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David Fonseca: “A música explica melhor a vida do que qualquer discurso”

Rita Ferro conversou com o músico, que tem um novo disco, ‘Seasons’, em dois volumes: ‘Rising’, que já está à venda, e ‘Falling’, que será editado em Setembro.

Rita Ferro
27 de maio de 2012, 10:00

É novo, bonito e tem omundo nas mãos. Mas é muito mais do que isso e conhecê-lo foi um prazerincomparável. Olha nos olhos, é simultaneamente fosfórico e bondoso, o discursoé maduro e agradecido à vida e aos seus privilégios. Nasceu em Leiria a 14 deJunho de 1973 e é um dos músicos, cantores e compositores portugueses maisapreciados pelo público exigente. Foi membro da banda Silence 4, mas actua asolo desde 2003. Além de escrever a maioria de suas obras, também é responsávelpelo design gráfico das capas dos seus álbuns e direcção de arte dosseus videoclips. Entre 2004 e 2006, fez parte do projecto-tributoHumanos. É porta-voz activo para a Associação Fonográfica Portuguesa sobre aviolação de direitos de autor. Queria ser fotógrafo e não músico, mas o êxitofoi tão grande logo na primeira incursão que foi difícil voltar atrás. É umfenómeno: aprendeu música sozinho, experi­mentando instrumentos. Canta eminglês porque as maiores referências foram anglo-saxónicas, mas já prometeu umdisco em português. Recebeu-nos na casa de chá da Lanidor, na Av. da Liberdade,que frequenta regularmente. “Sou um bicho de cidade”, confessou-nossorrindo. “Gosto de me misturar com tudo isto.” E nós com ele. Vamos ouvi-lo.
– Ouvi dizer que estás na música por acidente – é verdade?
David Fonseca – Sim, nunca tive a ideia de fazer da música a minhaprofissão. Queria seguir o ramo da fotografia e toda a minha vida académica foicentrada nessa direcção. A música era um passatempo e não o desejo de uma vidaprofissional, mas tudo se alterou com o sucesso gigantesco do álbum de estreiados Silence 4.
Uma vez no meio de toda essa agitação, percebi que era uma área que podiaagrupar muitas coisas que eu gostava e resolvi agarrá-la com determinação. Eainda hoje considero que sou uma das pessoas mais sortudas do mundo por ter umaprofissão que me permite tanta liberdade e espaço criativo.
– Com que idade tocaste num instrumento pela primeira vez?
– Teria uns 8, 9 anos, quando tive aulas de piano e órgão durante dois anos.Depois disso só voltei à música aos 18 anos, com a descoberta da guitarra aliderar uma paixão fulminante pela ideia de fazer canções.
– E voltaste às aulas de música?
– Não. Tudo o que aprendi é fruto de horas, dias e semanas a experimentarinstrumentos e a tentar perceber como podia fazer com que eles fizessem soaraquilo que imaginava. Sei tocar um bocadinho de todos, mas não sei tocar nenhummuito bem.
– E a opção de só cantar em inglês? O inglês é uma espécie de esperanto damúsica?
– Não foi tanto a linguagem universal do inglês que consolidou a ideia deexprimir-me dessa forma, mas antes as influências de toda a músicaanglo-saxónica que comandava (e continua a comandar) a gigantesca parte dosmeus dias. Nunca foi uma questão pertinente ou relevante até ter vendido muitosdiscos, só aí começou a ser uma pergunta constante e alvo de críticassistemáticas, mas faço-o sobretudo porque é a minha maneira de expressar umacerta forma de estar na música e de a construir criativamente. Mas, para quecons­te, adoro cantar em português. E espero que um dia possa fazer um disco emportuguês da mesma forma natural e descomprometida com que fiz todos os outrosdiscos da minha vida.
– Tens o chamado ar cool – é genuíno ou fervilhas interiormente?
– Não faço ideia, sinto-me muito pouco cool no meu dia-a-dia. Não é umaimagem que queira projectar ou que me faça perder tempo na minha vida, acreditoque o maior factor cool que se pode ter está na liberdade com que sevive todos os momentos que atravessamos. E, nesse sentido, procuro genuinamentefazer o que me apetece e não o que esperam de mim.
– Dizes que és tímido, mas não achei. Olhas as pessoas nos olhos, a tuaatitude é descontraída, calaste-me no primeiro encontro – progresso ou truque?
– Uma mistura dos dois, acho eu. Ter vindo para o mundo da música fez-me lidarcom a minha timidez natural desde muito cedo, desde as loucuras em palco àexposição pública. Hoje sinto-me mais à vontade com essa faceta da minhapersonalidade e tento que essa timidez não me impeça de fazer o que quero. Noentanto, sempre olhei as pessoas nos olhos, ainda é a melhor forma de saberquem está à nossa frente.
