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Cavalcanti Filho sobre Pessoa: “As suas palavras dançam”

O escritor brasileiro, autor de “Fernando Pessoa – Uma Quase Autobiografia”, conversou com Rita Ferro em Lisboa, onde se deixou fotografar na companhia da mulher, Lecticia.

Rita Ferro
7 de julho de 2012, 14:00

Escreveu, no Brasil, “Fernando Pessoa – Uma Quase-Autobiografia”. Descobriu o nosso poeta maior há muitos anos, estudou-o até à indiscrição. Em Portugal, alguns estudiosos torceram o nariz à ousadia: “Quem é este senhor que pretende saber mais do que nós?” Chama-se José Paulo Cavalcanti Filho, é advogado no Recife, consultor da Unesco e do Banco Mundial e ex-ministro da Justiça do Brasil, tem uma casa em Lisboa, a São Mamede, e recebeu-nos na companhia da mulher, Lecticia, no Hotel Altis em Lisboa. Foi uma conversa divertida e efusiva, com o entrevistado a falar do seu livro, comovido como se tivesse acabado de ser pai – o caso não é para menos: Fernando Pessoa – Uma Quase-Autobiografia caminha para os 50 mil exemplares no Brasil e as três edições em Portugal.
– Quando descobriu Pessoa?
– Descobri em um disco ao vivo, gravado, no Teatro República. Era João Villaret recitando a Tabacaria. Só que nessa altura, 1966, ainda não sabia que Villaret era um Deus. Nem que Pessoa era Pessoa. Desde então fui contaminado por essa paixão que até hoje me desafia, confunde e fascina.
– Que o fascinou nele?
– Primeiro um sentimento novo, intimista, superior. Depois a novidade absoluta das ima­gens. Por fim o som das palavras. No começo de minha vida pensei em ser maestro, estudei oito anos de piano clássico, por isso talvez os sons exerçam em mim um papel tão importante. Pessoa não apenas escreve bem, suas palavras dançam. E nada é por acaso. Ao escolher a imagem do Mostrengo, ele riscou numerosas variantes, Monstrengo, Monstrodo, Mostroso, por aí. Até ficar com a certa.
– E depois de o estudar?
– Aí o que era fascínio se transformou em admiração. Algo mais maduro, que foi au­mentando aos poucos e sempre. Engraçado é que o próprio Pessoa, imagino, sabia ser um dos eleitos pelos deuses.
– Disseram-me que um dia o encontrou na rua...
– No Largo Camões. Respei­tosamente, pre­feri não incomodar um fantasma tão amigo. E o segui. Aos poucos, notando a companhia, trocou de calçada e foi à Igreja dos Mártires. Fui também. Dirigiu-se à Brasileira. Eu atrás. Foi à Bertrand. Ele e eu. Então tomou a rua lateral e correu. Como quem estivesse apavorado. Minha mulher garante que era só um sósia com medo. Mas prefiro acreditar que Maria Lecticia não entende nada de fantasmas.
– Aventura-se a uma opinião sobre a orientação sexual de FP – baseada em quê?
– Duas certezas. Primeiro que tinha uma natureza homossexual. O primeiro beijo deu aos 32 anos. Jamais teve uma mulher na cama. O apuro no vestir é quase feminino. Segunda, que não era homossexual. Não há um escrito, uma foto em posição suspeita, um depoimento de amigo, nada. Vivesse hoje, quem sabe até seria. Mas não naquele tempo, tão pouco tolerante com essas questões. E preferiu sublimar esse lado da vida a favor da obra.
– Que descobriu a respeito do poeta que os nossos estudiosos não soubessem?
– Primeiro a correcção dos erros. Um diz algo, todos o seguem, parece não haver espírito crítico. A Morgadinha não podia ser a tabacaria da Tabacaria, por exemplo, entre outras coisas, porque foi constituída só em 1958. E o poema é de 1928. De cirrose não morreu, com certeza. Tanto mais. E descobri muito. Três dessas descobertas me agradam. Primeiro, saber que são não 72, mas 127 os heterónimos (escreveu com 206 nomes). Depois, localizar um livro que escreveu e vendeu a um judeu russo. E o último encontro de Ophélia com seu corpo, no hospital.
