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Maria João Lopo de Carvalho: “Sem estabilidade emocional não consigo escrever uma linha”

O fascínio de Maria João pela vida da marquesa de Alorna levou-a a escrever um livro sobre ela, que viveu parte da sua vida em Almeirim, na Quinta da Alorna, onde se realizou este encontro com a CARAS.

Esmeralda Costa
28 de janeiro de 2012, 17:00

Dona de uma energia con­tagiante, Maria João Lo­po de Carvalho, autora recomendada pelo Plano Nacional de Leitura, regressa à escrita para adultos com Marquesa de Alorna. Um projeto concretizado com a ajuda fundamental do marido, o historiador José Maria Casal Ribeiro, e do filho, Tomás Vilarinho Pereira. É no núcleo familiar – tem ainda uma filha, Rita – que encontra o equilíbrio emocional para mergulhar de cabeça nos seus sonhos. Em contagem decrescente para os 50 anos, é uma mulher de bem com a vida e feliz.
– Que objetivo tinha com este livro?
Maria João – Além de contar uma história, despertar o interesse do público para a história da marquesa de Alorna e para conhecer Portugal nos séculos XVIII e XIX. Precisamos de referências passadas para encarar o futuro. Se a Leonor de Almeida Portugal conseguiu vencer as forças contrárias, nós, mulheres do século XXI, em mãos com esta crise, também vamos ser capazes de a ultrapassar. Como? Buscando referências do passado, de mulheres que o conseguiram fazer. Estou contente por este livro ter mais uma função, dar força às mulheres portuguesas.
– Escritora de romances históricos versus escritora infantojuvenil: quem ganha?
[risos] Mistura explosiva! A coleção 7 Irmãos tem posto muitos adolescentes a ler. Por isso, nunca deixarei de o fazer, é minha obrigação incentivar os mais novos a gostar de ler. O mesmo acontece com o romance histórico, tal como esta Leonor de Almeida Portugal, que serviu de exemplo, há muitas outras mulheres perdidas na história. Vou descobri-las, estudá-las para as dar a conhecer ao grande público. As escritoras empatam!
– Envolver a família no livro foi uma forma de compensar o tempo não partilhado?
– Nisso sou muito egoísta, precisei mesmo da ajuda deles [risos]. Como não sou formada em história, vi-me obrigada a estudar muita História de Por­tugal para poder interpretar os factos pela cabeça da marquesa. Vou compensá-los agora!
– É fácil trabalhar em família?
– Da experiência na empresa [a Know How, que ensina português e inglês], posso dizer que se cria espírito de equipa. Esse espírito aconteceu com o livro e todos trabalharam para um projeto comum, cada um deu a sua mais-valia.
Além de ter sido muito gratificante, estão contentes com o resultado.
– A família é fundamental no processo criativo?
– Sim, é a grande vanta­gem de ter estabilidade emocional, sem esta estabilidade não consigo escrever uma linha. Basta estar ansiosa para já não conseguir concentrar-me no processo de escrita. É a grande mais-valia que a família dá.
– Sente que cumpriu o papel de mãe?
– O futuro o dirá, mas pelo menos as bases, espero que lá estejam. Fiz o que pude, sou humana e sei que falhei muitas vezes. Tentei transmitir os valores que herdámos da nossa família, exatamente como os recebi. Agora, eles o dirão no futuro e na vida que irão construir.
– Hoje, olhando para eles, vê os valores da família?
– Cada um à sua maneira. Há uma característica, muito engraçada, que todos temos na família: ninguém adormece zangado! Eu sou incapaz e eles incapazes são.
– É uma mãe atenta?
– Sou. Desde que se é mãe, nunca mais se dorme sossegada uma noite inteira, tenham eles um dia de vida ou 25 e 24 anos, as idades atuais. Estamos sempre numa permanente inquietação, com o coração fora do peito e é para sempre!
– É feliz e realizada enquanto mulher, mãe e cidadã?
– Feliz, com certeza! O meu expoente máximo da felicidade é saúde. Temos tido, infelizmente, casos muito tristes na família. Por isso, todos os dias agradeço a Deus por ter uma vida feliz, pela saúde, por ter os meus filhos ao pé de mim e pelo meu marido. Se sou realizada? Não. Para o ser, preciso cumprir o sonho seguinte. Não me sinto no fim do caminho, mas no princípio. Tenho muito por cumprir, muita estrada para caminhar [risos].
– A água do rio, o José Maria Casal Ribeiro, acalmou o mar do Guincho, a Maria João de Lopo Carvalho?
– [risos] As águas contaminam-se e é nesse encontro de for­ças das marés que está a virtude e o equilíbrio.
– Que balanço faz destes anos de casamento?
– As pessoas só se devem casar quando atingem a maturi­dade suficiente para tirar o melhor que o casamento tem. Eu só devia ter casado aos 45 anos [risos]! Neste momento estou numa fase madura para saber apreciar a estabilidade emocional. O balanço é positivo, porque adquiri esta maturidade, estou bem e feliz num casamento estável!
– Qual é o vosso segredo, uma vez que são tão diferentes?
– Parece lugar-comum, mas o segredo é dar inteira liberdade ao outro. Se não tiver inteira liberdade, não sou feliz para fazer o que gosto: escrever, estar com as amigas ou trabalhar. Ele não está feliz se não jogar golfe, se não tiver os seus momentos so­zinho, de silêncio e recolhimento. Eu sou mais histriónica, ele é mais calmo.
– Em maio próximo fará 50 anos. O que lhe trouxeram estes 50 anos?
– Uma vida cheia e vontade de viver mais 50. Só tenho uma coisa a dizer: graças a Deus porque já estive 50 anos neste mundo. Não tenho medo de envelhecer. Aliás, só posso dar graças a Deus por me ter dado uma vida feliz, uma família boa, capacidade para escrever, trabalhar – de que nunca me canso – e a maturidade. Os 50 anos trazem essa maturidade e capacidade de olhar com outra serenidade, postura e outro equilíbrio.
– 40 livros, 50 anos...
– Vou continuar a escrever! No próximo ano vou escrever dois livros da coleção 7 Irmãos, um outro sobre a zona de Santarém, ainda em segredo, e vou começar a pensar na próxima mulher. Vamos ver se aos 60 anos tenho 60 livros [risos].

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