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Dulce Maria Cardoso: “Então a metrópole afinal é isto”

O livro ‘O Retorno’, que publicou em 2011 e resgata a experiência dos retornados portugueses depois da Revolução, foi o pretexto para esta conversa com Rita Ferro.

Rita Ferro
18 de fevereiro de 2012, 17:00

Dulce Maria Cardoso é uma escritora-fe­nómeno: chegou, publicou e venceu, e o seu incrível talento é hoje consensual junto do público e da intelectualidade mais exigente. Nasceu em Trás-os-Montes em 1964 e, criança ainda, embarcou no Vera Cruz com destino a Angola. Regressou em 1975, mas não se perdeu: licenciou-se em Direito pela Faculdade de Direito de Lisboa, escreveu contos e argumentos para cinema e o seu romance de estreia, em 2002, foi distinguido com o Grande Prémio Acontece e logo internacionalizado – só quem conhece a singularidade  do nosso meio literário sabe avaliar quanto isto é raro. Lobbies? Não tem. Não se insinua, não se imiscui, esquiva-se das atenções e é contida na socialização: escreve serena e retiradamente, seguindo a sua estrela, e o resultado foram mais três livros igualmente aclamados: Os meus sentimentos (romance), Até nós (contos) e Chão de pardais (romance). Em Julho de 2009, a Europa ouve-lhe a voz e distingue-a com o prémio da União Europeia para a Literatura. Os seus romances estão hoje editados em França, Brasil, Argentina, Espanha, Itália, Holanda, Grécia, Sérvia, Bulgária e Croácia, e são  objecto de estudo de várias universidades portuguesas e estrangeiras. Recentemente, em 2011, publicou um livro que resgata a experiência dos retornados portugueses, depois da Revolução, obrigados a voltar a Portugal desonrados, privados de todos os bens e em condições  humilhantes: O retorno. Foi sobre esse livro pioneiro pelo que relata e o seu ofício de escritora que conversámos no Círculo Eça de Queirós, onde a autora, que não conhecíamos, se revelou igual à sua obra: lúcida, luminosa, encantatória.
– Quando é que o Dom te visitou ou ti­veste consciência de uma possível vocação?
Dulce Maria Cardoso – Não comecei a escrever por ter consciência de um Dom ou de uma vocação. Quis escrever por gostar de criar mundos onde me sinto mais confortável. Comecei a inventar esses mundos quando cheguei aqui, vinda de Angola. Fui a minha primeira personagem. A vinda para cá foi muito complicada e para que os dias não custassem tanto a passar inventava histórias parecidas com as que costumava ler. Era uma personagem a viver uma estranha aventura na metrópole. Foi assim que aprendi a inventar personagens e enredos. Mas para conseguir criar romances ou contos a partir deles era preciso sabê-los escrever. Nisso os livros ajudaram-me tanto ou quase tanto quanto a vida.
– Algum autor em especial?
– Não. Ia às bibliotecas e requisitava qualquer coisa, quanto mais grossa a lombada fosse melhor, poupava-me idas à biblioteca. Foi um acaso ter gostado mais do Dostoievsky do que da Corin Tellado, que tinha mais títulos publicados e era em geral mais requisitada.
– Qual a tua fonte mais poderosa? A in­fância ou o que viveste a seguir?
– Concordo com a Flannery O’Connor quando diz que quem sobrevive à infância tem matéria suficiente para o resto da vida. Mas a minha adolescência enquanto retornada expôs-me muitas vezes quer à maldade quer à bondade (infelizmente mais à primeira do que à segunda). Numa idade em que, em geral, a aprendizagem do mundo que nos rodeia desacelera porque já conseguimos reconhecê-lo e sentimo-nos confortáveis nele, o meu mundo desabou e fiquei desprotegida como se fosse outra vez criança. Neste sentido, a minha adolescência foi simultaneamente uma segunda infância e uma antecipação da idade adulta. O que se seguiu também foi importante, mas acho que é impossível contornar o que a infância define. Por isso, muito possivelmente, tudo o que se cria, cria-se a partir de lá.
– A escrita, para ti, é exorcismo ou serviço?
– Nem uma coisa nem outra. É uma maneira de chegar aos outros. Acho que a grande batalha deste ofício de estarmos vivos é a batalha contra a solidão. Nascemos sozinhos e talvez com a missão de não morrermos tão sozinhos. A escrita permite que chegue a outros e pode vencer barreiras de espaço e tempo. Emociono-me
com textos que foram escritos a milhares de quilómetros de distância ou há centenas de anos. Espero que, de alguma maneira, o que escrevo também consiga isso.
– Como vês o nosso meio literário?

