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Ana Rocha fala da vida em Londres: “Ser emigrante é ficar suspenso no ar”

Ana Rocha, de 33 anos, está em Londres a estudar Realização e Cinema e veio a Portugal passar as férias de verão. A atriz e realizadora desfrutou do bom clima e aproveitou para matar as saudades da família e dos amigos, que diz ser o mais difícil de suportar.

Inês Mestre
8 de setembro de 2012, 14:00

Ana Rocha está a estudar Realização e Cinema na London Film School, mas veio a Portugal de férias para “carregar baterias com o sol” e claro, matar saudades da família e dos amigos. A CARAS esteve com a atriz e realizadora, de 33 anos, que nos contou como esta experiência mudou a sua vida e como hoje é uma pessoa melhor.
Como está a correr esta experiência em Londres?
Ana Rocha
– Está a correr muito bem. Mas é muito difícil ser emigrante, há muitos momentos difíceis. O isolamento no início é imenso. Quando eu fui não conhecia ninguém, fui completamente sozinha. Mas lá tem-se a sensação de que as coisas acontecem e hoje sei que é mesmo assim. Aqui as coisas também acontecem, mas são dimensões diferentes. Todos os sítios têm os seus lados positivos e negativos...
E qual é o lado positivo de estar em Londres?
– Em Londres conhece-se o mundo sem se sair de lá. Eu lido com pessoas que vêm de todas as partes do mundo e aprendi sobre culturas totalmente diferentes da nossa. Também é positivo sentirmos que se está num país em que o talento conta. Não quero dizer que em Portugal não conte. Irrita-me muito o discurso contra Portugal, sobretudo agora, mas lá é diferente, pois estou a estudar numa área que está muito desenvolvida. A dimensão é maior e isso faz-nos sonhar e trabalhar muito. Faz-nos ganhar estaleca e força para competir, concretizar, aprender e ir fazendo melhor.
E qual é o negativo?
– É deixar para trás este sol maravilhoso e o calor das pessoas! Ganha-se uma noção grande e diferente do que é ser português e do que é o fado quando se está lá fora. Não há nenhum português que não saiba o que é o fado, mas lá fora é impossível ouvir fado sem chorar. Ou ir ver jogos de futebol no Sporting Clube, em Londres, rodeada de portugueses a comer sardinhas assadas... porque sim. Porque senão não se sobrevive. Se não se sentir esse calor nem se disserem essas palavras em português de vez em quando, não se vive, desiste-se todos os dias e não pode ser. Ser emigrante é ficar suspenso no ar. É sentir que não se pertence lá, mas também já não se pertence apenas aqui.
Então, agora, o que é ser português para si?
– É ter um coração gigante com espaço para pessoas e para partilhar. É saber o que significa saudade, o que significa amar, o que é realmente importante na vida. É gostar de pessoas, de paisagens e de sentir. As pessoas sentem de forma diferente conforme o sítio de onde vêm, e como eu sou muito emotiva não há nada mais fantástico do que ser português e sentir.
Gostava de ficar em Londres?
– Não sei se quero ficar em Londres. Não quero ter fronteiras. Tenho a sensação de que abri as minhas janelas para o mundo e quero continuar a ver a vista. Mesmo que um dia volte a viver em Portugal, é impossível ficar virada para dentro e não perceber a ligação que existe ao mundo lá fora. Mas as minhas histórias têm sempre ligação a Portugal. Onde quer que eu vá, Portugal vai comigo.
– Sente que se tornou uma pessoa diferente?
– Completamente diferente. Não há comparação. Mudei em dois anos aquilo que poderia ter demorado uma vida inteira para mudar se nunca tivesse saído de cá. E tem a ver com a tal sensação de ficarmos suspensos no ar e de termos de nos virar. Acho que sou uma pessoa mais sensata. Tenho mais noção das minhas capacidades artísticas, mais segurança naquilo que faço. Também fiquei mais sensível, o que não é bom.
– Porque diz isso?
– Porque quando parti já era sensível demais a certas coisas. Sensível no sentido de vulnerável, frágil. Mas também fiquei bastante mais forte noutras, mais adulta, mais independente.
A adaptação foi difícil?
– Sim. O mais difícil é a adap­tação cultural. Porque nós, portugueses, somos emocionais, espontâneos, transparentes. Temos emoções e não temos vergonha de as mostrar. Lá há muito o choque entre essa emotividade e o ser-se politicamente correto. Isto não é uma crítica a nenhum dos países, mas a diferença de culturas traz um choque gran­de. Cá sempre fui vista como tendo um ar sério, distante, frio e até arrogante. Em Londres isso nunca foi problema para mim e acho graça. Agora percebo aquilo de que me acusavam. Eu precisava disto para perceber que é preferível sorrir o dia inteiro. Porque as pessoas entendem mal uma cara fechada. Não percebem que alguém pode estar a pensar, mas acham que a pessoa pode estar zangada ou que não gosta dos outros. O que, no meu caso, é mentira.
As saudades são o mais difícil de suportar?
– Sim, sem dúvida! Agradeço todos os dias a existência do Skype e do Facebook, mas claro que isso não é suficiente, porque um abraço é um abraço. É difícil não termos apoio nos maus momentos, mas não termos com quem partilhar os extremamente felizes, quando se consegue qualquer coisa extraordinária, é ainda mais doloroso. E eu tive dois momentos em que isso me aconteceu [emociona-se]. Um em Londres e outro em Cannes, quando o meu filme Laundriness foi escolhido para ser apresentado em duas situações diferentes.
– Mas nestes dois anos não fez amigos em Londres?
– Sim, claro. Mas o problema é que todas as amizades que se constroem em Londres podem estar, à partida, condenadas pela distância. Porque em Londres as pessoas chegam e partem a todo o momento. E os ingleses estão cansados de perder pessoas, de investir em amizades que depois acabam. Claro que tenho muitos mais laços agora do que há dois anos, mas eu também sou uma pessoa de família. A minha família é enorme e o sentido de união da minha família é imenso.
– E namorado, tem?
– Neste momento o importante é mesmo desenvolver a minha carreira e focar-me nisso. Tenho imenso medo de um dia olhar para trás e ver que sou uma pessoa sozinha, sem filhos nem família, e que cheguei onde queria em ter­mos profissionais. Eu não quero ser essa pessoa. Quero ser parte dessa pessoa, alguém que foi atrás do que queria profissionalmente e alcançou o que queria, mas não deixou para trás uma vida familiar. Quero ter filhos e construir uma família. Esse pensamento consome-me e assalta-me, porque tenho 33 anos. Mas acho que isso vai acontecer.

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