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Carlos Cruz: "A Raquel nunca duvidou de mim. Estou-lhe eternamente grato"

O ex-apresentador de televisão, condenado a sete anos de prisão por três crimes de abuso sexual de menores, lançou ‘Inocente Para Além de Qualquer Dúvida’, onde tenta mostrar que é vítima de um enorme erro judiciário.

Cristiana Rodrigues
5 de fevereiro de 2012, 10:00

Provar a sua inocência no processo Casa Pia, no qual foi condenado a sete anos de prisão por três crimes de abuso sexual de menores, continua a ser a meta principal de Carlos Cruz, que acaba de lançar o livro Inocente para Além de Qualquer Dúvida. E nesta altura da sua vida, quando se imaginava a viver tranquilamente junto da família, com um programa de algum sucesso e uma reforma quase dourada, continua atrás de respostas para um crime que diz não ter cometido. A luta pela sua verdade custou-lhe o afastamento físico da filha mais velha, Marta, de 27 anos (do seu casamento com a ex-manequim brasileira Marluce), que optou por ir viver para o Brasil devido à perseguição da imprensa; e ainda o não acompanhamento do crescimento da sua filha mais nova, Mariana, de nove anos – que tinha apenas dez meses quando foi preso preventivamente –, fruto da sua relação com Raquel Rocheta. Também esta relação, aliás, foi vítima desta batalha, terminando em divórcio. Marcas indeléveis com as quais o ex-apresentador de televisão, de 69 anos, tenta conviver.
– Ser vítima de um "clamoroso erro judiciário", como diz no seu livro, custou-lhe a liberdade?
Carlos Cruz –
Evidente que não sou uma pessoa totalmente livre como era... Quando se vive quase 24 horas obcecado por um tema que inclusivamente contribuiu muito para a erosão de uma relação familiar, é evidente que se pode dizer que sou prisioneiro desse tema.
– Fala em erosão familiar. Este processo custou-lhe o afastamento físico da sua filha Marta e ditou o fim do seu casamento. Acha que poderia ter feito alguma coisa para inverter isto?
Em relação à Marta, não. Havia uma perseguição da comunicação social. Era uma vigilância completa de todos os segundos da vida dela. Foram publicadas muitas mentiras e ela tinha de se afastar, corria o risco de enlouquecer. Quanto ao casamento, deveria ter-me apercebido que estava a dividir mal o tempo, que estava a entregar pouco tempo à família, transforman­do-a também em vítima do processo, e não tive essa perceção exatamente devido à obsessão. Eu tinha de chegar à verdade, tinha de tentar perceber porquê, quem... Tinha de ler tudo, analisar, cruzar informações e isso eu poderia ter feito de uma forma menos doentia.
– Arrepende-se, então, de não ter prestado mais atenção ao seu casamento?
É um arrependimento relativo. Arrependo-me porque me custou uma relação ótima com a Raquel, por outro lado, não sei se seria capaz de abdicar do que fiz, porque o fazia em nome de uma luta pela minha absolvição, pela demonstração da minha inocência, um valor extremamente importante para a família. Portanto, ou dedicava menos tempo ao processo e deixava que se formasse uma convicção errada nas pessoas, ou lutava para que essa convicção fosse no sentido da verdade e da minha inocência e um dia ficaria mais livre para a família.
– Acha que também teria de provar essa inocência à Raquel?
De maneira nenhuma. A Raquel sempre defendeu a minha inocência e tem razões para isso, até porque esteve comigo em momentos em que a acusação dizia que eu estava noutro sítio, portanto, ela é uma das teste­munhas privilegiadas. Ela nunca duvidou da minha inocência e isso foi fundamental para eu manter a energia. Estou-lhe eternamente grato. E agradeço-lhe ainda o papel fabuloso que desempenhou como mãe, em anos muito complicados para o crescimento de uma criança. É uma mulher extraordinária.
– Ainda ama a Raquel?
Não gostaria de responder a esta pergunta...
– Por vezes as relações acabam e o amor não...
O amor como a paixão são sentimentos que têm sempre uma componente de transitoriedade, isto é, as paixões são flashes na vida, o amor... tenho dúvidas de que seja um sentimento eterno. Mas tenho a cer­teza absoluta de que a amizade é um sentimento eterno. Se pergunta se amo a Raquel, seria desonesto a dar-lhe uma resposta, porque não tenho sequer disponibilidade sentimental para fazer esse tipo de análise. Tenho muita ternura pela Raquel, tenho muito respeito, admiração, quero que ela seja muito feliz, porque sendo ela feliz eu ficarei feliz e sendo ela feliz tenho a certeza de que a nossa filha será feliz, e essa é a minha preocupação. O que interessa é que a Raquel viva a vida dela intensamente e como merece.
– Numa en­trevista à CA­RAS a Raquel diz: "O Carlos estava à espera que eu pedisse o divórcio há mais tempo." É verdade?
