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Dalila Carmo: “Quando alguém se expõe é porque se sente muito sozinho na intimidade”

A morar em Madrid, onde trabalha o marido, Vasco Machado, a atriz vive uma fase profissional recheada de desafios. Um dos mais recentes foi dar vida a Florbela Espanca no filme homónimo.

Andreia Cardinali
7 de abril de 2012, 10:00

Dona de uma personalidade cativante, Dalila Carmo, de 37 anos, nunca se preocupou com o que os outros poderiam achar de si e sempre viveu a vida à sua maneira, com seriedade, muito trabalho e uma necessidade constante de estar consigo própria e com as pessoas que lhe são próximas. A viver entre Madrid e Lisboa, por amor ao marido, Vasco Machado, a atriz vive uma das melhores fases da sua vida, com a interpretação da poetisa Florbela Espanca, no filme Florbela, de Vicente Alves do Ó.
Discreta como sempre em relação à sua vida amorosa, a atriz conversou com a CARAS sobre a forma como tem vivido estes últimos dois anos entre Lisboa e a capital espanhola.
– Interpretar a poetisa Flor­bela Espanca deve ser um desafio exigente...
Dalila Carmo – Acima de tudo, foi uma experiência muito intensa de vida, a todos os níveis. Pelo projeto em si, pela mulher que ela foi, por todas as pessoas envolvidas no filme... Foi um projeto para o qual me preparei muito tempo e que fui amadurecendo. Esta personagem tinha tudo, desde a personalidade à vida dela... Tenho dito que tem sido o papel da minha vida, mas espero que não seja o último, pois existem não sei quantas mulheres extraordinárias para eu poder representar. Foi provavelmente a minha experiência mais compensadora. Ganhei uma amiga e vou ficar ligada a este projeto para sempre.
– Quando ia para casa tinha facilidade em deixar a personagem no plateau?
Ia tão cansada que já só queria dormir, não existia espaço para mais nada. Foram sete semanas em que não houve espaço para outra coisa que não fosse a rodagem e eu própria queria trabalhar nas folgas. Não conseguia desligar e queria continuar a trabalhar. Era uma coisa um pouco aditiva e se calhar até desequilibrada.
– Foi realmente esgotante?
Sim, foi física e emocional­mente esgotante. Todos os trabalhos o são e eu, feliz ou infe­lizmente, ainda não percebi, não consigo trabalhar e viver de outra forma e só por isso é que também tenho de dosear as coisas onde apareço e a forma como me exponho, pois as coisas têm efeitos muito extremos em mim.
– É assim em tudo na vida?
Sou assim em tudo, mas tenho aprendido a dosear as coisas.  Gosto de me resguardar na minha vida pessoal e tento contrariar alguns impulsos mais extremos. De uma forma geral, tento ter disciplina na forma como vivo o dia-a-dia e há hábitos de vida fundamentais para conseguir controlar essa intensidade, como ter horários, dormir e comer, não abusar de uma certa exposição... São coisas com as quais não lido muito bem. Para poder estar inteira nos meus trabalhos e relacionamentos pessoais, tenho de prescindir de uma série de coisas que só causam desgaste mas não são enriquecedoras a nível pessoal.
– É percetível, pelo menos a nível profissional, que escolhe muito bem tudo o que faz...
Sim... Gosto de dialogar, de pensar e estar preparada para entrar num projeto. Não tenho estrutura de máquina. Até certo ponto, considero-me um ‘todo-o-terreno’, consigo dar muito e tenho flexibilidade para chegar a certas zonas em pouco tempo, mas por uma questão de saúde mental e física, não posso não existir e trabalhar não existindo. É fundamental termos direito a essa nossa intimidade e espaço, pois é aí que vamos arranjar compensações para o resto. Eu não me compenso no resto, embora haja pessoas que o façam. Há pessoas que não se importam de não ter folgas e de sair das gravações para o teatro e do teatro para uma presença... Fazem tudo e arranjam compensações no próprio trabalho e no protagonismo. Eu não pertenço a esse grupo. Encontro-me no escurinho e no silêncio.
– Foi a maturidade que lhe trouxe essa forma de viver?
Sempre fui assim, só que no começo as pessoas interpretavam mal e agora já me percebem melhor. No início interpretavam como arrogância da minha parte, pois se eu fosse exibicionista, vaidosa, estivesse sempre a aparecer e fizesse um sorriso amarelo, as pessoas diziam que eu era muito querida. Como não tenho pachorra para muita coisa, achavam que eu me estava a armar e era inacessível. É uma forma de estar.
– Como lida com a instabilidade económica inerente à sua profissão?
Já faz parte. Tive o contrato com a TVI, que vai acabar e não vamos renovar por várias razões. Com esta vida entre Lisboa e Madrid, não lhes consigo dar determinadas garantias... É óbvio que a precariedade com que vivemos é um pouco difícil de gerir, mas acho que temos de ter consciência quando escolhemos este caminho e acho que esta profissão sem a vertigem e o abismo também não faz muito sentido.
– A sua carreira em Portugal está a seguir um novo caminho. Alguma vez se arrependeu de que o coração a tivesse levado para Madrid?
Claro que não. Obviamente tenho prescindido de muitos trabalhos que gostava de fazer, mas são prioridades que se têm na vida. Foi uma decisão muito ponderada e a carreira não é tudo. Não consigo viver só para fora, tenho de ter o meu espaço interior. Embora odeie esta itinerância e esteja um pouco farta deste vaivém, também preciso depois deste lado de cá. Quando estou lá, vivo muito mais desajustada e tenho de tentar conciliar a vida pessoal e o trabalho, e não é fácil acertar o passo entre os dois.
– Esse desajustamento tem a ver com o facto de lá viver mais o papel de mulher e menos o de atriz?
Nem tanto. Não vou aprofundar as questões da minha vida pessoal, mas nem sequer invisto muito nesse meu lado mais doméstico, pois recuso-me a ver-me com essa função. E, de uma forma geral, a mulher é também alguma coisa à qual eu estaria avessa e acho que não tenho muito talento para tal.
–  A sua ideia é conti­nuar neste rit­mo de viagens?
Para já, quero conciliar e até me sabe bem quando venho cá. Sinto falta de estar lá e fazemos sempre uma gestão do tempo à nossa maneira.
– Essa decisão não foi uma prova de amor para com o Vasco?
Acho que há ações que não se podem promover. Há coisas que não se partilham, pertencem-nos. Partilho o meu trabalho com as pessoas e posso até contar histórias da minha vida, mas os meus planos no presente, a curto e médio prazo, não posso partilhar assim.
– Essa é uma forma de se proteger?
Para mim, não existe outra maneira. Penso que quando uma pessoa se expõe de uma determinada forma é porque se sente muito sozinha na intimidade. Quando te proteges estás a proteger todos de quem gostas em teu redor. As pessoas de quem eu gosto não querem aparecer, nem falar, não gostam que se fale sobre elas e eu tenho de respeitar isso.
– A maternidade faz parte dos planos?
Claro que sim. São instintos que se desenvolvem.

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