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Luís Cohen Fusé: “A arte faz-te sentir que Deus olha para nós”

Nascido em Buenos Aires e com nacionalidade espanhola, o pintor Luís Cohen Fusé reside em Portugal desde 1982. Recebeu a escritora Rita Ferro em sua casa, no Estoril.

Rita Ferro
25 de março de 2012, 13:28

Luís Cohen Fusé é um pintor multifacetado, há muito conhecido dos portugueses. Além de quadros, tem feito um pouco de tudo: desenho de jóias, pintura mural em fresco e azulejo, escultura, etc. Obteve nacionalidade espanhola em 1976 e reside em Portugal desde 1982. Desde 1963, já participou em mais de 60 exposições individuais e colectivas na Argentina, Brasil, Venezuela, Bélgica, E.U.A., Espanha e Portugal. Nasceu em Buenos Aires, em 1944. Estudou cerâmica na Escola de Belas Artes de Mar del Plata (Argentina), formou-se em Arquitectura na Universidade Nacional de Buenos Aires e estudou gravura e litografia na Escola de Belas Artes de Barcelona. Em 1988, assinou contrato com a Galeria Vorpal de Nova Iorque. Participa em exposições em Nova Iorque, S. Francisco e Canadá. Está representado em diversas colecções públicas e privadas tanto em Portugal como no estrangeiro. É descontraído, bem-humorado e encantador. Recebeu-nos na sua casa do Estoril, onde nos esperava uma tortilla à espanhola preparada pela mulher, Rosário – digna de reis! – bem como um tinto inesquecível, queijo francês e chouriço assado.
– Comecemos pelo princípio...
– Tudo começa por uma viagem de graduação que fiz à Europa, por volta dos anos 70. Cheguei a Barcelona como arquitecto, onde  fiquei a morar vários anos, e foi ali que me fiz pintor a tempo inteiro e tive de optar entre a arquitectura e a pintura. Prevaleceu a segunda escolha. A nacionalidade espanhola foi uma decisão de ordem prática, era mais cómodo para me movimentar pela Europa,  já que, na realidade, sou e sempre serei porteño, ou seja, natural de Buenos Aires.
– E porquê Portugal?
– Como muitas coisas na vida, foi por mero acaso que cheguei a Portugal. Estava a morar em Madrid e fui convidado por uma galeria portuguesa para fazer uma exposição aqui. Fui ficando e já lá vão quase 30 anos...
– Que encantos nos encontras?
– Não sei enumerar os encan­tos de Portugal, pois são muitos e variados. Mas há uma característica nos portugueses que aprecio bastante: o seu temperamento calmo e tranquilo, e o saber esperar, essa sabedoria quase oriental. Também gosto da sua cordialidade e do seu espírito acolhedor. Sempre me senti muito à vontade nesta terra que tanto amo, especialmente do meu cantinho no Estoril. Gosto desta luminosidade, do mar e das pessoas.
– Vi a tua ex­posição no Cen­tro Cul­tu­ral de Cas­cais e achei a tua produção espantosa...
– Considero esta exposição no Centro Cul­tural de Cascais uma das melhores exibições de meu trabalho e tenho gostado muito de a fazer. Foi uma preparação árdua que demorou três anos e em que tive de fazer uma rigorosa selecção dos quadros. Em simultâneo, tenho outra exposição a decorrer no Porto, na Galeria Inter-Atrium, com obra também actual.
– Como é a tua rotina?
– As minhas rotinas são simples, só trabalho com luz natural. Levanto-me ao amanhecer, por volta das 5h30, e deito-me muito cedo. Em geral trabalho toda a manhã e parte da tarde, com um descanso para almoçar e uma pequena sesta. Trabalho todos os dias da semana sem excepção, já que neste momento estou numa fase muito produtiva e particularmente boa da minha criação.
– A ideia do pintor boémio, errático, indolente e desorgani­zado foi chão que deu uvas?
– Sou um artista plástico profissional, os adjectivos românticos só os uso para dar título a alguns de meus quadros. Na minha opinião o grande segredo de um artista fica resumido numa palavra: trabalhar.
– Estás um pouco conotado com a chamada ‘alta sociedade’, isso ajudou ou prejudicou?