Pus muitas vezes essa hipó­tese, porque ao fim do dia olha­va para ela e pensava no computador e no processo... Pensei algumas vezes: “Esta mulher não pode aguentar, o que esta mulher está a fazer é um sacrifício e eu não tenho o direito de lhe pedir isso.” Mas também não tinha coragem para ser eu a sugerir-lhe tal coisa, portanto, quando chegou o momento, teve a minha bênção e a liberdade toda que ela merece.
– Viver dois casamentos onde não se cumpriu o voto "até que a morte nos separe" é uma frustração?
Três casamentos... Não, não é uma frustração. Isso é o tipo de promessas que se fazem na cerimónia de casamento que são extremamente desonestas. Faz parte do cerimonial, mas não há ninguém na vida que possa fazer uma promessa para ser cumprida até ao fim dos seus dias. Se me perguntar se acredito em relações até que a morte os separe, acredito que há pessoas que são bafejadas por essa sorte, e quem me dera que me tivesse acontecido. Mas é preferível uma separação de que uma relação fingida.
– Os seus pais viveram até que a morte os separasse?
Sim, por dois conjuntos de circunstâncias. Quer pela cultura – o meu pai era um conservador para quem era impensável admitir uma separação –, quer pela idade, pois morreu com 66 anos. A minha mãe morreu aos 101. Sobreviveu quase 50 anos à morte do meu pai, sempre vestida de preto...
– Deve ser difícil lidar com a ausência dos seus pais, mas ima­gino que sinta ao mesmo tempo algum alívio por eles não terem assistido a este processo...?
Sinto um alívio, sim. A minha mãe era uma pessoa de afetos, de emoções, e teria sofrido tanto, tanto, tanto que teria morrido de desgosto como eu acho que morreu o Fialho Gouveia.
– Está quase a completar 70 anos. É tempo para traçar novas metas?
Não. A minha meta é provar a minha inocência. Provada que seja, talvez tenha tranquilidade de espírito para projetar alguma coisa...
– A busca da verdade, a tentativa de provar que a justiça está errada, tem sido quase uma profissão?
Tecnicamente, pode ser considerado uma profissão. Não quero provar que a justiça está errada, a minha atitude não é contra a justiça, porque a justiça, para mim, é o mais alto valor do ser humano e há necessidade de cultivá-la e de viver com ela para que as sociedades sejam democráticas, harmoniosas, e sejam no fundo justas com a aplicação da justiça. O problema que se põe neste caso é o facto de a justiça ter sido mal aplicada e de ter sido construído um erro judiciário de uma dimensão enorme com implicações muito graves na minha vida e na vida da minha família.
– Disse em novembro de 2002 que enquanto houvesse um português que acreditasse que era pedófilo, não ia desistir. Acha que esse dia chegará ou há sempre quem fique na dúvida?
Da forma como este processo aconteceu, é evidente que não procuro unanimidade, vai haver sempre alguém com uma dúvida. Agora inverto o discurso: enquanto houver alguém que acredite que sou inocente, conti­nuarei a minha luta.
– Foi por isso é que escreveu  este livro?
Sim. Este livro foi escrito ao fim de meses de investigação, de análise das declarações em tribunal, numa linguagem acessível e que dê às pessoas informações suficientes para formarem uma convicção. As pessoas conhecem do processo Casa Pia o que leram nos jornais, o que viram na televisão, o que ouviram na rádio, e depois conhecem uma sentença. Não conhecem os fundamentos da sentença, de resto, não tem fundamentos. Pensam: foi condenado, é culpado. Ora, as coisas não são tão lineares, e se as pessoas forem intelectualmente honestas, se abdicarem de convicções preconcebidas, este livro pode dar-lhes o outro lado da história, provas que estão no processo, contradições das declarações dos próprios inspetores da Judiciária... Como diz o Miguel Esteves Cardoso: “Leiam o livro e apanhem um susto.”
– Foi condenado a sete anos de cadeia, os recursos estão penden­tes no Tribunal da Relação de Lisboa. Se a decisão não lhe for favorável, está preparado para cumprir pena?
Atitudes não há muitas, ou vou preso ou não vou preso. Não quero especular sobre cenários futuros porque quero acreditar que será feita justiça. Tenho de acreditar nisso, senão, não vale a pena esta luta, que já não é minha. Faço esta luta muito em nome das minhas filhas, nomeadamente da Mariana, porque é fundamental para o bem-estar e para o crescimento dela.
–  Acha que um dia vai conse­guir ter uma vida normal?
Não, é uma hipótese de que eu já abdiquei. Vou ter uma vida normal comigo próprio, e disso nunca abdiquei. Haverá sempre um grão de areia na máquina e o meu projeto e a minha tranquilidade é entender o grão de areia, não lhe dar importância, relativizar e viver com a minha consciência tranquila como tenho vivido até hoje.

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