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Marcantónio del Carlo e Marta Nunes: "É uma luta diária cada um abdicar de si próprio e nós temos conseguido"

A atriz é mãe de uma menina, Salomé, de dez anos, que o ator trata como se fosse sua filha e confessa que o ‘adoça’ ainda mais que a mulher.

Cristiana Rodrigues
11 de março de 2012, 10:00

O encontro está marcado para a Ericeira. Marcantonio del Carlo chega em cima da hora. Tem uma expressão séria, arriscaríamos até dizer que tem um ar duro. De repente, tudo muda no seu semblante. Marta Nunes aparece e o rosto do ator e encenador, de 46 anos, ganha um sorriso e o olhar demonstra felicidade. Junto da atriz, de 31 anos, Marcanto­nio revela o seu lado mais doce e quando o confrontamos com essa impressão confessa-nos que a filha de Marta, Salomé, de dez anos, que trata como se fosse sua, o adoça ainda mais.
Casados há quase dois anos e juntos há mais de cinco, Mar­cantonio e Marta preparam-se para partilhar o palco na peça Actos de Amor. O ator terminou recentemente as gravações da novela Remédio Santo e a rodagem de dois filmes: Primeira Missa, de Ana Carolina Torres, gravado no Brasil, e Miel de Naranjas, de Imanol Uribe, rodado em Espanha. A isto junta-se Operação Outono, de Bruno de Almeida, no qual dá a voz à personagem de Humberto Delgado, interpretada por John Ventimiglia. Os três filmes vão a Cannes.
– Qual tem sido o maior desa­fio da vossa vida em comum?
Marcantonio –
O difícil numa relação é as pessoas conseguirem abdicar de si próprias e essa é uma luta diária. Nós temos conseguido fazê-lo.
– Terem tido a experiência de casamentos que não deram certo faz com que invistam mais nesta relação?
Marta –
Entrei nesta relação como se fosse a primeira, quase como se fosse o meu primeiro beijo. Claro que a idade nos permite não incorrer nos mesmos erros, mas também nem sempre isso é possível...
– Acham que a exposição pú­blica prejudica a vida privada?
Não, nunca permitiria que o mediatismo prejudicasse a nossa relação.
Marcan­to­nio – As revistas, as agências, as novelas, tudo isso deve ser encarado como uma indústria e quem não quer entrar nesta indústria não entra. Se alguém publicar uma foto minha ao lado de uma mulher ou da Marta ao lado de um homem isso só vai interferir na nossa vida se em casa não estivermos bem, se a relação já estiver estragada. Não é uma revista que vai prejudicar a relação. Tal como se eu não quiser falar da minha vida pessoal não falo. Não preciso de armar-me em difícil. Se me perguntar, por exemplo, se estamos a pensar ter mais filhos eu simplesmente não respondo...
– Vou aproveitar a deixa. Não ter filhos será uma lacuna na sua vida?
[risos] De todo. Para mim a Salomé é uma filha. Por isso, nós temos uma filha em comum, que eu adoro. No início da relação pensámos em ter um filho – e não quer dizer que não tenhamos –, mas é tão bom desfrutarmos da Salomé e ela é tão absorvente que por agora não está nos nossos horizontes.
– É uma fase difícil, exigente, a dos dez anos?
Se é... As minhas prioridades são infimamente menos importantes que as prioridades da minha filha e as minhas atenções estão centradas nela. Está na pré-adolescência, e claro que vai formar a sua própria personalidade, mas se não estivermos atentos, pode vir a ser uma coisa completamen­te diferente e os culpados vão ser sempre os pais.
Marta – Começamos a sentir que, independentemente da educação que damos, dos contextos que lhe proporcionamos, que ela começa a afirmar-se. É de facto uma fase complexa, mas muito interessante. De repente a Salomé tem vontade própria, dá opiniões, ideias... Com os nossos projetos profissionais, com os nossos horários, ter mais um filho nesta altura não ajudava nada.
– Trabalham juntos e na peça Actos de Amor não só contracenam como formam par amoroso. Têm receio de que a realidade se confunda com a ficção?
Marcantonio –
Quando estamos a representar esquecemo-nos disso. Conhecemo-nos bem, não só do ponto de vista sentimental, mas também sabemos bem o que cada um de nós defende a representar, portanto, é um jogo também muitas vezes de força, porque eu tenho também o papel ingrato de encenar e não é bem um choque, mas sei muito bem o que vai sair dali.
– A Marta também é assim tão racional?
Marta –
Não. Realmente a perspetiva do Marcantonio é muito racional e muito mascu­lina. No dia dos espetáculos não me passa pela cabeça que é o meu marido que está ali, mas nos ensaios nem sempre consigo distanciar-me e tenho um cuidado redobrado, porque não quero errar à frente dele, não quero sentir-me fragilizada, quero ser perfeita. Às vezes é preciso fazer uma ‘cara feia’, dar um grito, despentear os cabelos e é ele que está a olhar para mim. Está sentado a ver-me feia, de calças de fato de treino... É-me mais fácil fazer tudo isto com um ator que não conheço do que com a pessoa que amo.
– Os atores estão sempre a representar? A vida é um palco?
Um ator saudável, equilibrado e feliz não está sempre a representar... Se no dia-a-dia não conseguirmos ser verdadeiros, então as coisas não estão muito equilibradas.
Marcantonio – As pessoas têm tendência a idealizar os atores. Nós somos pessoas como as outras com uma pequena diferença: a maior parte das pessoas escon­de-se atrás de uma máscara e nós saímos da máscara. Se eu tiver de chorar numa cena, choro, as outras pessoas, quando choram, muitas vezes querem esconder-se para que ninguém as veja. A mim dá-me grande prazer chorar, tal como rir.
– É um trabalho terapêutico...
Sim, profundamente terapêu­tico. O [ator e encenador] Mário Jacques dizia que os atores são as pessoas mais saudáveis do mundo, nomeadamente os que fazem teatro...
– Porque exorcizam os sentimentos?
Nós fazemos terapia e não pagamos. Depois, fora da personagem, temos exatamente os mesmos problemas que toda a gente.
– Dizia que há pessoas que idealizam os atores e os que fazem televisão, em particular, tornam-se mais mediáticos...
Há pessoas que depois de conviverem comigo dizem que sou uma desilusão e há outras que odeiam ver-me na televisão. Alguns pensavam que eu era chato e insuportável e depois acham que sou um gajo porreiro.
– E com o que é que se identifica mais? Com o ‘gajo porreiro’ ou com o ‘insuportável’?
[risos] Sei é que gosto de viver a vida calmamente, odeio que me chateiem a cabeça e por isso fujo a sete pés do que me chateia. Gosto de estar tranquilo no meu meio... E não mudei uma vírgula na minha vida desde que faço televisão. Sou recatado por natureza.
Agradecemos a colaboração de Gant, Hotel Vila Galé-Ericeira e Pentibel Beauty Lounge – Ericeira

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