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Pilar del Río: “A vida roubou-me de um só golpe mais uns dez anos com o meu marido”

A viúva de José Saramago, que preside a Fundação com o seu nome, contou como foram os 24 anos que partilhou com o Prémio Nobel da Literatura, que morreu em junho de 2010.

Marta Mesquita
4 de março de 2012, 10:00

Pilar del Río, jornalista espanhola, estava numa livraria quando se encontrou com as palavras de José Saramago. Apaixonou-se pelo génio do escritor e veio a Lisboa, onde acabou por conhecer o homem. Bastou um aperto de mão e umas horas de conversa para ficar com “a certeza absoluta de que algo ia acontecer entre nós.” Depois deste encontro, começou uma história de amor que durou 24 anos. Da mulher que o conquistou em 1986, e que era quase 30 anos mais nova, Saramago disse: “Se eu tivesse morrido antes de te conhecer, Pilar, teria morrido sentindo-me muito mais velho.” A 18 de junho de 2010, aos 87 anos, o escritor morreu, deixando de “estar” ao lado da mulher que amou e que lhe deu “ideias para a vida”, como partilhou no filme José e Pilar.
Pilar abriu as portas da Casa dos Bicos, futura sede da Funda­ção José Saramago, a qual preside, e recordou como foi viver ao lado do escritor português.
– O que sente quando vê a futura sede da Fundação José Saramago praticamente pronta?
Pilar del Río
– Este projeto  é uma intervenção na cidade que me enche de satisfação, de orgulho e de pavor. O espólio de José Saramago e tudo o que vai acontecer aqui vai transformar toda esta zona ribeirinha. Quando abrirmos o espaço ao público, na primavera, vamos ter uma grande exposição em que se pode ver a semente e o fruto da vida de uma pessoa humilde que queria ser escritor e trabalhou muito. Vamos ter conferências, debates, reuniões, apresentações de livros... Vai ser uma casa aberta aos cidadãos com muitas atividades relacionadas com a cultura e com o pensamento. Queremos que seja um lugar vivo. O meu marido tinha muitos sonhos para este sítio e, por isso, decidimos pôr as suas cinzas diante de Os Bicos. Não podia ser em outro lugar de Lisboa... Este espaço foi o seu último sonho.
– Ainda há mais livros ou textos soltos de Saramago por publicar?
– Não. José Saramago foi escrevendo e publicando. O Claraboia [livro escrito na década de 50 e publicado o ano passado] saiu agora em Espanha, em Itália e creio que é uma porta de entrada à obra de Saramago. Este livro foi um presente que ele nos deixou.
– O facto de Saramago conti­nuar a ser recordado atenua a dor da perda?
– Não creio que assim seja. José Saramago dizia que morrer era estar e já não estar. E ele já não está. Saramago continua como escritor, intelectual, quem não está é José e isso é um assunto pessoal, privado, intransmissível.
– Alguns crí­ticos diziam que havia um Saramago antes e depois de Pilar. É verdade?
– Não. No plano literário, há um José Saramago em Claraboia e que continuou presente em toda a sua obra. No campo pessoal, claro que com a convivência nos transformamos uns aos outros. Penso que o meu marido me tornou mais contida, algo que é difícil, e eu ajudei-o a ser uma pessoa mais expansi­va. Fomos duas pessoas distin­tas que se encontraram. Mas há um só José Saramago, Levantado do Chão por si só e apenas por si!
– No filme José e Pilar vê-se por diversas vezes o seu marido a chamar por si. Havia uma dependência saudável entre vocês?
– Não. Tínhamos um saudável companheirismo. Éramos camaradas, companheiros, amigos, comentávamos tudo... Não é frequente existir uma relação entre duas pessoas que se encontraram quando já são maduras e que sabem aquilo que é importante e o que não tem importância nenhuma. Era um homem que não era vulgar, era excecional em todos os aspetos.
– Li que depois do seu primeiro encontro com Saramago saiu de lá com a sensação de uma ‘estranha paz’. Já era alguma intuição?
– Não gosto de falar de intuições ou de magias... Mas sabia que algo se ia passar e estava preparada para isso. Tinha a certeza absoluta de que algo ia acontecer entre nós. Simplesmente sabia, tinha de acontecer.
– A Pilar expressou sempre as suas opiniões e por vezes foi duramente criticada. Nunca se sentiu magoada por isso?
– Não. Podem dizer o que quiserem sobre mim. Agora, quando se tratava de interpretações ma­liciosas e falsas, com muitas falhas de informação sobre o meu marido, aí sim, importava-me e portava-me como uma loba!
– Era muito protetora em relação ao seu marido?
– Não. Sou jornalista e consi­dero que o único elemento que temos para nos defendermos é a honestidade. Vi muitos preconceitos em relação ao meu marido e por parte de alguns que dizem ser jornalistas. Eu sou uma defensora do jornalismo sério.
– Nos 24 anos que passaram juntos ficou alguma coisa por fazer? Tem arrependimentos?
– Podia arrepender-me de algumas coisas, mas não vale a pena pensar nisso. Depois de terminar aquele que seria o seu último livro, iríamos ficar na bibliote­ca, sentados, a ler, tranquilos, a desfrutar do nosso espaço e dos cães. E isso foi-me roubado. Sinto que a vida me roubou de um só golpe mais uns dez anos com o meu marido. Agora já não nos podemos sentar na nossa biblio­teca. Se ele não se sentou, eu também não o vou fazer!
– É por isso que está tão empenhada em perpetuar o nome e a obra de Saramago?
– Se não o fizesse não seria digna de estar onde estou. Por isso, tenho de continuar a trabalhar e a militar nesta fundação. Seria muito mais cómodo ficar em casa, como dizia o Fernando Pessoa, a “contemplar o espetáculo do mundo”, e eu podia ter ficado no sofá a viver tranquilamente, mas não quero! Podia ter tido uma vida de placidez, mas tenho uma vida de trabalho, porque é isso que devo à sociedade. E o meu marido escreveu até morrer! Ele trabalhava todos os dias e não abdicava da sua capacidade de intervenção cívica.
– José Saramago vivia para a escrita ou era um homem que tinha como prioridade os afetos?
– A sua prioridade não eram nem os afetos, nem os amigos, nem a família. Saramago não tinha pequenos sentimentos burgueses... É difícil de entender... Claro que tinha família, amigos e uma mulher, mas a sua dimensão era outra. Era um pensador e alguém que intervinha. Era Saramago por si mesmo. E militava em função das ideias.
– Depois de o seu marido mor­rer, tornou-se cidadã portuguesa. Porquê?
– Quando o meu marido morreu senti necessidade de vir para aqui e continuá-lo. Sei que o meu marido queria que eu o continuasse.
– O seu marido disse que ele próprio tinha ideias para romances e que a Pilar tinha ideias para a vida. Que ideia, ou ideias, estiveram sempre subjacentes à vossa vida?
– Ai, não sei... Foi fazer o que considerámos certo, independentemente do que os outros pensavam. José Saramago nunca se contentou com a contemplação do mundo e interveio para que ele ficasse um sítio melhor. Compartilhávamos muitas ideias e uma mesma forma de ver o mundo, e foi por isso que nos vimos uma segunda vez. Ele defendia os direitos individuais e sociais das pessoas. Era um livre pensador!

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