– Rita, essa é uma pergunta que traz com ela muitas respostas, o meu apelido e família obviamente marcam a minha formação e as minhas relações sociais, mas acredito que o mais importante é a metodologia do trabalho e as decisões que tomo com ela; a sociedade pode ou não ajudar, mas o mais importante é o que tu queres fazer como artista.
– Mal chegaste foste imediatamente acolhido por um escol de artistas consagrados. Que recordações guardas da Maluda, por exemplo?
– Muitos dos meus melhores amigos são portugueses, alguns lamentavelmente já não estão entre nós. A Maluda é um desses amigos, querida colega, inteligente, talentosa e com grande sentido de humor, sempre tivemos uma relação muito forte e compartilhámos momentos muito bons. Era, além do mais, uma pessoa muito culta e tivemos longas conversas sobre a vida em geral e a arte em particular. Tenho muitas saudades dela.
– Espanta-me a diversidade da tua produção: estas telas que vemos em tua casa já nada têm que ver com estes novos quadros que expões agora, de inspiração oriental. E pelo que vejo neste cavalete, a tua próxima série já será totalmente diferente. Alternar géneros tão diferentes não te descaracteriza enquanto pintor?
– Rita, na realidade não são géneros diferentes, a essência continua a mesma, a linguagem pictórica é a mesma. O que muda é a técnica que, com a passagem do tempo, vai-se amadurecendo e aperfeiçoando. Os temas que uso ao longo das minhas séries de pinturas podem resumir-se em poucas palavras: a mulher e a paisagem. O princípio feminino sempre me marcou e fascinou por ser tão distinto de mim enquanto homem, é como tentar  encontrar o nosso oposto e tentar plasmá-lo na tela. No referente ao tema paisagístico, é um pouco como tentar encontrar o paraíso perdido.
– Qual o teu maior receio, enquanto artista?
– Cair na monotonia, na repetição, na preguiça.
– É sabido que a crise tem afectado o comércio de arte, em geral. Como estás a sentir o abandono da arte em prol do utilitário? Assusta-te esse panorama?
– As crises servem geralmente para pôr as coisas no seu lugar, limpar valores e repor fundamentos. Penso que esta era necessária, pois vivemos em tempos excessivamente materialistas, perdendo de vista certos valores éticos fundamentais que temos que reencontrar, já que sem eles nada somos. Este é um panorama geral e o mundo da arte não escapa a esta visão, mas penso que vamos sair mais fortes desta crise.
– O que mais te inspira? Ou tudo te inspira?
– Não sei bem como responder... Tudo? Algumas coisas? Depende do tempo, das pessoas, de tantas motivações...
– Reparei numa coisa: nem tu nem a tua mulher têm carro e não parece fazer-vos falta, foi opção?
– É sem dúvida uma opção, sinto-me e sou um peregrino, caminhar dá sentido à minha vida. Como dizia o grande poeta espanhol António Machado “Caminante no hay camino, se hace camino al andar.”
– Van Gogh dizia que Deus está na obra dos grandes mestres, embaraça-te a frase?
– Deus não está só nos “grandes Mestres”, Ele está no todo, Ele é o absoluto.
– Enquanto artista: que sonho ainda não realizaste?
– Expor no MOMA de Nova Iorque, no Rainha Sofia de Madrid, no Pompidou de Paris, etc., etc.
– Sabendo o que sabes hoje, que conselho darias a um jovem pintor?
– Nunca desistir, trabalhar duro e, fundamentalmente, ter ética em tudo o que fizer.
– O gosto é sempre subjectivo ou existe um ‘bom gosto’ universal?
– Acredito que o gosto é sempre subjectivo e há que prestar atenção para não se cair em maniqueísmos – branco/preto, bom/mau, quente/frio.
– O que distingue a Arte da coisa?
– Penso que a ARTE faz-te maior, dignifica-te e faz de ti mais consciente da tua própria identidade como ser humano. ARTE (com letra grande) faz-te sentir que Deus olha para nós.
Nota: por vontade da autora, este texto não segue as regras do novo acordo ortográfico

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