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Joana Castelão: Uma farmacêutica de dedo rápido no gatilho que quer brilhar nas Olimpíadas

Joana Castelão tem 27 anos e é campeã nacional de tiro com armas de pressão. Vai representar a seleção nacional nos Jogos Olímpicos, em Londres.

Inês Neves
30 de julho de 2012, 18:21

Com ar de menina de­­licada, ninguém diria que Joana Cas­telão é uma mu­lher de armas! A verdade é que é campeã nacional de tiro com armas de precisão e uma das promessas da Federação para os Jogos Olímpicos de Londres, que começaram já dia 27. Um nível que consegiu atin­gir treinando nas horas vagas, já que exerce a tempo inteiro a profissão de farmacêutica. Dias antes da partida para Inglaterra, a CA­RAS quis conhecer melhor esta atleta olímpica, de 27 anos, que organiza de tal forma o seu tempo que conseguiu casar-se a duas semanas de partir para Londres...
– Não deve ser fácil conciliar os preparativos para um casamento com os treinos para as olimpíadas e o trabalho na farmácia...
– Pois é, como se não bastasse o stresse dos jogos, ainda tive mais o casamento [risos]. Quando marcá­mos o casamento já o fizemos a pensar na possibilidade de eu ser apurada. E na minha cabeça teve de haver espaço para tudo. A semana do casamento foi a mais complicada, mas a partir daí fiquei completamente disponível para o tiro.
– O Luís [Martins] não se importou de não ter lua-de-mel?
– Não se importou nada porque sabe que vamos tê-la em novembro. E ele compreende perfeitamente e apoia-me a cem por cento. Como é oficial da polícia, também faz tiro e assim treinamos os dois. Lá em casa há um pequenino arsenal: temos as minhas armas e as dele.
– Como surgiu essa paixão pelo tiro?
– Começou cedo, aos 17 anos, por causa do meu pai. Ele faz caça e tem armas em casa. Comecei a achar piada às armas e a querer experimentar dar uns tiros. O meu pai levou-me à carreira de tiro do Estádio Nacional, experimentei, adorei e inscrevi-me logo. A partir daí comecei a treinar e tive a sorte de conseguir bons resultados logo no início que me motivaram e alimentaram esta paixão.
– Nessa ida­de as raparigas costumam ter outros interesses...
– É verdade. Isto foi uma coisa que surgiu naturalmente, não foi nada imposto. Foi mesmo uma paixão. Mas, na altura em que estudava, ainda houve algumas vezes em que pensei: “O que é que eu estou aqui a fazer? Quero é ter tempo para estudar, estar com os meus amigos, ir às festas.” Tive de abdicar de algumas coisas na adolescência, já que ao fim de semana tinha sempre provas ou treinos. Tive de aprender a gerir muito bem o tempo. Mas claro que agora olho para trás e vejo que todos esse sacrifícios valeram a pena.
– E quando é que esse hobby se tornou ‘profissional’?
– Profissional a sério nunca se tornou. Eu sou farmacêutica e essa é que é a minha profissão. Mas a verdade é que nesta altura já me toma muito mais tempo que um hobby normal. É mesmo uma paixão. E tudo isto foi uma bolinha de neve que foi crescendo até atingir o objetivo de conseguir a classificação para estes Jogos Olímpicos.
– Qual é a sensação de ser selecionada para representar Portugal nos Jogos Olímpicos?
– Foi uma alegria imensa. Foram duas coisas diferentes: primeiro, conseguir atingir o objetivo que tinha delineado na última oportunidade possível; depois, assimilar que realmente vou aos jogos. Isso é um orgulho muito grande. Já represento a seleção nacional de tiro há dez anos, mas representar Portugal nos Jogos Olímpicos é uma sensação muito gratificante, mesmo.
– E o próximo objetivo é con­quistar uma medalha?
– Ganhar uma medalha seria um sonho. Não posso dizer que é um objetivo real, porque é muito difícil, mas não está fora de questão. Vou dar o meu máximo, isso é uma certeza. No entanto, tenho de pôr os pés no chão e ver que estão lá pessoas muito mais mentalmente treinadas para terem grandes resultados. Mas isso não significa que eu não os consiga também, a níveis diferentes.
– Não parece muito confiante na medalha...
– Não é isso. Não quero é que os outros achem que vencer é uma obrigação minha. O que quero fazer são os resultados que estou habituada a fazer, e se esses resultados me levarem a uma medalha, muito bom. Se não, também não vou ficar chateada. Não quero ter muita pressão em cima de mim.
– Mas se conseguir uma medalha, vai levar o tiro um pouco mais a sério, fazer disso a sua ocupação a tempo inteiro?
– Mais a sério do que eu levo é impossível. Porque infelizmente em Portugal não é possível viver só do desporto, a não ser do futebol. É verdade que existem bolsas, mas não são suficientes. E as suas atribuições são dadas consoante os resultados. Se temos bons resultados, temos direito a uma bolsa, mas se no ano a seguir já não correr tão bem, não temos direito a nada. E eu tenho casa para pagar, contas... E quero ter uma vida como uma pessoa normal e não estar dependente dos bons ou maus resultados.
– Mas deixar o tiro é que nunca...?
– Às vezes é complicado conciliar tudo. Há alturas em que passo um mês sem ver os amigos, sem poder ir tomar café, ir ao cinema... e aí ponho tudo em causa. Mas depois, aquela sensação de dever cumprido no final de uma prova não me deixa desistir. Dar o máximo e conseguir um grande resultado, olhar para a tabela e ver que sou a número dez da Europa... É um orgulho muito grande.

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