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Natalia Juskiewicz: Uma violinista polaca apaixonada pelo fado

A artista nasceu em Koszalin, na Polónia, e toca violino desde os sete anos. Foi durante uma viagem que fez com os pais a Portugal, há 12 anos, que se apaixonou pelo país que hoje diz ser a sua casa.

Marta Mesquita
28 de abril de 2012, 10:00

Há dois anos, Natalia Juskie­wicz apresentou o seu violino ao fado e o resultado deste encontro inesperado é o projeto Um Violino no Fado, que já deu origem a um disco com o mesmo nome, editado no início deste ano.
A violinista nasceu na Polónia, mas há 12 anos escolheu fazer de Portugal a sua casa. Feliz com esta opção, Natalia nunca sentiu que a terra do fado fosse um país demasiado pequeno para os seus sonhos e pretende continuar a viver e a tocar por cá.
Foi sobre a sua paixão pela música e pelo nosso país que a CARAS conversou com Natalia, que ‘canta’ com as cordas do seu violino as mais tradicionais músicas do fado.
– Como é que o violino entrou na sua vida?
Natalia Juskiewicz
– Comecei a tocar violino aos sete anos, na Polónia. Lá, as crianças começam a sua educação musical nessa idade. Não foi planeado, mas acredito que nada acontece por acaso.
– E percebeu logo que queria ser violinista profissional?
– Na Polónia, o ensino da música prepara-nos para uma vida artística profissional. O processo de aprendizagem é rigoroso e muito coeso. Aprender um instrumento é visto como algo exigente e nunca é encarado como uma brincadeira. E, de alguma maneira, as crianças perdem um bocadinho da sua infância por isso. Fiz todo o percurso escolar e formei-me em violino clássico.
– Sente então que foi criança por pouco tempo?
– Sim, acho que perdi um bo­cadinho da minha infância, porque tinha muitas aulas, atuações... Mas foi algo muito natural e tem muito a ver com a forma como encaramos a educação na Polónia.
– Nunca pensou seguir outra profissão? Não tinha outros sonhos?
– Não, estudei para ser violi­nista e é o que me apaixona.
– E como é que uma violinista polaca vem parar a Portugal?
– Sempre fui uma apaixonada pelas viagens. Adoro viajar! E um dia vim com os meus pais a Portugal. Estivemos cá uns dez dias e fiquei maravilhada, sobretudo com a forma muito calorosa e aco­lhedora com que os portugueses recebem. Senti um chamamento muito forte para vir morar para cá. Meses depois de ter vindo com o meus pais, recebi uma proposta de trabalho. Já tive a oportunidade de trabalhar com várias orquestras portuguesas, o que me permitiu conhecer todo o país. Fui muito bem recebida em Portugal e é aqui que me sinto em casa.
– E o que é que a faz sentir em casa cá em Portugal?
– Já me tornei uma ‘portulaca’. Percebi, desde o início, que há muitas proximidades entre as mentalidades portuguesa e polaca e nunca me senti uma estranha cá. Claro que tive de me habituar a algumas diferenças... Nós, polacos, somos mais rigorosos e mais tensos do que os portugueses. Às vezes até somos muito perfeccionistas. Cá, tive de me habituar a viver num ritmo mais lento e a ser mais descontraída. Aprendi que tenho de deixar a vida fluir mais e não ser tão stressada.
– Fala muito bem português. Foi difícil aprender a nossa língua?
– Sempre adorei ouvir falar português! Não tem nada a ver com o polaco e ao início não julgava possível aprender a falar português. Mas com a televisão e com a ajuda dos amigos, aprendi. Adoro a melodia desta língua!
– Está cá há 12 anos. Nunca pensou ir para outro país onde houvesse mais oportunidades profissionais?
– Não. Tenho tido uma vida profissional muito rica. Colaborei com várias orquestras e sempre tive liberdade para participar em vários projetos. Durante um ano também dei aulas de Musicologia e de História da Música, no Ensino Superior... Nunca senti que estava instalada numa rotina e sempre tive a possibilidade de me envolver em várias atividades musicais.
– Editou recentemente o seu primeiro disco, que se chama Um Violino no Fado. Como nasceu a sua paixão pelo fado?
– Nasceu quando eu e os meus pais, na nossa primeira viagem a Portugal, fomos a uma casa de fados em Alfama. Não conseguia perceber o que se dizia no fado, mas sentia a beleza dos sentimentos e isso tocou-me profundamente. Já tinha ouvido fado na Polónia, quando vi um concerto do Carlos do Carmo na televisão. E lembro-me perfeitamente de que ele conseguiu levantar uma plateia repleta de polacos que cantavam o Lisboa, Menina e Moça.
– Estes 12 anos de espera fo­ram importantes para conhecer melhor o fado?
 
– Sim, claro. O disco foi editado recentemente, mas o projeto Um Violino no Fado tem dois anos e já tinha sido apresentado em concertos. Pre­cisei de todos estes anos para amadurecer, para ter experiência de vida e para conseguir transmitir todos os sentimentos de uma forma mais verdadeira. Para mim, o fado é a mistura de todos os sentimentos e não fala apenas da melancolia e da nostalgia. Também tem muito do amor e da paixão, que é a face mais colorida do fado e que tento transmitir nos meus espetáculos. Neste projeto, a voz do fadista é substituída pelo som do violino, o que torna o fado ainda mais universal. Foi a minha forma de homenagear todas as vozes fantásticas do fado com as cordas do meu violino.
– Mesmo nos seus espetáculos, a Natalia opta por visuais coloridos e modernos em vez do tradicional xaile preto...
– Sim, porque em palco também quero transmitir esse lado mais colorido do fado e a minha estilista, Cristina Lopes, ajuda-me nisso. Também uso vestidos pretos, mas gosto de os intercalar com  modelos originais e modernos com os quais me identifico.
– Como é que os fadistas mais tradicionais têm visto este projeto?
– Desde o início do projeto que tive boa aceitação dos fadis­tas mais tradicionais, o que me encorajou a avançar com o disco. Não sou portuguesa e foi um certo atrevimento da minha parte substituir a voz pelo violino! Com Um Violino no Fado já recebi o Prémio Projeto Revelação, na XVIII Gala de Leiria, e atuei ao lado de grandes nomes do fado na VI Gala Amália, o que, para mim, são provas de que o projeto é bem aceite.

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