– Há um lado clássico em ti que me surpreendeu: tens um casamento estável efilhos felizes, usas aliança, tens hábitos clean, não me parecessensível ao assobio das drogas – os músicos da tua geração já sentem a atracçãoda saúde ou és excepção?
– Julgo que o arquétipo do músico ‘maldito’ sempre foi muito exagerado ealgo injusto. É certo que existem loucuras na minha profissão, mas não vim paraa música para preencher um molde pré-estabelecido da caricatura mais vigente esimplista. Acima de tudo, olho para esta profissão como uma oportunidadegigante de estabelecer contacto com os outros de forma criativa e não paraentrar numa viagem egocêntrica e fugidia. Não sinto atracção por nenhuma formaestanque de estar na vida e não sinto a necessidade de encaixar-me nas imagensjá existentes. E julgo que essa liberdade é a grande característica dos músicosda nova geração.
– Quem admiras em termos musicais?
– Admiro imenso o Sérgio Godinho, com quem colaborei diversas vezes. Éuma pessoa com uma energia criativa constante e que nunca se fechou na suaprópria música. Continua a ser um dos nossos mais profícuos e interessantesmúsicos do nosso tempo e um exemplo claro de trabalho e consistência artística.Fora de Portugal, sou um grande admirador de Tom Waits e do universogigante que construiu à sua volta, um autor de referência ainda a construiralgumas das mais belas canções actuais.
– Não conheço o teu trabalho fotográfico, fala-me dele. Se fosses fotógrafoprofissional que filosofia presidiria a essa tua arte?
– Vejo a fotografia como uma continuidade do que faço na música, uma maneira demostrar um ponto de vista, de contar uma história de forma menos convencional.Julgo que se fosse fotógrafo profissional seria essa a minha postura em relaçãoao meu trabalho, uma procura constante de um outro mundo que não se encontra àsuperfície. Aliás, nada realmente interessante pode ser encontrado àsuperfície, é preciso algum trabalho e dedicação para encontrar o que realmenteinteressa.
– Facilita o meu trabalho [risos]: que defeitos tens, como pessoa? Equalidades?
– Não sou uma pessoa muito organizada e é muito fácil a minha vida prática seratraída por um caos de eventos que me destabiliza sistematicamente. Sou aindauma das pessoas mais distraídas à face da terra e, no entanto, prendo-me compormenores de importância extremamente relativa. E é sempre difícil nomearqualidades sem parecer um exercício narcísico, mas gosto de pensar que sou umapessoa justa. É uma qualidade que prezo imenso nos outros e espero reter algumadessa força.
– Nietzsche dizia que, sem música, a vida seria um erro – concordas?
– A música encerra em si o mistério da possibilidade, do sonho, dointransponível. Julgo que, por vezes, a música explica melhor a vida do quequalquer discurso, pela sua abstracção e capacidade de encontrar as nossassensações e identificá-las. Não sei se seria um erro, mas seria muito maispobre.
– Dizes que não ligas muito a prémios...
– De facto, não ligo muito a prémios, talvez por não acrescentarem nenhum dadoao que já fiz. Não tenho a atracção pelo púlpito e os prémios costumamdespertar a minha timidez, não é algo que persiga na minha vida.
– Como vês Portugal, hoje e amanhã?
– Vejo um país em dificuldades e com muitos desafios pela frente. Pressinto quehá uma certa forma de ser mais negativa e passiva que mudará nos anosvindouros, fruto da insatisfação e das expectativas goradas. O país teria muitoa ganhar com uma população mais activa a defender aquilo em que acredita e asnovas gerações serão decisivas sobre a forma como ve­mos e vivemos o nossopaís.
– E a crise que vivemos? De que forma te afecta?
– Afecta da mesma forma que atinge a maioria de nós. Há muitas áreas da minhaprofissão que têm de ser reformuladas de forma a continuarem a funcionar e acriatividade é, mais do que nunca, a nossa principal aliada para combater acrise. Eu estou no ramo da criatividade, o que aumenta a minha responsabilidadeem responder da melhor forma aos desafios deste presente conturbado. Mas sempreem frente, que esse é que é o caminho.
– Quem és tu, David Fonseca?
– Tenho uma ideia, mas está sempre em mutação. Acho que sou uma pessoa inquietaque procura respostas de forma criativa e construtiva, uma pessoa maisinteressada no caminho que percorre do que na finalidade dele. E é mesmoverdade o que dizem, o caminho é sempre mais interessante do que o destino.
NOTA:Por vontade da autora, este texto não obedece às regras do novo acordoortográfico.

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