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Simone de Oliveira garante: "Olho para trás com uma grande saudade do amanhã"

Aos 74 anos e a comemorar 55 de carreira, que lhe valeu um Globo de Ouro de Mérito e Excelência este ano, a artista continua a dedicar-se à música e à representação.

Andreia Cardinali
17 de março de 2012, 10:00

Simone de Oliveira não necessita de apresentações. Aos 74 anos, continua a ser uma figura incontornável da música e da representação em Portugal. Dona de uma sensibilidade extrema, Simone tem o dom de falar com o coração. Por isso, e com mais de meio século de carreira, nada ficou por fazer nem por dizer, embora garanta que ainda há muito pela frente e que só se sente feliz a trabalhar e a ser desafiada com novos projetos. Foi sobre os 55 anos de carreira, que comemora este ano, e sobre as alegrias e tristezas que a vida lhe trouxe, que conversámos com a artista num final de tarde descontraído.
– Como foram estes 55 anos?
Simone de Oliveira –
Com tudo: nascimentos, mortes, choro, riso... Ter filhos, ter netos, perder os pais, perder o marido... Ter prémios, não ter... Ter camarim e não ter... Gostarem de mim e não gostarem... Tem sido tudo!
– Mas foram maioritariamente positivos...
Com certeza que sim. Tenho uma grati­dão enorme para com a vida e para com as pessoas. Gosto um bocadinho de mim... Sinto-me orgulhosa e tenho uma certa vaidade nas minhas escolhas.
– Costuma recordar e analisar o passado?
Não. Quando olho para trás, faço-o com a suavidade que os meus 74 anos me dão. A vida foi correndo com umas opções certas, outras mais erradas, mas olho para trás com uma grande saudade do amanhã e uma enorme vontade de viver.
– Aos 19 anos, teve uma depressão, cujo tratamento a levou a cantar...
Não falo disso, foi uma fase muito difícil. Foi só por isso que comecei a cantar, algo em que nunca tinha pensado. Tinha de ir ao centro de ocupação de artistas da rádio passar três horas por dia, para ver se melhorava, e, desde então já passaram 55 anos... Nunca mais fiz outra coisa na vida que não seja cantar, representar, apresentar, conversar...
– Naquela altura, não era uma profissão bem vista. Teve o apoio da sua família?
Julgo que eles nunca acreditaram que este fosse o meu caminho. Pensaram que era um período de transição. Tenho pena que a minha mãe, depois de eu ter perdido a voz, a seguir à Desfolhada, não me tenha ouvido cantar. Mas apoiavam-me. Tive uns pais brilhantes... Como toda a gente sabe, eu tive filhos sem ser casada, o que naquela altura não era bem visto... e sempre me apoiaram. Eu tive “os” pais.
– Sendo tão agradecida aos seus pais, conseguiu ser a mãe que queria ter sido?
Fui a mãe que pude ser... Com algumas falhas, mas eu e os meus filhos já falámos sobre isso o suficiente para que o assunto esteja sanado. Estive ausente por questões profissionais, porque os meus filhos sobreviveram comigo e não com o pai, embora ele esteja vivo. Ou trabalhava para ganhar dinheiro para nós, ou não! Já lhes pedi as desculpas todas e temos uma relação intensa, credível, sã e sem raivas. Penso que sendo uma família desestruturada, como diz o meu filho, somos muito mais estruturados do que as famílias-protótipo.
– Esse pedido de desculpas, foi uma necessidade sua?
Sim, de pôr alguns pontos nos is. Eles cresceram como filhos da Simone de Oliveira e isso não lhes foi fácil. Sempre fui criticada, julgada, mas todas essas coisas também fizeram com que me sinta mais feliz por estar onde estou.
– Como avó, tem sido mais presente?
Muito presente. Mas não sou a típica avó, sou o menos tradicional possível. Tenho uns netos ótimos...
– De tudo o que já passou, o que é que a marcou mais?
A primeira grande machadada foi a morte da minha mãe, pois foi repentino. Foi horrível! Depois foi o meu pai e anos mais tarde o Varela [Cid]. Foi muito penoso, doloroso, amargo. Tenho muitas saudades dele!
– Como se lida com as saudades?
Já passaram 16 anos e é uma pessoa que está normalmente ao meu lado. Falo muito com ele. A idade traz um baú de recordações que às vezes é difícil de fechar e arrumar, sobretudo quando se vive sozinha, como eu.
– Como lida com a solidão?
Viver sozinho nunca é confortável, não posso dizer que gosto. Mas não há outra hipótese...
– Mas poderia refazer a sua vida...
Deus me livre, nem pensar! Tenho lá paciência para isso! Vivi com um homem inteligente, culto, apessoado... Não!
– E como lida com o avançar da idade?
Aceitando e dando uma gargalhada. Aceito como aceitei os problemas oncológi­cos e todas as outras coisas.
– Teve um segundo cancro da mama há quatro anos...
Sim, estou à espera que faça os cinco anos para respirar de alívio. Tem corrido tudo muito bem, a vida tem sido ótima para mim.
– Entre a representação, a música e a apresentação, o que lhe faz mais falta?
Há dez anos comecei a pensar que teria de aprender a viver sem palmas, mas que até hoje continuam. Quando tiver de ser, não vou dramatizar. Não quero morrer no palco. Continuo a fazer espetáculos e espero fazer um disco este ano, ‘the last for the road’.
– Há pessoas que chegam à idade da Simone e estão resignadas com o final da vida. Não é o seu caso...
Isso é um tédio, jamais saberia viver assim. Posso estar mal dois ou três dias, mas isso depois cansa-me e dou a volta.
– Mas pensa na morte?
Penso e não me apetece nada [risos]. A vida é tão boa...

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