Nas Bancas

Embaixador Marcello Mathias: “A diplomacia é um ofício exigente, tanto no campo profissional como pessoal”

Marcello e Anne-Marie Mathias receberam Rita Ferro na sua casa da Abuxarda, na zona de Cascais, onde, findos os anos da diplomacia, passam hoje a maior parte do tempo.

Rita Ferro
29 de julho de 2012, 10:00

É um homem raro e quisemos prestar um tributo à sua cabeça portentosa e ao seu encantatório poder de comunicação. Cha­ma-se Marcello Duarte Mathias, é filho do grande diplomata homónimo e nasceu em Lisboa, em 1938. David Mourão-Ferreira, um dos nossos poetas maiores, considerava-o “um talento aforístico de primeira água, com uma rara capacidade para captar o que há de essencial no quotidiano”. É, de facto, um fenómeno de vivência e de mundividência, de memória e de energia contagiante. Escreveu cerca de uma dezena de livros, entre a ficção, o ensaio e a diarística, dos quais o Brevíssimo Inventário e o Diário de Paris fizeram as delícias de artistas, colegas e intelectuais.
Ingressou na carreira diplomática em 1970. Esteve colocado sucessivamente em Brasília, Bruxe­las, Nova Iorque, tendo chefiado as nossas embaixadas em Nova Deli e Buenos Aires. Em Janeiro de 2001, foi nomeado embaixador da UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura), cuja sede é em Paris, tendo sido jubilado em finais de 2003. Recebeu-nos na sua casa da Abuxarda, na companhia da mulher, Anne-Marie, e a conversa, apaixonante, só foi interrompida pelos arroubos afectivos de um magnífico exemplar de Boeiro de Berna, um cachorro tão vivo e robusto que atirou, por duas vezes, com a entrevistadora ao chão.
– Que voltas deu e por quanto tempo?
Marcello Mathias – O primeiro posto foi a nossa embaixada em Brasília, depois Bruxelas no período anterior à adesão às Comunidades Europeias, onde fiquei seis anos, de 1977 a 1983. Regressámos a Lisboa e aqui permaneci cerca de oito anos, tendo exercido várias funções no MNE. Depois Nova Iorque, Nova Deli, Buenos Aires e a UNESCO em Paris.
– Ficou-lhe certamente o gosto pelas viagens...
– Sim, agora viajamos livremente. Temos vindo estes últimos anos a descobrir o sul de França, à volta de Aix-en-Provence. E a Itália, dos lagos italianos à costa amalfitana. Um deslumbramento. A verdadeira Europa!
– Partilhou muitas das suas experiências em livro...
– Só acredito nas coisas depois de as escrever. É essa a melhor ex­periência. Daí dizer-se que escrever seja viver duas vezes.
– Teve e tem uma vida cheia. Acha que o brilho de uma carreira diplomática se deve ao charme nas relações ou à geografia das embaixadas?
– O meu pai e o meu irmão Leonardo tiveram carreiras di­plomáticas brilhantíssimas. Ao lado dessas, a minha foi perfeitamente anódina. Tenho, em todo o caso, a sorte de ambos os meus filhos, o Marcelo e o Nuno, serem diplomatas e, se me é permitido dizê-lo, julgo que beneficiam tan­to um como o outro de excelente cotação profissional. Bem hajam!
– Como foi viver dividido entre Portugal e outros países? Que reflexo teve no seu casamento e na educação dos seus filhos?
– A diplomacia é um ofício extremamente exigente, tanto no campo profissional como pessoal. Em grande parte por causa dos nossos filhos, optámos por ficar seis anos em Bruxelas e oito aqui em Portugal, para não os afectar com adaptações permanentes, pois são os filhos quem mais sofre com esse estado de coisas. Mas a vida diplomática tem também, em paralelo, numerosos outros aspectos gratificantes e enriquecedores.
– A propósito de família: que papel tem o cônjuge numa profissão como a sua?
– Ao longo de todo o meu percurso, a Anne-Marie teve um papel decisivo em termos de pre­sença, apoio e estímulo.
– Quer falar-nos dos seus livros?
– É sempre difícil a um autor evocar os seus livros, mas diria antes de mais que nada têm a ver com a minha vida profissional, são compartimentos estanques. Quero crer, todavia, que há neles, individualmente e em conjunto, um mesmo olhar facilmente discernível.
– Que surpresas literárias nos reserva?
– A Dom Quixote publicará em 2013, pelo centenário de Albert Camus, uma reedição do meu ensaio editado em 1975, no Brasil, A Felicidade em Albert Camus. Gostaria também de publicar um estudo sobre a Europa intitulado A Europa à Procura dos Europeus. Vamos ver se há paciência e ener­gia para tanto.
– Tem uma cultura generosa e é um comunicador fenomenal, é estranho que a nossa TV se dê ao luxo de dispensá-lo. Já algum canal o contactou?
– Que eu saiba, não!
É também um pensador genial e o seu Brevíssimo Inven­tário, repleto de achados e ensinamentos, está sempre por perto em minha casa. Sobre o amor, um dia escreveu: “O verdadeiro amor é uma grande cobardia. Uma grande cobardia partilhada.”. Fiquei sempre intrigada com esta frase...
– Não sei porquê... O amor é uma tomada de consciência da precariedade dos sentimentos, da transitoriedade de tudo isto, do efémero das relações, da hosti­lidade do mundo em redor, da vulnerabilidade que nos ameaça.
– Gostava de sondar a sua sensibilidade sobre Portugal e o estado actual das coisas...
– Estou reformado há já vários anos, vivo retirado numa aldeia perto de Cascais e vou pouco a Lisboa. Dito isto, sigo com toda a atenção a vida política portuguesa e o que mais me surpreende é termos chega­do a este ponto de descalabro. Haveria muito a dizer sobre tudo isto, mas prefiro ficar por aqui.
– Escreveu, não sei se com ironia, que “o destino português é ser-se emigrante ou retornado. Ser-se pobre, afinal”...
– É o que se está a ver agora. A pobreza foi desde sempre o ho­rizonte essencial dos portugueses, a modéstia é a palavra que caracteriza a vida nacional. Para lá dos novos-ricos, que não interessam, há em todos nós o mesmo sentimento de modéstia e contenção, porque se foi sempre pobre em Portugal. Basta ir ao estrangeiro. Mesmo em cidades como Buenos Aires apercebemo-nos de um certo estilo de vida que nunca foi nosso. Com esta crise voltou a nossa adaptação à pobreza.
– E sobre o povo português e os seus traços identitários – como nos vê face a outros povos que conheceu de perto?
– O povo português sente-se – à semelhança de outros povos europeus – um tanto perdido, sem rumo nem referências. É este outro aspecto da crise actual e não é um ponto menor. Bem pelo contrário. Mas é um povo magnífico, solidário e generoso, com o coração nas mãos.
– Que conselho nos daria um homem com a sua experiência?
– Não dou conselhos a ninguém, nem sequer a mim mesmo!
Nota: por vontade da autora, este texto não segue as regras do novo acordo ortográfico.

Comentários

ATENÇÃO: ESTE É UM ESPAÇO PÚBLICO E MODERADO. Não forneça os seus dados pessoais (como telefone ou morada) nem utilize linguagem imprópria.

Nas Bancas

Newsletters

Receba grátis no seu email as notícias, as últimas caras!

Caras Nas Redes

Mais na Caras