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Caso Rui Pedro: “O Afonso não tem o direito moral de estar calado”, defende Ricardo Sá Fernandes

Depois da emoção vivida nas alegações finais, aguarda-se a leitura do acórdão dia 22 de fevereiro.

Joana Brandão
29 de janeiro de 2012, 00:50

O dia das alegações finais do julgamento de Afonso Dias, acusado do rapto de Rui Pedro, foi particularmente difícil. Ao longo de quase nove horas, a procuradora do Ministério Público e os advogados de acusação e defesa defenderam a sua interpretação dos factos perante o silêncio do arguido que, tal como tinha acontecido nas sessões anteriores, assistiu a tudo sem se pronunciar.
Depois da procuradora Elina Cardoso ter pedido seis a sete anos de prisão para Afonso Dias, por ter “a certeza de que o arguido consumou o crime [de rapto]”, foi a vez dos advogados fazerem as alegações.

Com a voz embargada, o advogado Ricardo Sá Fernandes recorreu ao testemunho prestado por Filomena Teixeira em tribunal para se dirigir ao coletivo de juízes. O advogado da família de Rui Pedro lembrou as palavras sofridas da mãe do menino de 11 anos que desapareceu de Lousada dia 4 de Março de 1998, emocionando todos os presentes na sala de audiências. Ao longo de duas horas explicou porque espera que o arguido seja condenado pelo rapto de Rui Pedro: "O silêncio de Afonso Dias faz-nos pensar no pior. A única explicação que encontro para ele continuar sem falar é a de que está a esconder algo pior do que está aqui em causa." Esgotada, dois meses após o início do julgamento, Filomena chorou ao ouvir as palavras de Ricardo Sá Fernandes, que enalteceu a força e luta travada por toda a família ao longo destes quase 14 anos. "O Afonso tem o direito jurídico de estar calado, mas não tem o direito moral ", defende na esperança que o arguido mude de atitude e fale em tribunal. "Ele ainda está a tempo de se arrepender. Temos a esperança remota que Afonso Dias caia em si como homem e diga o que aconteceu", afirmou o advogado que, sem se pronunciar sobre a medida de pena a aplicar - corroborando com o mínimo de seis a sete anos pedidos pela Procuradora do Ministério Público -, concluiu: "Queremos que o arguido seja condenado, mas se ele não falar vamos continuar a procurar o Rui Pedro. É justo que seja condenado, mas a nossa luta só terminará no dia em que descobrirmos o que aconteceu naquele dia."
Por sua vez, Paulo Gomes pediu a absolvição do seu cliente, considerando não ter ficado provado o crime pelo qual está acusado. “Não vai ser possível dar como provado que foi Afonso Dias que levou Rui Pedro até Alcina Dias”, defendeu o advogado do arguido. Num dia “particularmente difícil", Paulo Gomes chorou ao lembrar que também é pai, reafirmando que partilha do sofrimento dos pais do menor desaparecido. Palavras que também fizeram Manuel Teixeira chorar e causaram transtorno entre os assistentes.
Considerando este “um caso humano muito complicado”, o advogado concordou com Ricardo Sá Fernandes afirmando que Afonso Dias "tem o dever moral de dizer o que aconteceu naquele dia". Dirigindo-se aos pais do menino, Paulo Gomes disse: “Vocês têm o direito de lhe perguntar e ele o dever de responder. Eu transmiti-lhe isso desde início.
Convicto de que se Afonso Dias falasse em tribunal iria dizer o que já consta no processo, Paulo Gomes sugeriu um encontro informal, à margem do julgamento, entre o arguido e os pais de Rui Pedro para que estes pudessem colocar todas as questões que se têm vindo a fazer nos últimos 13 anos. A reação de Ricardo Sá Fernandes não se fez esperar: "Essa proposta no contexto deste julgamento é indecente.” Também Manuel Mendonça se mostrou indignado com esta sugestão: “Ele sabe que nós, os pais, estamos há 13 anos à procura do nosso filho. Nós não queremos um encontro. Se ele nos quiser dizer alguma coisa que pegue numa folha e nos diga onde é que está o Pedro que nós vamos lá buscá-lo.
Certo de que o seu cliente está “moralmente a ser julgado pelo desaparecimento do Rui Pedro e disso nunca se vai livrar mesmo que seja absolvido”, Paulo Gomes defendeu que, neste julgamento, “está em causa a liberdade do Afonso”.
A leitura do acórdão foi marcada para o dia 22 de fevereiro às 14 horas.

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