Nas Bancas

António Zambujo assume ser mais dado às paixões que aos amores

O fadista, de 36 anos, nasceu e cresceu em Beja, mas mudou-se para Lisboa quando entrou no musical “Amália”, de Filipe La Féria. Hoje mora no Chiado e diz que já não saberia viver noutro lado.

Manuela Silva Reis
15 de julho de 2012, 10:00

Aprendeu o cantealentejano enquanto andava pendurado nas saias da avó, figura muitas vezeselogiada na conversa de fim de tarde que mantivemos com António Zambujo,de 36 anos, um homem do Alentejo que já não sabe viver sem o olhar em Lisboa.Criança feliz, com uma propensão invulgar para a música, o fadista agradecehoje aos pais terem seguido as palavras de um professor de clarinete queaconselhou a que o matriculassem no Conservatório de Beja aos oito anos. Depoisdo clarinete, instrumento que permanece nas músicas que compõe, ligou-se àviola e à composição. Trocou Beja, onde nasceu, por Lisboa, e na capital cantouem casas de fado de renome. Pelo meio, foi-se apaixonando pela vida e pelasmulheres, duas das quais que lhe deram filhos, Diogo, de 13 anos, e João,de quase dois.
António chegou agora à marca dos cinco trabalhos discográficos e, por issomesmo, o CD que lançou em abril intitula-se, simplesmente, Quinto. Emsetembro, este álbum, que junta, uma vez mais, as suas cinco grandesinfluências – a música brasileira, a música africana, o jazz, oscantares alentejanos e o fado –, terá divulgação mundial, levando o cantor denovo a uma digressão internacional.
– Diz que trabalha com a mesma equipa de autores há cinco anos, porque elesconhecem as temáticas de que gosta. Quais são elas?
António Zambujo – Na verdade, gosto de cantar o meu presente, históriasde amor inusitadas, o quotidiano. Poderia cantar os grandes poetas do passado,que temos muitos e bons, mas se tenho estes que conheço bem, e que me conhecem,por que não cantá-los a eles?
– Como foi a sua infância em Beja?
– Eu tive quase duas infâncias paralelas. Aquela infância normal e feliz dosmiúdos que brincam na rua e depois a outra, que era a da paixão pela música.Entenda-se: a música tradicional da minha região. Ouvia os homens a cantar nataberna, que era mesmo em frente à casa da minha avó, e andava pendurado nassaias dela a pedir-lhe para me ensinar as canções. Ela, que tinha, e tem, umconhecimento muito grande do cancioneiro tradicional, ensinava-me as letras eeu ia para a taberna cantar com os homens. Eles achavam piada e punham-me emcima do balcão a cantar. Portanto, tive essas duas infâncias que tentava, econseguia, conciliar, porque eram duas coisas que gostava muito de fazer.
– Não me engano muito se disser que é tímido?
– Sou, muito tímido. Foi graças à minha timidez que comecei a tocar viola. Nãome imaginava como um daqueles cantores que ficam à frente e com os músicosatrás. Sempre preferi estar ao lado deles, até por uma questão de cumplicidade,e a viola funcionou para isso. E protege-me. Mas apesar de ser tímido, tambémsou irreverente e sempre gostei de confrontar e mostrar visões diferentes dumamesma coisa. Talvez por isto, procurei uma abordagem musical nova.
– Quando começou a cantar, sabia exatamente qual o trilho que queria fazer?
– Sou demasiado irresponsável para fazer planos para o futuro. Sabia que eraisto que queria fazer e sabia do que gostava, mas também tive sempre muitasorte, a vida aconteceu-me de forma natural. Desfruto do dia-a-dia, aúnica coisa que imagino para o futuro é tentar ser cada vez melhor.
– Cinco discos depois, encara a vida da mesma maneira?
– A vida muda muito e nós mudamos muito com a vida. Ela transforma-nos. A visãodas coisas nunca poderia ser a mesma. Mas tento ser o mais coerente possível.
 – Consegue ser um pai presente?
– Não, não consigo. Tento cumprir quando posso. Nos últimos três anos estivemosmais tempo fora do que cá em Portugal e a nossa família acaba por ser quem andaconnosco na estrada. Tento desfrutar do tempo que tenho com eles. O mais velhovive em Beja e o mais novo vive em Lisboa.
– Em que tipo de amor é que acredita?
– Sou mais de paixões e menos de amores. Apaixono-me muito facilmente, o quenem sempre é bom, porque criamos uma instabilidade emocional que é difícil decontrolar. As pessoas como eu andam sempre a apaixonar-se, aqui e ali à procurado verdadeiro amor, mas depois descobrem que afinal aquele não é o verdadeiroamor e partem para outra.
– No tema Fortuna ouve-se “Não tenho nada em meu nome, somente ofado que faço, meu coração não tem fome, mora num pequeno espaço, vivo da vidaque passa, de amores que vão e vêm...” É autobiográfico?
– É, completamente. O Márcio Faraco escreveu-a a pensar em mim. Nãotenho nada em meu nome, somente o fado que faço. Acaba por ser um pouco a vidade toda a gente.

Comentários

ATENÇÃO: ESTE É UM ESPAÇO PÚBLICO E MODERADO. Não forneça os seus dados pessoais (como telefone ou morada) nem utilize linguagem imprópria.

Nas Bancas

Newsletters

Receba grátis no seu email as notícias, as últimas caras!

Caras Nas Redes

Mais na Caras