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Fernando Ribeiro: "Sempre me fascinou a capacidade do homem construir e destruir”

O vocalista dos Moonspell posou para a CARAS na biblioteca da Faculdade de Letras de Lisboa, onde estudou Filosofia.

Inês Mestre
16 de maio de 2012, 12:43

A roupa toda preta, o eyeliner também preto e o cabelo comprido não enganam: Fernando Ribeiro, de 37 anos, é o vocalista do grupo de metal português de maior sucesso, os Moonspell. Foi a propósito dos 20 anos da banda, do novo álbum duplo desta, Alpha Noir/Omega White, e do concerto de apresentação deste trabalho, no Campo Pequeno, em Lisboa, no próximo dia 12, que a CARAS conversou com o músico. Uma conversa que teve lugar na biblioteca da Faculdade de Letras de Lisboa, onde Fernando Ribeiro estudou Filosofia, e durante a qual nos revelou o lado que não se vê nestas fotografias: o de um homem profundo, eternamente curioso, apaixonado pela namorada, Sónia Tavares, a vocalista dos The Gift, e enternecido com o filho, Fausto, que nasceu no passado dia 17 de abril.
– Como têm sido estes 20 anos com os Moonspell?
Fernando Ribeiro
– Sinto que passou tudo muito rápido, porque os Moonspell são uma experiência diária e não de efemérides. Não estou nada farto, pois ainda fazemos as coisas com muito entusiasmo. Temos outra idade, é certo, mas a maturidade trouxe-nos uma maior autoestima e assunção daquilo que somos. Nós gostamos mesmo de ser assim, de usar o eyeliner e das coisas mais ocultas, como eu fazer de lobisomem num videoclip. O nosso desafio é conseguir provar aos outros que somos e gostamos de ser assim. Têm sido anos muito bem passados.
– Imaginava que atingiriam este sucesso?
– Nós estávamos no lugar certo na altura certa, mas os nossos sonhos eram coisas mais objetivas, como trabalhar com esta editora ou com aquele produtor. Nunca pensámos que passados 20 anos iríamos ser considerados os representantes portugueses do metal! Nós fomos para a estrada em 1995, e só quando parámos, em 1998, é que começámos a pensar no que estávamos a conquistar. Porque quando se está a viver o sonho há pouco tempo para pensar nele. E quando se pensa numa vida de rock stars sonha-se com belos hotéis, uma equipa técnica que faça tudo, e nem sempre é assim. Em Portugal, na Europa e na América Latina conseguimos ter uma boa vida, mas nos Estados Unidos, por exemplo, temos que meter mãos ao trabalho. Acho que é este equilíbrio que faz a solidez dos Moonspell, sabemos distinguir o que é fundamental na nossa música e na nossa vivência da música e o que é periférico.
– É um homem profundo?
– Acho que tenho esse lado, sim, e daí ter estudado Filosofia. Mas, sobretudo, tenho um lado curioso e até intelectual. Tenho curiosidade pela humanidade e esse é o grande tema dos Moonspell: a ambiguidade do ser humano, como evoluímos, como pensamos, como nos juntamos. Sempre me fascinou a capacidade do homem construir e destruir. Mas, mais do que uma aproximação à profundidade, acho que eu e os Moonspell temos uma postura que as pessoas estranham, mas que para mim é a única que podemos ter: tentamos ver as coisas na sua plenitude. Muitas vezes a música é encarada como entretenimento e as pessoas evitam abordar o lado lunar das coisas, o que fizemos de mal, os nossos desejos não realizados, os monstros que vivem dentro de nós. Ao abordarmos isso nas nossas músicas, temos uma convivência muito mais pacífica quer com o terror quer com a beleza. Acho que é isso que nos define enquanto banda e a mim enquanto homem e músico.
– É autor das letras e tem livros publicados. Já escreveu depois de o Fausto ter nascido?
– Tirei muitas notas! Sou uma pessoa de escrever tudo e já tinha escrito algumas coisas sobre a paternidade no sentido geral, mas quando o Fausto chegou, tudo mudou. Já sou capaz de lhe dedicar odes inteiras só de o observar! É de facto um amor inexplicável, todos os momentos são intensos, desde mudar a fralda àqueles sorrisos estranhos do sono... E era uma experiência que me fazia falta, pois passamos a perceber melhor o que realmente interessa. Acho que ter um filho nos traz uma tranquilidade bastante diferente e gerimos o tempo de outra maneira. Até porque eu já tenho 37 anos e agora o tempo é uma questão mais recorrente do que antes! Quando o Fausto nasceu, olhei para todos os meus livros e pensei: ‘Um dia isto vai ser tudo dele.’ Quando somos pais, é inevitável pensarmos nisto do tempo e da herança.
– Quando os Moonspell entrarem em di­gressão, ainda este mês, a Sónia e o Fausto também vão...
– Vamos todos e estamos preparados com camas portáteis, aquecedores de biberões para o carro... A nossa vida é isto. Claro que o Fausto vai ter as rotinas de que um bebé precisa, mas vai ser uma criança diferente das outras, porque queremos que nos acompanhe. Eu e a Sónia sentimos que a nossa cumplicidade e a nossa relação são muito fortalecidas por nos acompanharmos um ao outro nas nossas tours e também queremos viver isso com o Fausto.
– Como é ver a Sónia no papel de mãe?
– É ótimo e eu já lhe chamei a supermãe, porque ela tem uma dedicação fantástica. O instinto maternal é uma coisa extremamente doce. A Sónia é uma mulher à antiga, quando gosta, é capaz de morrer por outra pessoa, quando não gosta, saiam do caminho dela! Eu estava muito curioso para ver não só como era o Fausto, mas também para ver a Sónia no papel de mãe. E ela é e vai ser uma excelente mãe. A Sónia é extremamente cuidadosa e metódica, mas também tem o lado maternal, do amor, do carinho e do compromisso muito forte.
– Percebe-se que o Fausto é um filho muito desejado...
– Sim, sem dúvida! Quando eu e a Sónia nos conhecemos falámos logo disso! Entretanto, tínhamos as nossas carreiras, mas estamos juntos há três anos, que têm sido extremamente intensos, e já temos um filho!
– Fausto não é um nome muito comum...
– Eu gosto e a Sónia não se opôs. Gosto de bebés com nomes fortes. As pessoas dizem que ele vai ser gozado na escola, mas espero que não! Se não vou lá vestido de lobisomem [risos]! Acho que é um nome nobre e com alguma pompa. E eu gosto porque tem que ver com a literatura, com a personagem do Fausto, que existe em muitos livros e cuja história é de amor, de sacrifício e de salvação da humanidade. E é o nome de um artista português de que eu gosto muito.
– Só por curiosidade, o que é que os membros de uma banda de metal oferecem a um bebé?
– Temos de tudo e já nos ofereceram coisas engraçadas! Os Moonspell tem babygrows e babetes – são os Moonbabies –, mas ofereceram-nos roupas a dizer ‘I am the future of metal’ [sou o futuro do metal], ‘My dads tattoos are better than yours’ [as tatuagens do meu pai são melhores que as do teu], ‘Talk to my agent’ [Fala com o meu agen­te], umas baquetas personalizadas... Já tem umas coisas giras!

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