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Padre Marcelo Rossi: “A fé é a prova das coisas que não se vêem”

Referência para os brasileiros, o padre Marcelo Rossi é um fenómeno editorial: o seu mais recente livro já vendeu quase oito milhões de exemplares.

Rita Ferro
22 de abril de 2012, 14:00

O maior sucesso editorialde sempre no Brasil – tirando, claro está, a Bíblia – é o livro de um padrecatólico. Mas não de um padre comum: o padre Marcelo Rossi é umareferência para os brasileiros e o sucesso deste seu último título, Ágape,com quase 8 milhões de exemplares vendidos até ao momento, com­prova-o. A obra,que já chegou a Portugal e constitui um bálsamo nestes tempos de angústia eturbulência, fala de amor, tolerância e perdão, e propõe interpretações doEvangelho de São João. Ex-pro­fes­sor de Educação Física, formado também emTeologia e Filosofia, cantor, apresentador de televisão e personalidadedistinguida pelo Papa Bento XVI, o padre Marcelo Rossi consegueregularmente grandes proezas: em 2008, por exemplo, reuniu 3 milhões de fiéisno Autódromo de Interlagos, no Brasil. Muito alto, tímido e sereno, e com umaatitude de grande humildade, Marcelo Rossi – cujo apelido materno é Mendonça,um nome bem português – esteve entre nós e recebeu Rita Ferro para uma conversainformal, depois de ter oferecido a cada senhora da equipa da CARAS umapulseira de pérolas com duas medalhas da Virgem Maria. “Com que idade foichamado, senhor padre?”, perguntou-lhe a nossa entrevistadora. “Aos oitomeses, ainda na barriga da minha mãe, num dia de temporal. Como ela tinha opavor de temporais, consagrou-me naquele mesmo dia a Nossa Senhora.”
– Como vê Deus, padre Marcelo?
– Antes de tudo, há que ter uma atitude de abertura aos sinais da verdadepresentes no mundo e na História. Neles, o próprio Deus oferece uma maravilhosadocumentação, que se chama Revelação, na qual o reconhecemos como o Paide Jesus Cristo, pre­sença do amor e da misericórdia divina entre nós.
– Acredita em milagres?
– A crença em Deus significa crer em sua ação na história, mesmo fora do cursohabitual das coisas. Os milagres expressam a Providência divina e marcam, comsinais sobrenaturais, a vida humana.
– Como explicar a quem não tem fé, e mesmo aos que a têm, que umas vezesDeus interfere e outras não?
“Deus não quer o mal como tal”. Porém, em vista da dignidade humana, “Deuspermite o mal”, pois é desejo seu que, no mundo criado, haja liberdade.
– A fé é um privilégio? Se afirmativo, a aparente injustiça começa logoaí...
– Dom concedido por Deus a todo o ser humano, a fé lhe permite aceitar ereconhecer a verdade comunicada por Ele. Pois “fé é garantia do que seespera e a prova das coisas que não se vêem” (Hb 11,1).
– Associamos a sua imagem à alegria. A alegria depende da felicidade?
– A alegria é um sentimento, mas, sobretudo, uma atitude interior. S. Franciscode Assis a compreende como paz ou serenidade, diríamos felicidade, que oleva a cantar a natureza, chamando as criaturas de irmãos e irmãs.
– O padre Marcelo é uma pessoa amada, lida e aclamada por milhões – como seprotege da vaidade e da soberba?
– A meditação sobre a vida, com seus limites e abertura à sublimidade divina,leva-me constantemente ao encontro da minha pequenez. Com Santo Agostinho,exclamo: “Eu, pequena porção de vossa criatura.”
– Da última vez que estive no Brasil, achei pornográfica a quantidade deprogramas de TV que prometem a cura, simulam milagres e promovem a extorsão debens aos mais desfavorecidos, de onde se depreende que as televisões se vendema estes canais. Há alguma autoridade ou observatório no Brasil que se preocupecom este escândalo? Vejo pouca gente insurgir-se contra isto, como se fosse umcaso perdido...
– O esforço da Igreja no Bra­sil, particularmente da CNBB, é grande. Procura-seformar a consciência dos cristãos, para que possam, por eles mesmos, escolher ecriticar o que fazem e ao que assistem. A consciência é uma espécie de guia daação, que ilumina o acto humano e o posiciona diante do bem e do mal.
Ágape é o nome do seu último livro, com quase oito milhões decópias vendidas, e o nome significa amor incondicional ou amor sem limites –conhece algum humano que o tenha conseguido, além de Deus feito homem? Como sepode amar quem nos faz mal, por exemplo? Pode-se perdoar, o que já é amor, masamar?
– O “ágape” é o amor de Deus comunicado por Jesus a todos nós. Uma vidatoda e a própria eternidade estão diante de nós para crescermos sempre mais noágape, amor a Deus e aos nossos semelhantes. O ideal é indicado por Jesus noEvangelho: “Amai-vos uns aos outros, como eu vos amei. Amai vossos inimigos,rezai pelos que vos perseguem.”
– No prefácio, Gabriel Chalita diz que o mal não pode vencer o bem, mas averdade é que vence e por vezes até em pessoas que, regra geral, não sãoconsideradas más. E a genética? E a orgânica? E o sistema nervoso? Não sãocoisas que independem da fé e que por vezes a derrotam?
– Muitas palavras da Sagrada Escritura reforçam nossa convicção de que, noplano da criação, o mal está subordinado ao bem. “Bem” é viver emcorrespondência à verdade, presente em toda criatura, fiel aos planos de Deus aseu respeito. Desviar-se de sua verdade, segundo Deus, leva-a ao acto mau quese opõe à razão.
– Faz televisão e rádio diariamente e tem uma já grande carreira musical –tem sofrido críticas de facções mais ortodoxas da Igreja.
– As críticas que porventu­ra possam ter surgido sempre foram construtivas e,no diálogo com o meu bispo, ajudaram-me a progredir no ideal, indicado peloPapa Bento XVI, de evangelizar através dos meios de comunicação.
– Como interpreta a falta de fé que se observa hoje em dia, e, noutro plano,a falta de vocações religiosas?
– Diria que, em nossos dias, existe uma propensão para o relativismo ehedonismo que distorcem a compreensão do verdadeiro sentido da vida humana.Pois a vida só é verdadeiramente vida quando a realizamos no amor e na bondademisericordiosa do Senhor. E viver bem significa agir e pensar bem, de acordocom os princípios da razão iluminada pela fé.
– Portugal está a viver uma fase dramática, deixe-nos uma palavra...
– Portugal reside no coração dos brasileiros e tenho certeza de que o espíritoempreendedor e criativo o conduzirá à descoberta de novos horizontes,propiciando ao povo português mais paz, bem-estar e prosperidade. As bênçãos de Deus a todos os leitores.
Nota: por vontade da autora, este textonão segue as regras do novo acordo ortográfico

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