Nas Bancas

Alexandra Borges conta como vive em família o projeto ‘Filhos do Coração’

A jornalista da TVI garante que o marido, Luís Almeida, e os filhos, Vicente e Tomás, são o seu maior apoio no que diz respeito ao projeto Filhos do Coração. Nesta tarde a família posou com o cão, Guga.

Marta Mesquita
3 de junho de 2012, 11:00

Em 2007, o que poderia ter sido apenas uma reportagem de denúncia de violação dos  Direitos Humanos no Gana tor­nou-se, afinal, a missão da vida de Alexandra Borges. Ao conhecer as crianças escravizadas no Lago Volta – aquelas que hoje são os seus filhos do coração – o mundo da jornalista mudou e hoje está empenhada em resgatar sorrisos a estes meninos que perderam a infância. A apoiá-la incondicionalmente tem o marido, o economista Luís Almeida, e os filhos, Tomás e Vicente, de oito anos.
Foi durante uma tarde passada em família que a jornalista partilhou com a CARAS os sonhos que tem para os seus filhos do coração.
– Como é que descobriu as crianças escravas do Gana?
Alexandra Borges
– Através de um artigo no jornal The New York Times e fiquei impressionada, porque nem sequer imaginava que existisse escravatura infantil. Gosto muito deste género de jornalismo de intervenção e andei a pedir à Manuela Moura Guedes, que na altura estava na TVI, que me deixasse partir para o Gana para também eu fazer uma reportagem. E fui. Quando cheguei lá, fiquei impressionada. Era muito pior do que alguma vez poderei contar. O que vi no Gana mudou a minha vida, de tal maneira que durante a viagem de regresso a Portugal já estava a pensar como é que poderia ajudar aquelas crianças.
– Desde 2007, a Alexandra já angariou mais de 150 mil euros para esta causa, garantindo o futuro, nos próximos dez anos, a 13 crianças resgatadas. Acredito que agora, que criou a ONG Filhos do Coração, ainda tenha mais projetos...
– Sim. Agora, no dia 1 de junho, vou apresentar o livro Resgate, que escrevi juntamente com a minha sobrinha Rita Palma Borges. É um livro de reportagem. Na altura, a minha sobrinha tinha 19 anos e estava muito em baixo. Então, levei-a para o Gana com a missão de fotografar tudo e escrever um livro. Eu odeio escrever, mas por aqueles meninos faço tudo e ajudei a minha sobrinha nessa tarefa. Também criei um grupo no Facebook, que já tem 47 mil pessoas e encontrei uma encenadora fantástica que vai criar uma peça que estará em cena no Teatro Tivoli BBVA para o ano. E ainda vamos pôr umas faixas a divulgar esta causa no Cristo-Rei.
– A Alexandra quer sensibilizar os portugueses para esta causa ou pretende ir mais além?
– Quero ir mais além e se possível fazer uma campanha internacional contra a escravatura infantil. É a indiferença que está a matar aquelas crianças. E aquele silêncio ensurdecedor que ouvi no Lago Volta, quando estamos perante milhares de crianças e não ouvimos um sorriso ou uma voz, é assustador. E então decidi quebrar aquele silêncio. Vamos ser a voz daquelas crianças. Elas não conseguem chegar a ninguém, falam dialetos, não têm documentos, se elas desaparecerem ninguém as vai procurar! Por isso, desafiei Kofi Annan, porque ele é do Gana e chama-se Kofi por ter nascido numa família aristocrata a uma sexta-feira. Os meus meninos chamam-se Kofies por terem sido vendidos a uma sexta-feira... Mas um dia também podem ser outros Kofi Annan.
– O que mais a marca nestes meninos escravos?
– Aqueles miúdos são fantásticos, mudam vidas. Depois de serem resgatados e de irem para o orfanato, percebemos que têm uma capacidade de aprender e uma sede de saber incomparável às dos nossos miúdos. Nunca acham uma chatice fazer os trabalhos de casa. Ficaria feliz se lhes pudesse pagar as melhores universidades do mundo. Está na mão deles mudar o futuro do seu país. Neste momento, apesar de haver uma lei no Gana contra o tráfico e a escravatura infantil, não há nem um pescador que escraviza crianças ou um traficante na cadeia.
– Para si não chega ser apenas jornalista e reportar o que vê no terreno?
– Aprendi na faculdade essa coisa do jornalismo objetivo, mas não concordo nada! Gosto do jornalismo que faz a diferença. Não sou nenhum papagaio e não vou ao Gana onde há crianças escravas e depois venho para casa e durmo da mesma maneira. Eu não sou essa pessoa! Quando as coisas batem forte, tenho de ter um eco. Ninguém pode ficar indiferente àquela realidade. Não há nenhum jornalista no mundo que visse o que vi e não tentasse fazer qualquer coisa. Sou mãe, cidadã, jornalista e sou humana!
– O que é que o contacto com estas crianças mudou no seu mundo, Alexandra?
– Mudou tudo! Nem sei como explicar. A primeira mudança é interior, porque quando pensamos que vamos dar qualquer coisa àquelas crianças, quem recebe somos nós. Vim de lá virada do avesso. Hoje digo que não tenho problemas, tenho contrariedades. Problemas é uma pessoa comer um prato de mandioca e, se tiver doente, atirarem-na aos crocodilos. E com 3, 4 anos, as crianças não têm a mínima capacidade de se defender! Não é fácil resgatar estes miúdos, mas muito mais difícil é resgatar depois a criança que há dentro deles.
– Acredito que para conseguir estar tão envolvida nesta causa tenha de ter o total apoio do seu marido...
– Claro que sim! O meu marido apoia-me muito, mas mais na sombra. É a pessoa que me dá os conselhos, que me ajudou com a ONG. Fui eu que paguei o livro, é uma edição de autor, porque as editoras queriam roubar estes miúdos! Tudo o que ganhar com o livro vai diretamente para esta causa. E o Luís chegou-se ao pé de mim e disse que tinha dinheiro se eu precisasse. Está sempre ali. Ajuda-me a localizar as pessoas, a estabelecer relações... É um grande apoio para mim.
– E como é que envolve os seus filhos nesta realidade tão dura?
– Para o ano, já desafiei o grupo que está a preparar a peça de teatro a ir fazer em agosto um workshop no Gana. E o Tomás e o Vicente vão também. Os meus filhos sabem que aqueles meninos fazem parte da nossa família. Sermos cada vez melhores e pormos o que temos de bom ao serviço dos outros são atitudes que se ensina. E é o que tento passar aos meus filhos. O Vicente e o Tomás sempre ajudaram no Banco Alimentar, dão brinquedos... Isto faz parte da nossa vida. Eles sabem que a mãe está muito ocupada, explico-lhes que estou a fazer uma coisa que faz sentido e envolvo-os. Eles sabem o que faço lá, vimos a reportagem juntos, mostro-lhes o livro...

Comentários

ATENÇÃO: ESTE É UM ESPAÇO PÚBLICO E MODERADO. Não forneça os seus dados pessoais (como telefone ou morada) nem utilize linguagem imprópria.

Nas Bancas

Newsletters

Receba grátis no seu email as notícias, as últimas caras!

Caras Nas Redes

Mais na Caras