– O quarto onde Pessoa viveu já não existe. Mas conheceu aquele em que ele nasceu...
– Pois, o quarto do Pessoa não existe mais. Quase um crime, nessa reforma modernosa feita na Casa Fernando Pessoa. Mas estive onde foi o quarto onde nasceu, no Largo de São Carlos. Com risco de ser preso, que o segurança não me queria deixar ir. E só quem de lá vir o Tejo dourado, brilhando, entenderá suas palavras ao dizer que é lá que o céu se reflecte.
– Fale-nos deste seu livro...
– É o livro que eu queria ler, e não existia. A obra de Pessoa está já magnificamente estudada, por grandes autores, sobretudo portugueses. Mas faltava o homem. Octavio Paes, comparando a insignificância da vida à grandeza da obra, até disse no início de um livro sobre ele que, em Pessoa, “o homem é a obra e a obra é o homem”. Isso é verdade. Mas não é verdade inteiramente. Que, por trás do autor, há um homem que dorme, acorda, se veste, trabalha e sonha. Aqui está ele, de corpo inteiro.
– Que livro prefere do FP? Porquê?
– O do Desassossego. Por ser, segundo penso, seu momento mais alto. E não só seu. Meu amigo Pessoa também, penso, que dele disse ser o momento “superior”.
– Ganhou um grande prémio de literatura no Brasil e tem esgotado edição atrás de edição...
– Sim, o da Bienal de Livros, em Brasília, a 14 de Abril, e sei que o meu nome foi também citado para o Prémio da Academia Brasileira de Letras. Mas quem mais está surpreso sou eu, por ter escrito esse livro para mim. Era o que queria ler e não existia. Por isso escrevi. Quem era o homem por trás do autor? Qual a tabacaria da Tabacaria? Quem era o Esteves? Agora descobri que o leitor também queria saber disso. “Malhas que o Império tece”, diria Pessoa.
– Onde conheceu Eduardo Lourenço?
– Num jantar no restaurante Valbom, da Av. Conde de Valbom, junto com o grande José Carlos Vasconcelos. Ele, aparentemente, já conhecia o livro. Tanto que, segundo ele, eu fiz “arqueologia literária”. Engraçado é ser, no fundo, uma boa definição. Seja como for, uma grande honra. Que Lourenço merece, e não de hoje, um Nobel. Espero que venha logo.
– É capaz de nos fazer uma crítica fulmi­nante sobre os portugueses, principais defeitos e virtudes? Uma crítica genuína e não agradativa?
– As qualidades são razoavelmente óbvias. Um povo fraterno, com grande calor humano, em um país que  parece, aos brasileiros, como a casa dos pais. Os defeitos são mais difíceis de perceber. Uma crise económica sem solução visível no curto prazo. Mudam os homens e a desesperança em uma solução viável é a mesma. E sobretudo, algo bem diferente do Brasil, um profundo desalento com o futuro. Mas isso é só opinião, e posso estar errado. Até desejo isso, no coração.
– E a nossa literatura? Quem costuma ler?
– A qualidade é muito boa. Surpre­enden­te­mente boa, sobretudo para uma país que não é tão grande. Aos grandes vultos do passado se junta agora uma bela geração nova. Apesar disso, escusas, continuo preferindo Camões e Pessoa, em poesia. Eça de Queiroz, nos romances. E Eduardo Lourenço, nos ensaios. Afinal, nem todo o país pode se ufanar de tan­tos vultos enormes como esses. E os novos não se melindrem. É como preferir Amália.
Nota: por vontade da autora, este texto não segue as regras do novo acordo ortográfico.

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