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Família Pantagruel: Receitas de sucesso unem três gerações

Filha de Bertha Rosa Limpo, autora da primeira edição de 'O Livro de Pantagruel’, Maria Manuela Limpo Caetano acaba de lançar um novo livro de receitas que assina com os dois filhos, Nuno e Maria João Alves Caetano.

Cláudia Alegria
5 de agosto de 2012, 14:00

Maria Manuela Limpo Cae­tano tinha apenas sete anos quando acompanhou a mãe, Bertha Rosa Limpo, conhecida cantora lírica nos anos 30, a uma tournée em Itália. Entusiasmada com a cozinha italiana, Bertha acabaria por aproveitar aqueles dois meses para recolher uma série de receitas que mais tarde partilhou n’O Livro de Pantagruel, editado pela primeira vez em 1946. Ainda hoje considerada a maior obra de culinária de todos os tempos em língua portuguesa – vai na 75.ª edição – o livro deu recentemente origem a um novo título: O Livro de Pantagruel, De Garfo e Faca à Volta do Mundo, cuja autoria é partilhada por Maria Manuel com os seus dois filhos, Maria João e Nuno Alves Caetano.
A pretexto do lançamento daquela obra, que compila cerca de 600 receitas dos cinco continentes, a CARAS juntou três gerações da família Pantagruel para conhecer um pouco melhor a sua história: Maria Manuel, que completa 90 anos em agosto, o filho, Nuno, de 55 anos, e a neta, Inês, de 28.
– O Livro de Pantagruel é um grande legado...
Nuno Caetano –
É verdade, mas este é um livro diferente, não vem substituir ou modernizar o Pantagruel clássico. É um livro com receitas novas de todo o mundo, com algumas curiosidades como, por exemplo, ter a receita de sopa de peixe de dois ou três países, mostrando que o mesmo prato pode ficar diferente. É um livro muito interessante e acho que as pessoas vão gostar.
– Que recordações guarda da sua avó Bertha?
Muitas. A minha avó morreu em 1980. Lembro-me perfeitamente dela e assisti a vários trabalhos de reedição do Pantagruel. Não só assisti como, nessa altura, enquanto  miúdo e adolescente, participava ativamente na degustação das receitas.
– Ser provador tornou-se a sua especialidade?
É verdade. Adoro, sobretu­do se forem doces! Quando era miúdo vinha do colégio a correr, com alguns amigos que convida­va, para lancharmos lá em casa. Sempre fui muito guloso...
– E as reuniões eram na cozi­nha da sua avó?
Nós vivíamos no mesmo prédio. Era uma moradia interligada, embora cada casa tivesse o seu espaço. A minha avó estava no rés-do-chão e nós no primeiro andar, mas todos os dias íamos lá abaixo e, quando era a época de reformulação do Pantagruel, era um corrupio, escada acima, escada abaixo, porque se estavam a fazer coisas nos dois andares. Era muito engraçado.
– A sua mãe, obviamente, já não cozinha...?
Não, já cozinhou tudo o que tinha a cozinhar, já ensinou tudo o que tinha a ensinar mas, de vez em quando, ainda passa na cozinha e ainda dá uma olhadela ao que a empregada está a cozinhar.
– Tornou-se exigente nas suas opções gastronómicas?
Sou sobretudo exigente num restaurante porque acho que, quando vamos a um restaurante, o mínimo que se pode exigir é qualidade. As pessoas podem ou não gostar das receitas, depende do gosto de cada um, mas a qualidade base é o mínimo que um restaurante tem que proporcionar ao cliente e, nesse aspeto, sou exigente.
– Além do gosto pela cozinha, parece que viajar também é um hábito comum a toda a família...– É um ‘mal’ de família, sim. A quarta geração também gosta de viajar e de conhecer o mundo. A Inês está a viver há dois anos  no Rio de Janeiro, e o Nuno está em Portugal, mas também já viveu no Brasil e quer regressar. O gosto pela cozinha também já os conquistou: a Inês tem muito jeito e o Nuno não tem outro remédio, teve de aprender! Portanto, acho que isto não vai acabar.
– Parece, aliás, que a Inês foi nomeada pelos amigos chef de cozinha no Rio de Janeiro?
Inês Alves Caetano –
Sim. Geralmente a tarefa da cozinha calha-me a mim e a uma amiga. Mas já quando estava em Portugal e havia jantaradas em casa de amigos, calhava-me sempre a mim...
– E esse gosto pela cozinha foi-lhe incutido ou naturalmente adquirido?
Lembro-me que, quando ia a casa da minha avó, havia sempre qualquer coisa nova para experimentar. Por isso, foi algo muito natural. Gosto de estar sentada à mesa, de cozinhar para as pessoas e saber que estou a reunir amigos através daquilo que cozinho . Acho que se cresce com  esse gosto, não foi ensinado nem incutido. Gosto de abrir o frigorífico e pensar o que posso fazer com o que tenho. Não sou de seguir receitas, gosto sempre de dar um cunho pessoal ao que cozinho. Acho que, em vez de mil e uma maneiras de fazer bacalhau, tenho duas mil e duas, porque há sempre qualquer coisa diferente que se pode fazer na mesma receita.
– E no Brasil, tem cozinhado bacalhau?
Sempre que possível. Sente-se muito a falta, porque é daquelas coisas que, à primeira garfada, nos traz imediatamente a casa. Quando pensamos no que vamos fazer quando juntamos os amigos o bacalhau é sempre uma sugestão, embora não haja como o de cá....
– O sabor é diferente, tal como acontece com muitos outros alimentos. Diz que, por exemplo, é muito difícil fazer bolos?
É difícil fazer doces, sim. As musses e a baba de camelo saem bem, mas bolos é muito difícil. Não sei se por causa da água ou da farinha...
– Deve ser um orgulho ouvir uma filha falar assim de um le­gado de família...
Nuno –
É verdade. Assim sei que está garantida a continuidade da família Pantagruel e que novos projetos que estão na forja têm pernas para andar.
– Projetos ligados à Pantagruel?
Sim. Um apanágio da família é todos contribuírem com ideias... Além disso, há muito tempo que o Pantagruel clássico não é atualizado, e já precisa de uma ou outra revisão.
– Conquistam-se mulheres pelo estômago?
Bom, acho que se pode ou não conquistar pessoas pelo estômago...
– Depende do resultado?
– Isso [Risos]. É evidente que é agradável sermos bem recebidos em casa de alguém e gastronomicamente sairmos de lá satisfeitos. Mas, sinceramente, acho que não é isso que cativa uma pessoa.

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