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Aos 77 anos, Fernando Alvim partilha com o público os fados e canções da sua vida

O guitarrista já conta com 55 anos de carreira, ao longo dos quais acompanhou muitos cantores e guitarristas, destacando-se a sua parceria de 25 anos com o mestre Carlos Paredes. O ano passado, Fernando Alvim editou o seu primeiro disco de inéditos.

Marta Mesquita
10 de julho de 2012, 11:54

Fernando Alvim, de 77 anos, é guitarrista , ou “acompanhador de fados e guitarradas”, como se define, há 55. Quando a vida lhe começou a deixar mais tempo livre, a mulher, Rosário, de 50 anos, incentivou-o a compor. E assim surgiu,  no ano passado, o álbum Fados & Canções do Alvim, que, aliás, lhe mereceu a nomeação para o Globo de Ouro de Melhor Intérprete Individual. Ao longo de mais de cinco décadas dedicadas à música, Fernando partilhou os acordes da sua guitarra com grandes nomes da música portuguesa, destacando-se a sua parceria com Carlos Paredes durante 25 anos.

Foi sobre as duas histórias de amor que viveu – com a música e com Rosário – que a CARAS conversou com o artista e a mulher, na sua casa, em Lisboa.
– Como é que surgiu o seu primeiro álbum de inéditos, Fados & Canções do Alvim?

Fernando Alvim – Este disco surge muito por influência e entusiasmo da minha mulher. Durante um ano e meio vivi quase em exclusivo para fazer este disco. Compor, convidar os intérpretes, fazer os ensaios, que eram verdadeiras tertúlias musicais, foi tudo muito gratificante. Todos os intérpretes que trabalharam comigo neste disco foram de uma generosidade incrível.

Rosário Alvim – Acredito no Fado, no destino, e acho que tudo acontece no momento certo. E este disco é o corolário de uma carreira muito diversificada e mostra a extraordinária capacidade criativa do Fernando. E foi muito gratificante ver o que ele criou.
– Como é que encarou a sua nomeação para o Globo de Ouro de Melhor Intérprete Individual?   Sente que lhe é reconhecido um protagonismo que pouco teve ao longo da sua carreira?

Fernando – É gratificante. No fundo, é reconhecerem o meu trabalho e o da Rosário. Neste disco, ela tem tanta importância como eu.
– Então são uma boa equipa tanto na vida como no trabalho…

– Sem dúvida nenhuma. Tenho muito amor por ela e é uma paixão sempre renovada. Temos tido uma vida maravilhosa, encantada. O nosso amor é eterno. Ela é a mola que me impulsiona.

Rosário – Casei-me com a música em pessoa. O Fernando é extraordinário. É muito altruísta e está sempre atento ao sentir do outro. E é muito simples. Continuará sempre a ser muito especial para mim.
– E como é que nasceu a vossa história de amor?

– Tinha cerca de dez anos quando vi o Fernando pela primeira vez, numa televisão a preto e branco, em casa dos meus avós. O Fernando tocava maravilhosamente guitarra clássica e tinha uns olhos azuis da cor do mar. E desde então procurei seguir, nem que fosse à distância, a trajetória daqueles olhos. Em 1982, a seguir a um espetáculo, conheci-o, e aí pude apreciar ao vivo os olhos que tinha visto tantas vezes na televisão. Um ano e meio depois desse espetáculo encontrámo-nos e ficámos juntos. Até hoje. Era uma paixão que tinha mesmo de acontecer. Não tenho nem palavras para descrever toda esta trajetória de vida ao lado do Fernando. Temos tido uma vida muito bonita.
– Como é que o fado entra na sua vida, Fernando?

Fernando – Comecei a ter lições de viola com um guitarrista aos 12 anos e aos 23 profissionalizei-me. Com 14 anos ouvi pela primeira vez a Amália[Rodrigues] e foi isso que me entusiasmou a tocar fado. Depois, ia às casas de fado, ouvia muito e aprendia.
– E quais são as melhores recordações que guarda destes 55 anos de canções?

– Tenho tantas e tão boas recordações... Foram anos inesquecíveis! Tínhamos condições completamente diferentes das de hoje. Ficávamos sempre em hotéis muito bons, viajei pelo mundo inteiro sempre como acompanhador... Trabalhei 25 anos com o Carlos Paredes e foi uma época maravilhosa, porque tínhamos uma ótima convivência. Nessa altura, também tocava em casas de fado. Trabalhava muito.
– Nunca quis ser outra coisa na vida para além de guitarrista?

– A música sempre foi o meu sonho, mas em 1961 arranjei outro emprego e comecei a fazer trabalho de escritório. Não gostava, mas tinha de ser, porque os músicos tinham reformas muito fraquinhas! E estive lá até 1984, que foi quando comecei a dedicar-me em exclusivo à música.
– E ainda se sente com energia para criar mais algum disco, ou este trabalho é o resumo de uma vida dedicada à música?

– Este trabalho é o resumo de uma vida dedicada à música, mas quero continuar a compor. E é bom ter um trabalho meu, que partiu de mim, porque durante toda a minha vida só acompanhei. Nos intervalos dos problemas de saúde que vou tendo, sinto sempre vontade de trabalhar.
– Como gostava de ser recordado?

– Como um simples acompanhador de fados e guitarradas. Isso basta.

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