municipal – grau prata. Mas o interessante nele é que nada o distingue dos amigos do seu grupo – faz desporto, namora, ouve música da sua geração e vai a discotecas – a não ser a descoberta feliz e pessoal de uma forma de chegar ao raciocínio lógico e abstracto da matemática que, no seu étimo grego literal, significa apenas “apreciador do conhecimento”. Sozinho e fascinado pelos números, tem procurado padrões e formulado conjecturas capazes de estabelecer novos resultados, os quais, mais breve do que imaginamos, talvez se imponham ao respeito e admiração da comunidade científica internacional. Recebeu-nos com toda a naturalidade na sua casa de família onde, através das fotografias, muitos dos leitores reconhecerão uma outra figura também ela pioneira no seu ofício: Isabel Queiroz do Vale, sua avó.
– Raúl, consegues dizer de uma forma clara como chegaste à Matemática e a simplificaste na tua cabeça?
– Segundo os meus pais, tudo começou comigo a contar de trás para a frente, só por divertimento, ainda em pequenino. A partir daí, com a motivação da minha família fui criando um gosto por tentar fazer sempre mais qualquer coisa. Com essa prática, tudo ficou mais simples: era autodidacta, resolvia exercícios escolares sempre o mais avançados possível. Culminou quando comecei a participar no projecto Delfos, dinamizado por professores de Matemática, na universidade de Coimbra.
– E que erros cometerá quem a ensina?
– Para um aluno se dispor a ler e a aprender sobre Matemática, e a desenvolver um espírito crítico e criativo nessa área, é preciso motivá-lo. Não diria que é um erro dos professores, mas tenho a certeza de que deve ser por aí que se ensinam as crianças.
– Dois mais dois poderão não ser quatro?
– Esse é o exemplo típico da liberdade de pensamento na Matemática! É natural que, com a noção intuitiva que temos da operação soma, dois mais dois devem sempre ser quatro. No entanto, numa novela de George Orwell, 1984, Winston afirma que 2+2=5, contrariando a nossa tese. O que se passa é o seguinte: eu garanto que 2+2=4, mas convido toda a gente a reflectir porquê e a não o aceitar como uma verdade simplesmente. Este tipo de pensamento de detectar com clareza o que queremos demonstrar, e então demonstrar com rigor, já remonta de Euclides na Grécia antiga, e é tão importante na Matemática hoje em dia o que eu costumo chamar “a praia dos matemáticos”.
– E como a ensinarias tu?
– Se tivesse alunos a meu cargo, tentaria ajudá-los a descobrir por eles próprios as coisas da Matemática. Por exemplo: deduzir a fórmula resolvente do segundo grau, provar o Teorema de Pitágoras. É claro que pode parecer complicado para alunos do secundário, mas prefiro seguir a via da exigência, em oposição à simplificação do programa escolar. Desta forma teria a garantia de que todos os meus alunos estariam a trabalhar ao seu mais alto nível, pois só assim poderíamos vencer o “bicho de 7 cabeças”.
– A inteligência é vocacionada, que indicação faltará a quem lhe é adverso?
– Não acho que seja vocacionada, antes trabalhada. A maneira de uma pessoa pensar é construída por volta dos 3, 4 anos, através de estímulos à curiosidade, e é por essa altura que as crianças se interessam. Com o interesse vem o trabalho autónomo, e é aí que se destacam os desportistas, os alpinistas, os campistas, etc. A Matemática também se treina e, com os estímulos correctos, leva ao sucesso.
– Que figuras te serviram e servem de inspiração? Porquê?
– Há dois tipos de pessoas que me inspiraram. Existem grandes matemáticos cuja vida está repleta de trabalhos históricos, lembro-me agora de Évarist Galoir, que foi sempre um matemático incompreendido, chumbou duas vezes nos testes orais de admissão à universidade, sendo que na última delas se irritou com a incompreensão do instrutor e agrediu-o [risos]. Sem futuro no que mais gostava, a Matemática, acabou por morrer jovem, aos 20 anos, por se ter envolvido com a mulher de um famoso atirador da França. Este não hesitou em desafiar Galoir para um duelo. Na noite anterior ao duelo, Galoir dedicou-se à Matemática, ao invés de se dedicar à pistola que o mataria. Nessa noite, acabou por descobrir um dos resultados mais fantásticos actualmente estuda­dos, mas que só seria reconhecido uma década após a sua morte: ele descobriu que equações do quinto grau não podem ter uma equação resolvente como a fórmula resolvente do 2º grau!
Por outro lado, existem pessoas que conheci e me inspiraram. A primeira deverá ser, sem dúvida, um professor e amigo da universidade de Coimbra, Alexander Kovacec, que comanda o projecto Delfos. Também merece nota um amigo, Miguel Santos – foi graças a ele que Portugal arrecadou a primeira medalha de ouro em Olimpíadas Internacionais, em 2011.
– De todos os ramos possíveis da Matemática, qual o que mais te desafia?
– É difícil escolher. Depende do que estiver a estudar no momento. É o mesmo que perguntar se prefiro jogar futebol ou basquetebol: desde que me mexa, não me importo muito o que seja!
– E que sonho tens, dentro das suas múltiplas aplicações?
– Para já, a Matemática aplicada não me entusiasma muito, entusiasma-me a beleza das ideias matemáticas, pelo que quero seguir Matemática pura e investigação, e não tanto o quanto se relaciona com a realidade, pois nesse relacionamento perde-se muito: já dizia Albert Einstein, “Se as leis da Matemática se referem à realidade, elas não estão correctas; e, se estiverem correctas, não se referem à realidade”.
– Que investigas neste momento e com que fim?
– Neste momento, a cargo de uma bolsa da Fundação Gul­benkian, estou a trabalhar no algoritmo de colocação de estudantes em universidades, de acordo com as preferências dos estudantes e as suas médias de entrada em cada universidade.
– Mas que grande poder [risos]! E uma pergunta mais simples: que gostarias de fazer ou com quem gostarias de trabalhar, uma vez formado?
– Qualquer dos meus amigos é um bom colega de trabalho. Felizmente, nesta área do saber, torna-se muito fácil trabalhar em equipa. Basta trocar ideias e noções para as soluções começarem a florescer. Hoje em dia, grande parte da Matemática funciona dessa maneira: matemáticos profissionais preferem juntar-se e trabalhar juntos, porque dessa forma obtêm mais resultados. Eu também gosto, é sempre um prazer partilhar esforços com qualquer outra pessoa!
– Queres ir para fora ou o teu desafio é ainda aqui?
– Muita gente me aconselha a ir estudar para fora, mesmo colegas meus que também tiveram boas marcas em olimpíadas da Matemática. Parece que é o futuro, e seria uma experiência interessante.
– Aspiras a uma carreira académica?
– Gostava de continuar numa universidade, e chegar mesmo a trabalhar em Matemática Pura.
– Sendo a Matemática uma linguagem alternativa, consegues dizer que és feliz através de uma fórmula matemática?
– Bem, já que é para dizer o que sinto, cá vai: Ln(Cos(x)+i Sen(x))=i x.
Nota: por vontade da autora, este texto não segue as regras do novo acordo ortográfico

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