– Conheço mal. Tenho dificuldade em sentir-me parte de um grupo. Qualquer grupo que se organize acaba sempre por criar um sistema imunitário através do qual tenta manter afastada a ameaça que estranhos podem constituir. Nesse sentido, os requisitos de aceitação por parte do grupo nem sempre passam pela competência. Mas escrever tem uma vantagem: é um acto solitário.
– Quando a rapariga de África conheceu as da metrópole que choques sentiu?
– Em O retorno há um capítulo em que a personagem que é o narrador, o Rui, um adolescente, chega à metrópole. O capítulo é só uma frase: Então a metrópole afinal é isto.  O romance não é autobiográfico mas eu podia ter dito essa frase. Penso que qualquer retornado que não conhecesse a metrópole podia ter dito esta frase. Concretamente em relação às raparigas, achei-as mais tristes e presas a um sem-número de regras. Diziam muitas vezes, isso não se deve fazer. E “isso” podia ser simplesmente ir à praia acompanhada por rapazes.
– Quem passou por África é mais livre de ideias e  preconceitos ou é impressão minha?
– Agrada-me pensar que sim. Tudo contribuía para que fossemos mais tolerantes: o clima, o espaço, as paisagens, a maior facilida­de em ganhar dinheiro. A vida era mais fácil lá. Muitas vezes a estreiteza do pensamento e o preconceito estão relacionados com vidas mais difíceis. Mas quando digo que lá a vida era mais fácil estou a referir-me à população branca. A grande maioria da população negra vivia mal. Isso é tanto mais inaceitável quanto a riqueza de Angola permitia que toda a população, branca e negra, pudesse viver bem.
– Angola é um país difícil de entender até para os angolanos – como a vês?
– É um país muito rico em recursos naturais com um número elevadíssimo de cidadãos pobres e muito pobres. Alguma coisa continua a estar profundamente errada.
– Enxergas algum lado redentor no José Eduardo dos Santos?
– O José Eduardo dos Santos é presidente de Angola há 33 anos. É um homem muito rico num país onde há milhões sem água potável sequer, num país que tem a mais elevada taxa de mortalidade infantil e um dos maiores índices de corrupção. Acredito que o mais terrível dos homens terá sempre uma virtude ou outra mas aparentemente o José Eduardo dos Santos ainda não conseguiu utilizar as que eventualmente tem para construir ou deixar que construam um país justo onde os seus cidadãos vivam dignamente.
– E como vês Portugal? O Portugal de que os teus pais falavam e aquele que vieste a encontrar?
– Portugal melhorou desde 1975. Em 1975 o atraso de Portugal era assustador. Mas precisava de ter melhorado muito mais. Sei que é um país com poucos recursos. Mas também sei que os nossos governantes têm feito um mau trabalho. Por incapacidade, negligência ou dolo. Para estarmos como estamos tem de haver quem possa ser responsabilizado e custa-me que ninguém seja. Envergonha-me saber que Portugal é um dos países da Europa com maiores assimetrias em termos sociais.
– Sei que gostas de animais ao ponto de quereres ser vegan. Queres falar-nos disso?
 – É uma posição ética. Não tem que ver com gostar deste ou daquele animal mas sim com o facto de que a utilização que fazemos da grande maioria deles os sujeita a um sofrimento inadmissível e absolutamente condenável do ponto de vista ético. Enquanto persistir a indiferença e a aceitação do sofrimento de outros seres, sejam pessoas sejam animais,  a humanidade está em causa.
– E o amor, Dulce?
– Tenho a sorte de não ser como uma das minhas personagens que dizia conhecer o amor de ouvir falar.
– Quem és tu?
– Talvez os outros saibam explicar melhor quem eu sou, já que me conheço tão de­talhadamente que se torna difícil a visão do todo. Por outro lado, estamos sempre a mudar. Talvez só no fim, só com a morte, se possa dizer, aquela pessoa foi assim. Entre­tanto – um entretanto que espero que seja longo – gosto de andar por aqui debaixo deste céu tão azul e com esta luz maravilhosa que só vejo em Lisboa a descobrir como se pode ser uma pessoa melhor e consequentemente mais feliz.
NOTA: por vontade da autora, este texto não segue as regras do novo acordo ortográfico.

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